O segundo dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 ocorre neste domingo (16/11) e o Brasil volta os olhos para os jovens que carregam mais que expectativas: estudantes autistas enfrentam barreiras sensoriais, emocionais e sociais que vão além da sala de aula — e revelam por que a permanência no ensino superior ainda é um dos maiores desafios desta geração.
Estamos a menos de dois dias da segunda etapa de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
O primeiro, realizado em 9 de novembro, levou milhões de estudantes às salas de prova em todo o país — 4,8 milhões de inscritos, segundo o INEP. Mas, para muitos jovens autistas, o desafio vai muito além das 5 horas de avaliação.
Entre barulhos inesperados, estímulos sensoriais, longos períodos de concentração e a pressão emocional, o exame nacional é também o retrato de uma travessia: a entrada na vida adulta.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, e apenas 25,4% dos adultos com TEA concluíram o ensino médio.
Os dados mostram uma realidade dura: mesmo quando conseguem vencer o vestibular, a permanência na universidade ainda é um obstáculo. Falta apoio, acolhimento e preparo institucional.
O que o ENEM revela
Sarita Melo, mãe atípica e idealizadora da Jornada do Autismo, diz que o exame a faz pensar no futuro de sua filha, Elisa, de 6 anos, autista não verbal.
“Quando vejo esses jovens enfrentando o ENEM, penso em tudo que ainda precisa mudar até minha filha chegar lá. A inclusão começa na infância, mas precisa atravessar a vida inteira — da escola ao mercado de trabalho”, pontua.
Sarita ainda explica que, ao pensar na programação do Congresso, ela também prioriza esses jovens que estão prestes a enfrentar o mundo fora da escola: “A sociedade ainda fala muito sobre diagnóstico e pouco sobre autonomia. É preciso preparar as famílias para o agora, mas também para o depois”, finaliza.
Segundo o Dr. Thiago Gusmão, neurologista da infância e adolescência e pesquisador em habilidades sociais no autismo, o período entre o fim do ensino médio e o ingresso na universidade é um dos mais críticos da vida do jovem autista.
“Essa fase é marcada por rupturas — perda da previsibilidade, exigência social e excesso de estímulos. O adolescente com autismo enfrenta diferenças no funcionamento cerebral, especialmente nas áreas responsáveis por controle emocional, empatia e autorregulação. Isso o torna mais vulnerável ao estresse, à ansiedade e à depressão, especialmente quando o ambiente não compreende seu funcionamento neurológico e emocional”, contextualiza Gusmão.
Ainda de acordo com o Dr. Thiago Gusmão, o ENEM é um dos momentos de maior sobrecarga emocional da vida escolar.
“O exame reúne todos os gatilhos possíveis: pressão social, quebra de rotina, ruídos, tempo limitado e altas expectativas. É fundamental que os jovens autistas tenham acompanhamento clínico e psicológico, além de conhecerem seus direitos — o ENEM tem uma cartilha de acessibilidade específica para pessoas com TEA, mas ainda é pouco divulgada.”
Tarso Enrique S. dos Santos, 16 anos, candidato autista que fez o ENEM pela primeira vez, resume a sensação: "O que mais me anima é poder escolher o que estudar, encontrar disciplinas que sejam do meu interesse. Também espero encontrar colegas com quem eu possa conviver sem nenhum tipo de conflito”, revela o jovem.
A travessia que o Brasil ainda não aprendeu a fazer
O primeiro Censo a incluir pessoas autistas no país revelou uma população jovem que sonha com o diploma, mas enfrenta barreiras cumulativas. A exclusão começa cedo — no diagnóstico, na escola, nas terapias — e chega à universidade em forma de evasão e de baixo estímulo à permanência.
Para a Dra. Leila Bagaiolo, psicóloga e referência nacional em Análise do Comportamento e Cognição Social, o problema não é a falta de capacidade, mas a falta de preparo das instituições.
“O modelo de ensino superior ainda é pensado para o aluno típico. Poucas universidades têm salas sensoriais, tutores de regulação ou professores capacitados para lidar com comunicação funcional. O sistema exige dos jovens autistas o que ele próprio não oferece: previsibilidade, estrutura e escuta. É uma conta que nunca fecha, pontua Bagaiolo.”
Ainda segundo a Dra. Leila, há caminhos possíveis e realistas. “As universidades podem começar com três eixos de ação: criar trilhas de acolhimento e tutores de referência logo no primeiro semestre; estabelecer planos individuais de aprendizagem e flexibilização de prazos; e investir na formação contínua de professores sobre comunicação clara e manejo de crises. Pequenas mudanças estruturais geram grandes transformações na inclusão real”, ressalta a psicóloga.
Sob a ótica comportamental, ela reforça que a cognição social é a chave para o desenvolvimento da autonomia.
“O jovem autista precisa compreender as regras sociais e, ao mesmo tempo, ser compreendido nelas. Treinar habilidades de autorregulação, autoconhecimento e comunicação assertiva é o que o ajuda a se sentir pertencente — e permanecer”, finaliza.
Dr. Thiago Gusmão ainda ressalta que o suporte preventivo pode fazer diferença no desempenho e na saúde mental.
“Rotina estruturada, sono regulado, alimentação previsível e simulações do ambiente de prova ajudam a reduzir o impacto do inesperado. O autista precisa de previsibilidade, rotina e apoio multiprofissional — quando corpo, mente e ambiente estão organizados, o cérebro autista responde com foco e clareza.”
No fim, o que o ENEM revela é o que o Brasil ainda não responde: como transformar presença em permanência.