O amor que guardei para mim

Quer ajudar quem precisa? Exerça a escuta atenta

Publicado em 12/07/2018, às 11h35 | Atualizado em 12/07/2018, às 11h54

Por Malu Silveira

Você pode ser a pessoa que fica no meio de tanta gente que preferiu ir embora / Foto: Pixabay

Você pode ser a pessoa que fica no meio de tanta gente que preferiu ir embora Foto: Pixabay

Nos últimos dias você provavelmente deve ter visto por meio das redes sociais uma notícia informando que a partir de agora o número 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), é gratuito para todos os estados brasileiros. Se espalhou que nem fofoca que devemos repassar essa informação para que assim ajudemos a combater o suicídio. Como uma ávida interessada neste assunto - por motivos pessoais e profissionais - e voluntária do serviço, não pude deixar de reparar que seria tão bom se nos dispuséssemos a ajudar quem precisa de apoio emocional na mesma medida em que compartilhamos tantos serviços de utilidade pública como se apenas isso já fizesse uma grande diferença.

 Sim, parece radical o que estou falando. E é mesmo. Se eu te disser que, no mundo, a cada quatro segundos uma pessoa tenta tirar a própria vida, você vai acreditar? Ou seja, dependendo da velocidade com que você lê um texto, no mínimo uns três indivíduos decidiram interromper sua caminhada neste plano enquanto você lia essa crônica "meio crônica meio reportagem". Já no Brasil, uma pessoa comete suicídio a cada 45 minutos. Façamos a conta. É mais de um ser humano por hora. Quando chega o fim do dia, foram mais de 30 pessoas que apagaram suas luzes aqui na Terra. Partiram com elas tantos sonhos, planos, conquistas, virtudes e desejos.

E você aí achando que postar frases feitas convidando as pessoas a divulgarem o número gratuito já está mais do que perfeito. Pronto, fiz minha parte. Fez nada. Quer dizer, fez um pouco, mas falta muito ainda. E eu vou te dizer o porquê de faltar tanto assim.

 Não adianta compartilhar mensagens de divulgação de um serviço tão bonito se você não se importa em escutar quem está do seu lado. Uma pessoa que muito provavelmente está definhando por dentro. Não faz sentido abrir os olhos para notícias “interessantes” da internet e fechá-los para quem enfrenta uma batalha interna e precisa da sua ajuda. De muito pouco vale incentivar o compartilhamento dessas notícias se você nada faz para ser parte essencial no tratamento de alguém que enfrenta enorme sofrimento psíquico.

 Falo isso porque já estive dos dois lados dessa luta. Tentar sobreviver às dores da alma e da mente. E tentar a todo custo agarrar alguém que está afundando nos seus próprios pensamentos. Há que ser forte. Nas duas fronteiras. Nessa batalha, você precisa se posicionar. Não deveria ter a opção de ser um mero espectador. Porque as pessoas estão morrendo! Todo dia. Todo s-a-n-t-o dia. Enquanto estamos tão ocupados vivendo nossas vidas, postando nossas selfies, compartilhando nossos momentos “históricos”, registrando nossos stories. As pessoas estão decidindo acabar com seu sofrimento interrompendo suas vidas. E muitas vezes assim o fazem (te digo isso com toda a certeza) porque não têm colo de mãe. Ou conforto de pai. Ou ombro de amigo. Salvo as exceções “insalváveis”, tem gente preferindo morrer porque se sente só. Mesmo rodeada de pessoas. É solidão que fala, né?

 Seja parte ativa na corrente que luta pela prevenção ao suicídio. Se o nome soa forte demais para você, então troque para “em prol da saúde mental”. Se eu te disser que uma pessoa emocionalmente doente tem o poder de contagiar que a rodeia, você acreditaria? Pois é verdade. E você, se tirar um tempinho do seu dia para investir em apoio ao próximo, estará contribuindo para uma sociedade mais psiquicamente saudável. Você pode, sim, fazer a diferença. E sabe o que é melhor? Custa um total de zero reais ajudar quem está cravando uma batalha interna.

 Se você ainda está em dúvida como pode ser útil neste processo, eu vou acabar com todos os seus questionamentos agorinha mesmo. Você pode ser ouvidos atentos, olhos compreensivos e mãos carinhosas. Pode ser gestos simples, mas profundos. Pode ser o motivo para uma caminhada no parque ou uma ida ao cinema.

 Você pode ser uma conversa demora no telefone. Mas sem julgamentos ou impaciência. Pode ser aquele que sempre cede porque tem condições emocionais de relevar os deslizes de quem enfrenta momentos de fragilidade. Você pode optar por escutar até o fim, sem interromper ou arranjar soluções que parecem óbvias e perfeitas na sua visão. Você pode ser um mero “escutador”. Por mais que pareça inútil, ser alguém que escuta tem um grande valor.

 Você pode ser a pessoa que fica no meio de tanta gente que preferiu virar as costas e ir embora. Você pode deixar de se preocupar apenas com os seus problemas do cotidiano e tentar ser de grande utilidade para quem, além de suportar os pepinos do dia a dia, ainda precisa aguentar os monstros da mente. Que vem sem ser chamados e só vão embora quando sentem vontade. Você pode deixar de fingir que se importa e de fato se preocupar de verdade. Eu digo de v-e-r-d-a-d-e. Deixando os preconceitos de lado e compreendendo as dores dos pacientes psiquiátricos.

 Não é frescura. Nem preguiça. Nem falta de Fé. Nem de coragem. Muito menos de roupa suja para lavar. Posso te afirmar com toda a certeza deste mundo - e de todos os outros desse universo - que não é piti de gente que muda de humor direto. Nem é muito menos falta de vontade. Gente, é dor real. De verdade mesmo. Consome, corrói, suga as energias por dentro.

 Apenas um telefone gratuito para acudir quem clama por socorro não é a solução para tantos males. Nós precisamos olhar mais pelos outros. As escutas precisam ser atentas. E antes de tudo, empáticas.

 Está precisando de apoio emocional? Ligue 188!


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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