A mulher e a lei

O drama das mães que não se casam pelos filhos

Publicado em 09/01/2017, às 07h02 | Atualizado em 09/01/2017, às 07h02

Por Gleide Ângelo

Mães viúvas ou divorciadas muitas vezes passam a viver só para a casa e os filhos. / Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Mães viúvas ou divorciadas muitas vezes passam a viver só para a casa e os filhos. Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Caros leitores,

No artigo desta segunda (9), escrevo sobre um mal que muitas mulheres sofrem e têm dificuldade para resolver: o ciúme excessivo dos filhos, principalmente dos filhos do sexo masculino. Existem mulheres que se separam ou ficam viúvas ainda jovens e abdicam da vida pessoal para cuidar exclusivamente da casa e dos filhos. Mas eles crescem e seguem seus destinos, muitas vezes deixando as mães sozinhas.

Atualmente, existem muitos locais que promovem encontros de pessoas da terceira idade, com diversos espaços de laser, músicas, esportes e outros tipos de entretenimento. Essas atividades preenchem espaços vazios que existem em muitas mulheres que escolheram cuidar da família e hoje se encontram em uma imensa solidão.

Depois de muitos anos sozinhas, algumas mulheres decidem buscar um novo relacionamento amoroso. E quando encontram esse novo amor, vem a grande decepção: a rejeição dos filhos, que não admitem que "sua" mãe, que sempre foi propriedade exclusiva, possa estar se relacionando com outro homem.

Esse foi o drama que Dalva** sofreu com o seu filho Pedro** quando resolveu se relacionar com Manoel** depois de 30 anos viúva. Fiquei curiosa com a história de Dalva e conversei com ela e seu filho. Queria saber o motivo pelo qual Pedro não permitia que sua mãe vivesse uma nova história de amor depois de tantos anos dedicada apenas à família.

O DRAMA DE DALVA

Aos 32 anos, Dalva ficou viúva com cinco filhos para criar. "Quando meu marido morreu, meus filhos ainda eram pequenos e tive que assumir toda a responsabilidade da casa. Tive que conseguir tudo com muita dificuldade, inclusive a alimentação deles. Minha família não tinha boas condições financeiras e me ajudava da forma que podia. Comecei a lavar e passar roupa para ganhar dinheiro. E sempre foi assim, com muita dificuldade".

Enquanto Dalva falava do passado, Pedro ouvia atentamente com os olhos cheios d'água, relembrando os tempos difíceis que passaram. E Dalva continuou: "Eu não tinha tempo para mim, tudo na minha vida era em razão dos meus filhos. Muitas vezes fiquei sem comer para que não faltasse para eles. E assim fomos vivendo e eles crescendo. Só que todos cresceram, estudaram e se casaram. Eu nunca quis morar com meus filhos, gosto da minha casa e acho que iria atrapalhar a vida deles".

Quando Dalva disse atrapalharia a vida dos filhos se fosse morar com eles, rapidamente Pedro balançou a cabeça, não concordando com o que a mãe estava falando. Com a saída dos filhos de casa, Dalva ficou sozinha. "Eu chorava todos os dias sozinha, sem ninguém saber. Sempre tive a casa cheia de filhos e não imaginava que seria tão triste ver minha casa vazia", afirmou.

A tristeza de Dalva chamou a atenção de uma vizinha que começou a ir à casa dela com mais frequência e a convidava para sair. "No começo recusava os convites da minha vizinha, mas ela dizia que eram encontros de pessoas que tinham a minha idade, que se divertiam dançando, fazendo ginástica, artesanato. Certo dia resolvi conhecer o local e tive uma grande surpresa em ver pessoas com idade mai avançada que a minha fazendo exercícios, dançando, jogando, sendo felizes. Foi nesse momento que olhei para dentro de mim e vi que nos meus 62 anos, nunca me diverti tanto como naquele dia".

Na conversa, Dalva disse que continuou a frequentar os encontros e fazer novas amizades, até o dia em que conheceu Manoel, um viúvo muito divertido que gostava de dançar todos os ritmos. "Quando conheci Manoel, parecia um amigo de muitos anos, daqueles que você quer ver todos os dias e ficar perto. E foi isso o que aconteceu, uma grande amizade que aos poucos foi se tornando algo mais forte. Até que chegou o dia em que Manoel me disse que o que existia entre nós não era apenas amizade e que ele estava apaixonado por mim. Foi quando me pediu em casamento".

Dalva disse que esse foi um dos momentos mais felizes de sua vida, que depois de 30 anos ela estava com o espírito renovado, se sentindo viva. Muito feliz, marcou um almoço com os filhos para contar a novidade. O almoço foi em um sábado e os filhos foram com os cônjuges e seus filhos. "No início, tive muita dificuldade de falar, pois tinha vergonha. Mas tomei coragem e falei que tinha conhecido um homem muito especial e que ele tinha me pedido em casamento. Vi meus filhos, genros e noras felizes com a notícia, com exceção de Pedro, meu filho mais novo, que se levantou da mesa dizendo que isso era uma palhaçada e que eu deveria ter vergonha e respeitar o pai dele que já tinha morrido".

A atitude de Pedro machucou muito Dalva, que amava os filhos e não conseguiria viver com a mágoa de um deles. "Tentei diversas vezes conversar com Pedro, mas ele não queria nem escutar minha voz. Não conseguiria viver longe dele, por isso não aceitei o pedido de casamento de Manoel". Dalva deixou de frequentar o clube que ela se encontrava com os amigos e ficou em casa, deprimida. Manoel tentou diversas vezes ajudá-la, mas ela dizia que só casaria com ele se o filho permitisse.

Com isso, Manoel resolveu conversar com Pedro e disse a ele tudo o que ele precisava ouvir e nunca foi dito. Nesse momento, Pedro se recordou de tudo e disse: "Foi muito duro ouvir ele me dizer que eu era um egoísta, que se eu amasse minha mãe de verdade, iria querer a felicidade dela. Que eu preferia ver minha mãe em cima de uma cama do que ver a minha mãe feliz, com um companheiro. Isso me doeu muito e chorei bastante, principalmente quando vi a minha mãe chorando com depressão. Nesse momento me senti o pior filho do mundo e tudo o que fiz foi abraçar a minha mãe e pedir perdão. Eu disse que queria que ela se casasse e fosse muito feliz".

A partir desse momento Dalva se levantou da cama e foi se recuperando. Hoje ela está casada com Manoel, um homem que a faz feliz. Eles saem, se divertem, viajam e se respeitam. A felicidade de Dalva está estampada no rosto dela. "Hoje sou uma mulher realizada porque estou com o homem que amo e tenho o amor dos meus cinco filhos. Não conseguiria ser feliz se algum deles não aceitasse a minha união", disse.

O que podemos observar na história de Dalva é o que ocorre em muitos lares. Muitas mães se separam ou ficam viúvas e abdicam da vida para cuidar da casa e dos filhos. Depois eles crescem e seguem seus rumos, deixando as mães sozinhas. E quando ela tenta reconstruir a vida com um novo companheiro, ainda tem filhos que agem com egoísmo, como se ela fosse propriedade exclusiva dos seus desejos.

Há filhos que não enxergam as mães como mulheres que se sacrificaram para criá-los e que têm o direito de reconstruir suas vidas. Por isso, hoje falo para você que é mãe e está passando pelo mesmo drama que Dalva passou. Você já cumpriu sua obrigação de cuidar dos filhos e cada um seguiu o caminho que escolheu. Agora, está na hora de você escolher qual caminho seguir. Você não é apenas mãe, mas é também mulher. E como mulher tem sonhos, desejos, objetivos, esperança e vontade de amar e ser amada. Por isso, siga a sua estrada e se dê a chance de ser feliz. Se hoje os seus filhos não te entenderem, amanhã eles mudarão de opinião quando te virem feliz, segura e respeitada. Siga a sua estrada, que o resto o tempo resolve.

Você não está sozinha - veja em quais órgãos buscar ajuda contra a violência doméstica:

- Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008 / 3009 / 3010

- Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468.2485

- Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008

- Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107

- Central de Atendimento Cidadã Pernambucana - 0800.281.8187

- Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180

- Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)

**Nomes fictícios

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com

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