A mulher e a lei

"Por causa da violência doméstica, virei alcoólatra"

Publicado em 27/03/2017, às 07h02 | Atualizado em 27/03/2017, às 07h02

Por Gleide Ângelo

Diante da violência doméstica, muitas mulheres desenvolvem vícios que, aparentemente, amenizam a dor das agressões. / Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Diante da violência doméstica, muitas mulheres desenvolvem vícios que, aparentemente, amenizam a dor das agressões. Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Caros leitores,

No artigo desta segunda (27), falo sobre as consequências nocivas causadas pela violência doméstica. Algumas mulheres sofrem depressão e perdem a vontade de viver, outras se isolam da família e dos amigos e há também as que usam a bebida alcoólica como forma de fugir dos problemas. Conheci uma mulher que passou por todas essas fases, começando com a violência psicológica e, depois, passando às constantes agressões físicas. Esse foi o drama de Solange (nome fictício) que, de tanto sofrer, tornou-se alcoólatra e perdeu tudo o que tinha na vida, inclusive a dignidade.

Marquei com Solange na orla de uma praia. Quando ela chegou, pedimos água de coco e começamos a conversar. Solange é uma mulher de 42 anos, muito bem cuidada, culta e com muita história de vida para contar. Como tantas outras, casou cedo, com apenas 19 anos de idade. Era constantemente agredida pelo marido, até mesmo na frente dos filhos pequenos. Aos 26 anos, já era mãe de três. "Eu não trabalhava fora porque Marcos (nome fictício) não deixava. Passava o dia cuidando da casa e dos filhos e não terminei os estudos. Sempre quis voltar a estudar, mas ele dizia que eu era uma mulher casada e meu lugar era dentro de casa", lembra.

Com o tempo, o sofrimento de Solange foi aumentando já que as agressões eram quase diárias. Marcos bebia muito e, quando isso acontecia, sempre arrumava um motivo para espancar a esposa. Aos 28 anos, sem aguentar mais tanto sofrimento, Solange procurou uma forma de amenizar o sofrimento. "Já não aguentava mais sofrer tanto. Meu corpo ficava todo dolorido com os espancamentos. Não tinha para onde ir com meus filhos. Minha mãe já havia falecido e meus irmãos moravam em outros estados. Eu não tinha a quem pedir ajuda e não tinha como arrumar um emprego porque não tinha estudado", afirma.

O VÍCIO

"Foi quando olhei para uma garrafa de aguardente que Marcos tinha comprado. Ele bebia quase que diariamente e em casa tinha muita bebida. Tomei o primeiro copo e achei horrível, o álcool desceu queimando minha garganta. Mas continuei tomando até perder a consciência. Em seguida, dormi bastante. Quando acordei, os meus filhos estavam chorando com fome. Levantei com muita dor de cabeça, dei comida a eles e fui beber de novo. A sensação que eu tinha com a bebida, era que eu esquecia os problemas e sofria menos".

A partir daí, começou o pesadelo na vida de Solange. As agressões continuaram, porque quando Marcos chegava e sentia o cheiro de bebida, batia ainda mais. O problema foi aumentando como uma bola de neve. Solange começou a sair escondido para frequentar bares. "Marcos saía para trabalhar, eu deixava as crianças na escola e na volta já parava em um bar. Mesmo sem dinheiro, nunca faltou ninguém que pagasse a minha bebida", conta.

A vida de Solange se tornou um inferno e, por muitas vezes, ela bebia e esquecia de ir buscar os filhos na escola. Marcos saia do trabalho e ia buscar as crianças. Quando ele chegava em casa que via Solange embriagada, recomeçavam as agressões.

Os vizinhos de Solange começaram a se preocupar com a segurança das crianças e fizeram uma denúncia ao Conselho Tutelar. Quando o conselheiro chegou, ela estava embriagada com os três chorando de fome. Os filhos foram levados e só quando Marcos chegou do trabalho a situação foi resolvida. Com os olhos cheios de lágrimas, Solange relembra: "Perdi tudo o que tinha na vida, até os meus filhos foram tirados de mim. Pensei em me matar, mas não tinha coragem. Eu não queria morrer, só queria sair daquela vida de sofrimento, mas não sabia como. Pedi ajuda a uma amiga que disse que iria me ajudar, mas eu tinha que querer. Ela me levou para uma reunião nos Alcoólicos Anônimos. Lá, fiquei observando as histórias das pessoas de muita dor e sofrimento, mas eles conseguiram se libertar do vício. Foi naquele momento que tomei a decisão. Eu tinha consciência que era alcoólatra e queria ingressar no programa para me libertar do vício que estava me destruindo".

Com a decisão, Solange começou a frequentar as reuniões. Marcos não concordava, não queria que ela saísse de casa. Por isso, levou as crianças para a casa da mãe, dizendo que a esposa não tinha condições de cuidar delas.

Sem os filhos, Solange decidiu deixar Marcos. "Eu só suportava todo o sofrimento por causa dos meus filhos. Como ele os tirou de mim, eu não tinha mais motivos para ficar com ele. Eu precisava me tratar do alcoolismo para reconstruir minha vida e pegar minhas crianças de volta. Do jeito que eu estava, nenhum juiz me daria a guarda".



Solange foi acolhida na casa de uma amiga e continuou firme, frequentando as reuniões do AA. "Eu já estava me sentindo melhor, fortalecida, segura e disposta a mudar toda a minha vida. Eu já conseguia controlar a vontade de beber e sempre evitava o primeiro gole. Não frequentava mais bares e nenhum lugar que tivesse bebida alcoólica. Eu precisava me afastar de vez da bebida", diz.

Determinada a deixar o vício do álcool, Solange estava firme, mas Marcos não a deixava em paz. Ela podia visitar os filhos na casa da ex-sogra, mas era sempre tratada de forma ríspida e grosseira. Depois, Marcos começou a chantagea-la, dizendo que se ela voltasse para ele, ele recuperaria as crianças. Mas não era isso o que ela queria.

"Eu não queria voltar ao pesadelo que vivi, eu queria uma nova vida, apenas com a minha dignidade recuperada e com meus filhos. Eu sabia que se me tratasse e arrumasse um emprego, o juiz me daria o direito de cuidar das crianças". E foi isso o que aconteceu. Solange continuou firme no tratamento, frequentando todas as reuniões do AA e voltou a estudar para concluir o ensino médio. Em seguida, fez um curso profissionalizante de Gastronomia e começou a trabalhar em um restaurante.

Já estabilizada e equilibrada emocionalmente, contratou um advogado para regularizar a guarda dos filhos. Foi concedido a Solange o direito de cuidar das crianças e Marcos poderia visitá-las nos fins de semana. Muito feliz com a decisão, Solange foi na casa da sogra buscar os filhos. Ao chegar, teve uma surpresa: "Quando entrei na casa, minha sogra disse que Marcos queria falar comigo no quarto. Pensei que as crianças estavam com ele e fui até lá. Quando entrei, ele olhou para mim e disse 'tá pensando que vai ficar livre de mim assim? Você não vai levar as crianças, o que você vai levar é uns tapas para aprender a me respeitar'. Como sempre fez, ele partiu para cima de mim e começou a me espancar. Gritei pedindo socorro e a mãe dele não fez nada. Consegui me levantar, abrir a porta e sair correndo. Com os gritos, os vizinhos já estavam na rua. Pedi que me ajudassem e ligassem para a Polícia. Eles ligaram para o 190 e os policiais chegaram. Pela primeira vez, tive coragem de denunciá-lo. Fomos toda à delegacia e ele foi preso em flagrante".

Na delegacia, Solange requereu as medidas protetivas e foi com os policiais na casa da sogra para pegar seus pertences e os filhos. Algum tempo depois, Marcos foi solto, mas não a procurou mais, com medo de descumprir a medida protetiva e ser preso novamente. Hoje, Solange está com 42 anos, se especializou em Gastronomia e tem um bom emprego em um restaurante. Os filhos são adolescentes e estudam.

"Hoje eu tenho minha família feliz e equilibrada. A única coisa de que me arrependo é de não ter deixado Marcos antes. Deixei ele me maltratar por muito anos. Hoje, eu não aguentaria mais grito de homem algum. E agradeço aos integrantes do AA que me acolheram com muito amor", finaliza. Atualmente, Solange continua frequentando as reuniões, pois ela sabe que precisa de fortalecimento para ficar longe da bebida alcoólica.

Amigas, vendo essa história, observamos que a mulher buscou um vício para se livrar da violência. Na realidade, ela encontrou mais um problema que a levou ao fundo do poço, perdendo até a guarda dos filhos. Depois disso, Solange enxergou que precisava de ajuda para resgatar tudo o que perdeu. Primeiro, ela precisava se tratar da doença do álcool para se fortalecer e deixar Marcos, o agressor que tanto a fez sofrer.

Com o tratamento e fortalecida, Solange finalmente tomou a decisão de ir embora. Saiu de casa e foi reconstruir a vida. Fortalecida e estruturada, Solange conquistou a guarda dos filhos de volta e não permitiu mais ser agredida. Quando Marcos a agrediu, ela teve coragem de denunciá-lo e pedir as medidas protetivas. Hoje ela está livre para buscar a felicidade em um relacionamento com um homem que a respeite.

O exemplo de Solange serve para mostrar às mulheres que sofrem violência doméstica que o primeiro passo é a denúncia. Se Solange tivesse denunciado antes, não teria ingressado no vício do álcool, nem teria sofrido tanto. Por isso, encurte o caminho da felicidade e denuncie. Assim, você estará livre para viver e encontrar um verdadeiro amor.

Você não está sozinha - Veja onde procurar ajuda:

- Alcóolicos Anônimos de Pernambuco - (81) 3221.1555 // 3221.3592

- Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008 // 3009 // 3010

- Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468.2485

- Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008

- Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107

- Central de Atendimento Cidadã Pernambucana - 0800.281.8187

- Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180

- Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Célio Muniz- 27/03/2017 12:39 Quem não for de Pernambuco e portanto não conhecer a Delegada, vai ser induzido a imaginar que ela se tornou alcoolatra por sofrer agressões do marido.
  • De: Graça- 27/03/2017 12:17 Como eu gosto de ler essa coluna da Gleide Angelo! Parabéns mais uma vez! Que todos possam ler e acordar.
  • De: José Antonio da Silva- 27/03/2017 10:21 Acho bonito o trabalho da doutora de querer ajudar às mulheres. Mas, acho que ela sempre parte de que o homem é que é o problema. Se o homem é que origina o problema na mulher, por que não cuidar do homem primeiro?
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