Literatura

Recordação de um Mestre: Norberto Bobbio (1909-2004)

Publicado em 25/02/2004 às 18:22
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LITERATURA
Recordação de um Mestre: Norberto Bobbio (1909-2004)

Confira abaixo ferência feita por Mário Losano na Academia Pernambucana de Letras, no Recife, dia 9 de fevereiro de 2004.

"Hoje faz exatamente um mês que Bobbio morreu. Não consigo assim falar nem do seu pensamento, nem de sua influência na vida cultural e política italiana. Prefiro recordá-lo aos colegas da Academia e aos amigos que hoje me honram com sua presença como a pessoa que foi referência em toda a minha vida, que plasmou minha formação cultural, que acompanhou as minhas vicissitudes acadêmicas e profissionais e que, exatamente por isso, deixa hoje um vazio incomensurável.

"Encontrei Norberto Bobbio aos dezenove anos, no primeiro curso da Faculdade de Direito de Turim. Acompanhei suas aulas e me formei em 1962 com uma tese de direito constitucional em dois volumes; o primeiro volume foi orientado por Bobbio e foi publicado em 1969: A teoria de Marx e Engels sobre o direito e o Estado. Com Bobbio, tornei-me depois livre-docente em 1971, publicando na época o primeiro volume sobre Sistema e estrutura no direito, destinado a tornar-se uma obra monumental em três volumes. Em seguida, foi assistente de Bobbio na Faculdade de Direito de Turim, até quando Bobbio, em 1973, passou à Faculdade de Ciências Políticas, enquanto eu continuava minha carreira na Universidade de Milão. Com Bobbio, colaborei também na Editora Einaudi de Turim. Os nossos contatos foram muito estreitos até os últimos dias do mestre turinense.

"Na vida de Bobbio, o estudo do direito e o da política sempre estiveram fortemente conexos. Todavia, na sua vida cultural e acadêmica, o interesse pelos temas mais jurídicos que políticos dominou numa primeira fase, enquanto numa segunda fase predominaram os temas mais políticos que jurídicos. Essa mudança de acentos nos seus estudos se traduziu em 1973 na passagem da faculdade de direito àquela de ciências políticas, sempre em Turim. Assim, encontrei-o nas salas de aula turinenses enquanto vivia a "primeira fase" e se interessava pelo positivismo jurídico e pela filosofia analítica do direito. Por isso, fui por ele endereçado a Hans Kelsen. Com um gesto de confiança que ainda hoje me surpreende, em 1959 me confiou a tradução da segunda edição da Doutrina pura do direito.

"Trabalhar com Bobbio sobre Kelsen: experimentem imaginar o que pode significar para um bravo estudante traduzir um autor meticuloso como Kelsen sob a supervisão de um docente rigoroso como Bobbio, para o qual a clareza da exposição era um imperativo categórico! Esta necessidade de clareza restou até hoje como um tormento para mim e, temo, também para aqueles que trabalham comigo.

"Quando iniciei aquela tradução, era um estudante do segundo ano de direito e aquela tarefa grandiosa deixou um duplo sinal na minha vida.
"Por um lado, fez-me entrar em contato com a Editora Einaudi, aquela que publicaria a obra de Kelsen e na qual Bobbio era um conselheiro de alto nível. Foi também Bobbio quem - quando terminei a universidade - me fez entrar na mesma editora como colaborador. Ali restei até 1985. Naqueles anos, a editora era uma das realidades mais vivas do mundo cultural italiano. A curiosidade intelectual de Giulio Einaudi devo também a publicação em 1969 de um meu livro que fundou a informática jurídica na Itália (e que foi divulgado também no Brasil, mas essa é uma outra história).

"Por outro lado, aquela tradução fez de Kelsen e da filosofia do direito alemã um tema que me acompanharia por toda a vida. Mesmo poucos anos atrás, em 1998, Bobbio me confiou a tarefa de recuperar e publicar os manuscritos do debate entre Hans Kelsen e Umberto Campagnolo, ocorrido nos anos Trinta durante o exílio de ambos na Suíça. Consegui fazê-lo, e tive o prazer de levar-lhe, em 2000, a tradução daquele volume, publicada no Brasil: Direito internacional e Estado soberano. Com um texto inédito de Hans Kelsen e um ensaio de Norberto Bobbio.

"Bastem essas poucas menções para documentar uma aproximação pessoal que durou mais de quarenta anos. É por isso que hoje sinto o desejo de falar-lhes de modo pessoal sobre Bobbio, porque com ele desaparece um mundo que não é apenas meu, mas também da minha geração. De fato, entre Bobbio e eu existiam muitos pontos em comum - por assim dizer - "existenciais", pontos em comum que hoje não encontro mais na geração seguinte à minha. Trinta anos exatos separavam-me de Bobbio, nascido em 1909; mas a Turim dos anos Cinqüenta - os anos da minha universidade - não era no fundo radicalmente diferente da Turim dos anos Vinte, aqueles da juventude de Bobbio. Ao invés, os trinta anos que me separam dos meus estudantes, ou seja, dos anos Cinqüenta aos anos Oitenta, deixaram um sinal de tal forma radical, aponto de tornar quase incólume o fosso "existencial" entre mim e a geração seguinte. Freqüentemente pergunto-me o que conseguirei transmitir a eles desse mundo que foi meu. Bobbio, a seu modo, transmitiu-me muito.

"O que tínhamos, "existencialmente", em comum, Bobbio e eu? Tínhamos, por exemplo, o "piemontismo", entendido como sentido das raízes numa terra bem precisa, o que não impede absolutamente de estar aberto ao mundo. É um sentimento de segurança que tinha experimentado também Cesare Pavese, o escritor amigo de Bobbio e cofundador da editora Einaudi, nascido quatro colinas mais além daquelas nas quais ora está sepultado Bobbio, e onde eu mesmo nasci. Escrevia Pavese:

"É preciso um vilarejo de origem, nem que seja pelo gosto de ir-se embora dele. Um lugar assim significa não estar só, saber que nas pessoas, nas plantas, na terra, existe algo de seu, que mesmo quando você não está resta a lhe esperar" (Pavese, La luna e i falò).

"Esse significado das raízes e da continuidade se encontrava nos nomes das famílias, que perpetuavam nos filhos e nos sobrinhos os nomes dos avós e tios: o primeiro filho de Bobbio se chama Luigi, como o pai de Norberto. Hoje, naquelas colinas, as crianças não se chamam mais Evásio ou Albina, mas sim Samantha ou Christina (todas rigorosamente com "h"). As colinas das quais as famílias partiram no início do século XX para transferir-se a Turim ou à Argentina são também as colinas onde as famílias têm um túmulo, as colinas às quais se retorna, vivos, para breves férias, e mortos, para o repouso eterno na terra dos pais, entre os familiares que os precederam. Um retorno ao sentido de continuidade. Por isso, Bobbio quis sobre seu túmulo o nome de seus pais.

"Gostaria de ler para os senhores uma página escrita por Norberto Bobbio em 4 de novembro de 1999, ou seja, poucos dias depois de ter completado noventa anos. Essa página contém indicações práticas, mas revela também qual fosse seu mundo pessoal. A página não tem título, mas - com suas próprias palavras - poderia ser intitulada: "Como homem de razão e não de fé".

"Desta página transparecem dois traços típicos do caráter de Bobbio: sua relação de "duvidante" respeito aos valores religiosos e a virtude muito piemontesa do understatement, de não levar-se excessivamente a sério, de não exagerar: "esagerôma nen" era um dos seus lemas piemonteses prediletos.

"Completei 90 anos em 18 de outubro. A morte deveria estar próxima. Para dizer a verdade, senti a morte próxima a vida inteira. Nunca pensei, mesmo longinquamente, em viver tanto. Sinto-me muito cansado, não obstante os afetuosos cuidados dos quais estou circundado, de minha mulher e de meus filhos. Ocorre-me frequentemente nas conversas e nas cartas usar a expressão "cansaço mortal". O único remédio ao cansaço "mortal" é o repouso da morte. Réquiem aeternam dona eis domine. No último belíssimo coro da Paixão segundo São João, de Bach, o coro, logo após a morte de Jesus, canta: "Ruhe wohl" (repouse em paz).

"Desejo funerais civis de comum acordo com minha mulher e filhos. Num apontamento de 10 de maio de 1968 (mais de trinta anos atrás), encontro escrito: "Gostaria de funerais civis".

"Creio que não me distanciei nunca da religião dos pais, mas da Igreja, sim. Dela me distanciei já há um tempo excessivo, para agora voltar, meio furtivamente, na última hora. Não me considero nem ateu nem agnóstico. Como homem de razão e não de fé, compreendo estar mergulhado no mistério que a razão não consegue penetrar em profundidade, e as várias religiões interpretam de vários modos.

"Funerais simples, particulares, não públicos. Recomendo vivamente aos meus familiares esse meu desejo. Tive na minha vida, também por ocasião dos meus 90 anos, reconhecimentos públicos, prêmios, várias formas de honrarias que aceitei, mesmo estando convicto que excedessem meus méritos. A morte condiz com retiro, comoção íntima daqueles que estão mais próximos, silêncio. Breve cerimônia em casa, ou, se será o caso, no hospital. Nenhum discurso. Não tem nada de mais retórico e irritante do que os discursos fúnebres.

"Depois, o transporte a Rivalta, para ser sepultado no túmulo de família. Na lápide, apenas a inscrição "Filho de Luigi e de Rosa Caviglia". Gosto da idéia de que sobre minha lápide meu nome apareça junto aos de meus pais. Meu pai, de Alessandria, foi o iniciador da família Bobbio de Turim; ele fez construir, no vilarejo de sua mulher, que muito amou, o túmulo de família. Meu nome, unido àquele de meus pais, além de tudo dá um sentido da continuidade das gerações.

"A família dê notícias da morte após ocorridos os funerais, com um necrológio composto com palavras simples, com as quais em geral são escritos os necrológios de pessoas comuns:

"Ausente ao afeto de seus queridos.
Norberto Bobbio
Professor emérito da Universidade de Turim. Senador vitalício.
A família dá o triste anúncio...".

"Assim foi feito. Durante uma manhã e uma tarde, em Turim, o féretro de Bobbio restou exposto na aula magna da Universidade, visitada por uma fila de turinenses que inundava os pórticos do primeiro andar, a escada, o pátio e a rua defronte. Depois, numa fria manhã de janeiro, poucos carros partiram na direção das colinas de Alessandria, para o povoado de Rivalta Bormida, ao qual sempre Bobbio voltava nas férias de verão.

"Em julho de 1995, esse povoado nomeara cidadão honorário o Bobbio de oitenta e seis anos. Ali ele chegara num dia de calor, acolhido pela banda local. Extraíra as típicas folhinhas que carregava - aquelas nas quais esquematizava aulas, conferências, discursos públicos - e deixara fluir as recordações de uma vida intensa que cobrira um século inteiro. Eram as suas recordações pessoais, iniciando pela banda musical que naquele dia tocava em sua honra, e da qual, ele, quando rapazinho, escutava as provas não longe de sua casa. A banda que toca para você: máxima honra concebível num município rural. Talvez recordem um filme italiano no qual Dom Camillo, padre, ao deixar a pequena cidade de origem, parte de uma pequena estação vazia; mas o prefeito comunista, Peppone, e os cidadãos comunistas, o esperam na estação depois, para saudá-lo - e esperam-no com a banda. Numa cidadezinha, com a banda pode-se exprimir aquilo que não se consegue dizer com um discurso.

"Um dos filhos de Bobbio, Andrea - aquele professor de informática na Universidade de Alessandria, onde também eu ensino; aquele mesmo que (décadas atrás) eu escutava soar flauta doce na sala ao lado do escritório de Bobbio, quando o visitava - encontrara e lera essas folhinhas na mesma praça de Rivalta Bormida, onde, num dia de agosto de nove anos antes, o próprio Bobbio as lera, decerto completando-as com recordações e comentários. Andrea Bobbio as lera dessa vez como o adeus do cidadão honorário que, no fundo, mudava apenas de casa: daquela localizada no início da cidadezinha, à direita da rua principal, para o túmulo de família, no cemitério ao final daquela mesma rua.

"Convido-os a percorrer juntos essas folhinhas para descobrir um outro vulto do filósofo agudo, do professor rigoroso, do pensador político que soube ser a consciência da Itália que saía da guerra destruída nos bens e dilacerada no espírito. Um vulto bondoso, de um homem das colinas ligado às suas raízes; de um homem que, mesmo quando evoca sua infância, reafirma os valores e as escolhas que o guiaram por uma vida longuíssima.

"Nunca me considerei um homem importante. Considero-me sobretudo um homem de sorte. Sorte pela família na qual nasci. Sorte pela família que Valéria e eu construímos, mais por mérito de minha mulher do que meu, pelos professores, pelos amigos e discípulos que tive e, por que não, por essa cidadezinha pacífica e trabalhadora, na qual passei tantos dias de minha vida. Sorte também porque transcorri incólume o curso da terrível história do século XX. Incólume, quando muitos sofreram prisões e torturas. Sorte ainda por esses anos nos quais aqui chego, um tanto desgastado, mas ainda capaz de degustar a música da banda de Rivalta."

"Dona Valéria era, para nós, estudantes e depois amigos, uma sucursal de Bobbio; para ele, era a porta de acesso ao mundo externo, no qual o ajudava e do qual o protegia. Havia sido ela a contar-me da época na qual eram noivos, antes da guerra. As duas irmãs Cova eram convidadas para passear nas montanhas pelos dois noivos, Norberto Bobbio e Roberto Ago, que talvez alguns de voces recordem como professor de direito internacional. Eram muito monótonos, confessava: caminhávamos na montanhas durante horas, eu e minha irmã atrás; Norberto e Roberto, adiante, discutiam sobre Kelsen. Casaram-se em 1943: as duas irmãs com os dois kelsenólogos. O declínio de Bobbio começou em 2001, quando a morte de Valéria o deixou desorientado diante de um mundo que amava cada vez menos.

"Nunca me levei excessivamente a sério. É preciso olhar também a si próprio com distância e ironia. Benedetto Croce, mestre da nossa geração, dizia muito sabiamente que é preciso ter amor às coisas, não a si mesmo, que quanto mais se amam as coisas, mais se consegue a distância de si mesmo [...]. Esse retorno a Rivalta abriu a estrada às recordações de infância [...], as recordações da idade da inocência, do início da grande aventura, da viagem na descoberta do mundo protegido pelo calor dos afetos, [...]a família de minha mãe, a Primeira guerra mundial e a aquisição da casa em 1916, a festa de São Domingos, o jogo de bola, as corridas na direção da colina, o rio e os passeios de bicicleta, a Segunda guerra mundial, a ocupação alemã e a Resistência, a guerra civil [...]."

"Essa, sobretudo, é a parte do discurso que, provavelmente, falando na praça, Bobbio deve ter enriquecido com recordações pessoais. São as recordações que se concluem com a alusão à guerra e às lutas da Resistência: concluem-se, assim, com os eventos que iniciam minhas lembranças de criança das colinas. São as recordações que assinalaram também minha geração e que encontro em intelectuais daquelas terras, como Giorgio Bocca e Giampaolo Pansa, e tantos outros. Mas que não encontro mais nos meus alunos e nos meus sobrinhos. São recordações de um mundo que terminou para sempre, mas que deixou uma herança. Uma herança, em primeiro lugar, dentro de nós, uma certeza, uma força a ser alcançada nos momentos difíceis.

"Dos textos publicados daqueles apontamentos de 1995 falta, porém, uma frase que eu encontro em outro lugar e que é fundamental para indicar que em Bobbio a tensão moral nunca faltava: nem mesmo nos momentos de distensão e de intimidade, como provavelmente era aquele dia de agosto em Rivalta Bormida.

"Em 1995, estava em curso o acre debate sobre o revisionismo histórico e, em particular, sobre a reavaliação dos mortos fascistas, em especial dos mortos da República de Saló. Aquela república, na realidade, abrigava um governo fantoche de Hitler e, com a queda da Itália mussoliniana, recolhera o melhor e o pior dos fascistas: sob suas bandeiras tinha quem morresse por extrema coerência com um ideal vencido e quem morresse porque nada mais tinha a perder. Em 1995, como hoje, a direita triunfante colocava no mesmo plano os "jovens de Saló" e os membros da Resistência, quem lutava para o fascismo e quem lutava contra o fascismo. Sem dúvida que, no plano humano, aqueles homem mortos muito jovens - de uma parte e de outra - merecem a mesma compaixão; mas no plano político é necessário saber distinguir. E naquele discurso de 1995, recordando a "guerra civil", Bobbio acrescentou algo que não encontro nos jornais de hoje: "A Segunda Guerra mundial, a ocupação alemã e a Resistência, a guerra civil. Esqueçamos, mas não confundamos, quem esteve do lado justo e quem esteve do lado injusto, mesmo que quem tenha estado do lado justo tenha cometido injustiças". (Essa frase desapareceu) A escolha de campo não pode ser cancelada pela compaixão pela morte. Os mortos são iguais, as idéias pelas quais se morreu, não: o que teria sido da Itália, da Europa, do mundo, se, ao invés da Resistência, tivessem vencido os "jovens de Saló"?

"Deixou-me negativamente impressionado o modo pelo qual o jornal "La Stampa" - o jornal com o qual Bobbio colaborava - refere essas palavras em 13 de janeiro de 2004, numa página inteiramente dedicada aos funerais de Bobbio.

O jornal simplesmente as elimina do texto dos apontamentos de 1995. Coloca tais palavras em evidência sobre o título, mas no título principal, em página inteira, delas oferece uma versão distorcida: "Bobbio, a última mensagem: também os justos erraram". Bobbio dissera exatamente o contrário: dissera que também os justos cometeram injustiças, mas não por isso a posição deles era menos justo. Pedira para não confundir: foi em vão.

"As recordações de infância retornam depois com força. Daquelas raízes aldeãs nasce uma visão cosmopolita. Aquelas recordações evocam o tempo circular do campo, nos quais se sucedem estações, colheitas, gerações; nos quais toda vida é um ciclo que se abre com os antepassados e se encerra com os descendentes, que iniciam por sua vez um novo ciclo.

Eis assim que hoje tenho a impressão de que esse "tempo circular", esse prosseguir de ciclos - que torna comuns a experiência de vida de Bobbio e a minha mesma, de nós, "homens de colina" - tenha sido interrompido. Que isso tenha sido substituído pelo tempo linear dos meus estudantes pós-modernos, imersos num eterno presente.

"Para terminar: permitam-me fazer algumas considerações finais de caráter geral. 1. É necessário manter as próprias raízes. Os desenraizados têm problemas. As raízes são possíveis somente na cidade de origem, na terra, não no cimento da cidade. 2. Somente na cidadezinha de origem existe o próximo. Não se pode amar todo mundo, senão de forma muito abstrata. Pode-se amar apenas o próximo. Numa cidade grande, o próximo não existe. 3. Em Rivalta brincava com crianças do lugar que não sabiam falar o italiano, andavam descalças, vestiam-se com camisinhas e calções amarrados com cordão. Nunca senti nenhuma diferença entre nós, os senhores, e eles, os camponeses. Aprendi que os homens são iguais.

"São mais iguais que diferentes. Aprendi a dizer não a qualquer forma de racismo, de ódio de clã ou de raça, a doença que infesta o mundo. Aprendi que se uma mãe de uma tribo africana chora e se desespera pela morte da criança, chora da mesma forma que uma mãe italiana ou americana."

"A conclusão do discurso de 1995 traz Bobbio à conclusão da vida, àquele pensamento da morte que, dois anos depois, evocaria suas últimas vontades: "Para dizer a verdade, senti a morte próxima a vida inteira".

"Voltando ao princípio: aprendi que não se deve olhar de cima, mesmo quando a banda toca pra gente. Para cada um chegará a hora na qual, assim como para todos os outros, tocará, não a banda, mas o sino."

"Somente as igrejas têm sinos. E o sino que tocou para Bobbio repropõe sua sofrida relação com a religião. Nas suas últimas vontades lemos essas palavras: "Creio que não me distanciei nunca da religião dos pais, mas da Igreja, sim".

Em 1997, Bobbio encontrara um velho amigo e colega, que ensina na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Alessandria: dom Maurílio Guasco que, por sinal, é um amigo do Brasil, país que visita freqüentemente, para participar dos trabalhos da CPT (ou conferência episcopal?). Discutiam sobre o paraíso, no qual evidentemente dom Guasco acredita. Diante da observação do padre ("entendi que, na sua opinião, o paraíso não existe"), o racional Bobbio respondia: "Sou apenas um duvidante". Por isso Dom Guasco alerta para quem queira dele fazer um "crente anônimo", atribuindo-lhe uma religiosidade que Bobbio não tinha. Mesmo a referência à "religião dos pais" nas suas últimas vontades deve ser interpretada como referência "à história comum, tecida pelas gerações das quais fazemos parte. É significativo que tenha querido os nomes do pai e da mãe no túmulo: considera a família inserida numa história que está imersa, por sua vez, numa cultura cristã. Ele, assim, dela se sentia participante". Em outras palavras, "admitia plenamente a possibilidade de procurar respostas ao mistério da vida e da morte através das várias religiões. Mas por si só escolhera, ao invés, a razão, a racionalidade". Era, como Bobbio mesmo escrevera, um "homem de razão e não de fé": onde por fé entenda-se qualquer crença absoluta, tanto religiosa, quanto política.

"Até aqui vimos como Bobbio sentia suas raízes no Piemonte. Mas como respondia o Piemonte - e, em especial, Turim - a esse seu apego? Minha sensação é a de que os turinenses de todas as classes e de todas as ideologias tenham sentido de especial modo o desaparecimento de Bobbio por dois motivos. Em primeiro lugar, porque Bobbio, das colunas do jornal municipal, "La Stampa", sempre estivera presente no debate político com posições razoáveis e racionais. Era, assim, uma presença constante nas casas de todos. Em segundo lugar, Bobbio era uma das glórias turinenses. E em um ano, de janeiro de 2003 a janeiro de 2004, os cidadãos de Turim haviam perdido três figuras centrais do século apenas terminado.

Inicialmente, falecera Gianni Agnelli, a encarnação do espírito empresarial piemontês, o rei republicano no ápice de uma indústria que dera a Turim o orgulho de ser a capital italiana do automóvel, compensando-a em parte do trauma nunca superado de não ser mais capital desde 1861. Depois, desaparecera Alessandro Galante Garrone, limpíssima figura de intelectual, que da magistratura passara à cátedra de história, contemporâneo e amigo estreitíssimo de Bobbio e, com Bobbio, consciência crítica da vida política italiana.
Também essa fora para mim uma dura perda, e assim escrevi a Celso Lafer, de Recife, em novembro de 2003: "Hoje, falando ao telefone com minha mãe, soube da morte de Alessandro Galante Garrone, um amigo fraterno de Bobbio e um de meus mestres dos anos universitários: foi Galante Garrone a abrir-me as portas da então mítica revista "Il Ponte". Tínhamos eu e ele encontro marcado para a minha volta do Brasil. Foi embora uma outra pessoa da tríade que, com Bobbio e Treves, guiaram minha juventude". (Recife, 2.11.2003) Não imaginava que, poucas semanas depois, o desaparecimento dos meus três mestres completar-se-ia com a morte de Bobbio.

"Creio que o desaparecimento dessas três figuras tenha assinalado a conclusão de uma época: aquela da guerra, da Resistência e do renascimento democrático e econômico. Com eles, foi embora não apenas meu pequeno mundo pessoal, mas o mundo de uma geração. Com eles se encerrou o século XX e uma época de paixões políticas violentas, mas também de construção do Estado democrático. O novo século se abriu num clima de crise política e moral, no qual não se escutam mais aquelas vozes da consciência que, com Bobbio, parecem ter-se apagado. A nova realidade política italiana preocupava Bobbio. Sobre o assunto faláramos longamente em 1995, quando me entregou o volume de Carlo Violi com a sua bibliografia. Nele escreveu a seguinte dedicatória: "Com muitas recordações e poucas esperanças".

"Restaria a dizer ainda muita coisa. Mas talvez melhor parar nas recordações daquele dia de janeiro, com as colinas nuas e a neve margeando a estrada. Para o Bobbio "mortalmente cansado" a morte chegava como uma liberação. Esse último cortejo era como ele quis: a família, os amigos, sua cidadezinha. Pouca gente. O silêncio do campo. Ele teria gostado dos versos de Hölderlin, o mais filósofo dos poetas, extraídos da poesia intitulada Lebenslauf (etimologicamente, "curso da vida"). "Para o alto tendia o espírito, - escreve o poeta, - mas a dor o dobra com mais força. Assim percorro o arco da vida e volto para lá, de onde vim".


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