Empregabilidade e o mito da "geração digital"

Falar de empregabilidade jovem no Brasil não é falar só de educação ou de política social, é também falar sobre economia.

Publicado em 10/03/2026 às 9:55
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O Brasil, assim como muitos países, convive há anos com uma parcela significativa de jovens que nem estudam nem trabalham, os chamados “nem-nem”. Quando uma parte relevante da população em idade produtiva não está inserida no mercado de trabalho nem em formação qualificada, o impacto vai muito além do indivíduo. A consequência é simples: menos pessoas produzindo, menos pessoas consumindo, menos gente movimentando a economia.

Um jovem fora do mercado não consome plenamente, não contribui com impostos, não fortalece cadeias produtivas locais. Em escala, isso significa menos desenvolvimento econômico e menos capacidade de crescimento. A empregabilidade jovem é, sim, uma pauta social. Mas ela é, também, uma pauta econômica.

O cenário global deixa isso ainda mais evidente. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, até 2030 cerca de 22% dos empregos atuais vão passar por algum tipo de transformação estrutural. Alguns outros números sobre isso são: 170 milhões de novos postos de trabalho devem ser criados, enquanto 92 milhões serão deslocados, resultando em um crescimento líquido estimado de 78 milhões de empregos no mundo.

Eu trouxe esses dados para mostrar que o problema que enfrentamos hoje não é puramente a falta de vagas, mas é a distância entre as necessidades do mercado e o que as pessoas (e, os jovens) de fato sabem fazer.

Existe uma ideia muito difundida de que os jovens já estão preparados para o mercado porque são “nativos digitais”. Mas a pergunta que precisamos fazer é: digital para quê?

O relatório do Fórum Econômico Mundial mostra que as habilidades que mais crescem globalmente são inteligência artificial e big data, redes e cibersegurança e letramento tecnológico. Ou seja: o mercado está pedindo domínio de ferramentas, capacidade analítica, interpretação de dados e uso estratégico da tecnologia.

Na prática brasileira a gente vê um descompasso. Muitos jovens dominam redes sociais, mas apresentam dificuldades com demandas básicas do ambiente formal de trabalho: usar Excel, estruturar uma planilha, escrever um e-mail profissional, organizar arquivos digitais, configurar uma conta de e-mail ou até digitar com fluência.

A digitalização real do trabalho não é saber usar aplicativos. É saber usar tecnologia para resolver problemas, estruturar informação e conseguir se comunicar. Refletindo sobre toda essa transformação, será que hoje não estamos formando jovens para um mercado que não existe mais?

Outro ponto importante do relatório é que, além das competências técnicas, habilidades como pensamento analítico, resiliência, flexibilidade e liderança estão entre as mais demandadas pelas empresas. Isso é especialmente relevante para um país como o Brasil. A gente vive em um ambiente de instabilidade econômica, mudanças tecnológicas rápidas e desigualdades estruturais profundas. Nesse cenário, habilidades comportamentais deixam de ser “ só soft skills” e passam a ser competências estratégicas.

Empregabilidade jovem não é só ensinar ferramenta técnica. É desenvolver comunicação, responsabilidade, autonomia, capacidade de aprender continuamente.Quando essa formação não acontece, especialmente para jovens da rede pública, a consequência é clara: exclusão produtiva e aprofundamento da desigualdade.

A pergunta que precisa ser feita é direta: vamos transformar essa juventude em crescimento econômico ou em frustração social?

Se o jovem não entra no mercado, o país perde produtividade. Se ele não recebe formação adequada, as vagas criadas pela transformação tecnológica vão ser ocupadas por poucos, ampliando ainda mais a desigualdade. O próprio relatório aponta que 59% dos trabalhadores globais precisarão de algum tipo de requalificação até 2030.

No fim das contas, não é só sobre preparar jovens para o mercado. É sobre preparar o Brasil para competir no futuro.

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