A Inteligência Artificial (IA) está cada vez mais inserida no cotidiano, e a sala de aula não é exceção. Essa presença crescente indica que o tema pode ganhar destaque também no ENEM 2025. Professores apostam que a IA tem potencial para aparecer tanto nas questões objetivas quanto na redação, como reflexo das transformações tecnológicas que impactam a educação e o modo de pensar.
Linguagem, códigos e suas tecnologias
A professora de Português do Colégio GGE Katilini Oliveira destaca que os impactos das tecnologias de comunicação e informação correspondem às três últimas habilidades da matriz referencial do ENEM na prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias.
“Esses impactos já estão na prova há muito tempo, como relação entre o indivíduo e as redes sociais, o surgimento da cultura de cancelamento, como também a propagação de fake news. Ou seja, a IA é mais um desses impactos gerados, cujo objetivo inicial é facilitar a transmissão de informações e busca por determinados conteúdos. No entanto, trata-se de uma ferramenta polêmica visto que a linguagem de IA é diferente da linguagem natural, e, no mundo acadêmico, isso é perceptível”, pontua.
Katilini ressalta que, para que a IA produza um texto razoável, é necessário que receba instruções claras e bem definidas. Ela observa ainda que, justamente por esse caráter mecânico e previsível, os alunos conseguem identificar facilmente quando o conteúdo foi elaborado pela ferramenta.
“O senso comum é uma das características dos textos elaborados pela Inteligência Artificial. O nosso papel, enquanto educadores, é orientar nossos alunos acerca do uso dessa ferramenta, sem fazer com que eles percam a criticidade e a reflexão em torno das questões que permeiam a humanidade”, acrescenta.
Ciências Humanas e suas tecnologias
Sérgio Salles, professor de História do GGE, diz que a IA pode estabelecer conexões com diversos temas das ciências humanas. “Um exemplo evidente é a Revolução Industrial, que talvez seja o eixo mais claro dessa relação. Trata-se de um marco fundamental do processo histórico que vivemos desde o século XVIII”, pontua.
“Esse fenômeno impactou e continua a impactar diversos setores da sociedade. As próprias relações de trabalho, por exemplo, são profundamente afetadas. Sabemos que há uma série de profissões que tendem a se tornar obsoletas a partir da disseminação de novas tecnologias. Ao mesmo tempo, essas inovações também contribuem para agilizar atividades que antes eram mais mecânicas e operacionais, possibilitando um ritmo de produtividade ainda maior”, explica.
Além disso, o professor também aposta no tema dos direitos autorais: “A produção de conteúdos por meio da Inteligência Artificial levanta discussões importantes sobre a autoria e a propriedade intelectual. Esse é um ponto sensível, especialmente no campo artístico e cultural, em que obras criadas com o auxílio de IA suscitam dúvidas sobre a titularidade dos direitos autorais.”
Para ampliar as fontes de referência sobre o tema, Sérgio recomenda a série “Black Mirror”, que afirma abordar de forma crítica o impacto das novas tecnologias nas relações sociais. “Essa produção pode ser utilizada como ferramenta de reflexão e análise pelos estudantes, pois oferece exemplos concretos de como os avanços tecnológicos afetam o comportamento humano e as dinâmicas sociais”, explica.
Outra sugestão que agrega no entendimento das Ciências Humanas e pode ser utilizada na redação é o livro “1984”, de George Orwell. “A obra explora questões relacionadas ao controle, à vigilância e à manipulação da informação, temas que dialogam diretamente com os desafios éticos e sociais trazidos pelo desenvolvimento tecnológico contemporâneo.”
Sérgio também sugere a revisão de autores: “Karl Marx, por exemplo, já no século XIX, discutia as transformações nas relações de trabalho e a alienação do trabalhador diante dos meios de produção — reflexões que continuam pertinentes na era digital. Além dele, autores mais contemporâneos, como Michel Foucault, também podem ser mencionados, sobretudo pelas suas análises sobre poder, controle e vigilância nas estruturas sociais.”
Para André Pessoa, professor de Filosofia e Sociologia do GGE, o ENEM pode abordar diversos temas relacionados à Inteligência Artificial: “O impacto da IA no mercado de trabalho, automação e desemprego estrutural, uso responsável das tecnologias digitais, desinformação e fake news, segurança de dados e influência nas relações humanas”, exemplifica.
O professor ressalta que, no âmbito da Filosofia, as tecnologias da informação reacenderam o debate sobre temas já discutidos antes por filósofos e intelectuais de outras áreas. “Alguns desses temas são: A natureza da consciência e da mente humana, a singularidade do ser humano, a responsabilidade ética e moral no uso que fazemos das coisas (nesse caso, da tecnologia e da IA), a liberdade humana e o livre-arbítrio (afetados pela programação prévia e pelo uso dos algoritmos), entre outros”, detalha.
“É bom lembrar que pensadores como René Descartes e Alan Turing já discutiram, em seus respectivos contextos históricos, alguns desses temas”, acrescenta.
André também recomenda materiais que podem enriquecer o repertório sociocultural na redação dos candidatos. “Filmes como 'Ex-máquina' (discute a ética e a relação com máquinas inteligentes); documentários como 'O Dilema das Redes' (aborda o poder do algoritmo no uso das tecnologias da informação); e livros como 'Homo Deus', de Yuval Harari, são boas dicas para serem usados na redação do ENEM.”
O professor de Geografia do GGE Carlos Lima afirma que a Inteligência Artificial já deve ser vista na Geografia como parte da globalização técnica e informacional. “Ela transforma o espaço geográfico, reorganiza o trabalho, influencia fluxos econômicos e altera a relação entre território e tecnologia”, explica.
Carlos aposta que a IA pode aparecer em questões do ENEM em eixos como globalização, tecnologia e geopolítica. Outras possibilidades elencadas são perguntas sobre desigualdade digital, uso de dados, concentração tecnológica ou disputa entre potências por domínio da IA.
“O estudante deve relacionar o avanço da tecnologia aos impactos socioespaciais, como a automação do trabalho, a exclusão digital e a concentração de poder tecnológico. Também precisa interpretar dados e mapas, analisando criticamente como a IA transforma o território e aprofunda desigualdades no espaço geográfico”, aconselha o professor.
Carlos sugere que os candidatos estudem autores como Milton Santos (técnica e globalização), Yuval Harari (Homo Deus) e reflexões de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida e controle social.
Redação
A professora de Redação do GGE Fernanda Nascimento afirma que todos os temas relacionados a aspectos sociais possuem relevância para o ENEM, inclusive a Inteligência Artificial.
Ela ressalta que o tema pode ter diversos recortes: “No caso do desenvolvimento das IA, temos várias possibilidades de abordagem, a exemplo da ética no uso da ferramenta, do desemprego que pode ser gerado a partir das facilidades promovidas por ela etc. Acredito que todos têm a mesma possibilidade de abordagem, visto que são problemáticas atuais e de grande relevância.”
Fernanda também chama a atenção para o repertório sociocultural utilizado pelos alunos na argumentação. “Filmes, livros, contextos históricos, dados estatísticos, documentários, todos fazem parte da lista de elementos relevantes e não há hierarquia entre eles. A forma como o aluno manipula o repertório escolhido é o diferencial da argumentação”, detalha.
Quanto à proposta de intervenção, que pode chegar a até 200 pontos na competência 5 da redação, a professora pede que o aluno conecte cuidadosamente a solução ao problema exposto. “Em caso de, por exemplo, apontar a falta de leis, naturalmente deverá propor a criação de leis. Na proposta, é importante apresentar todos os elementos exigidos pela banca - agente, ação, modo, efeito e detalhamento”, explica.
“O estudante pode usar a ferramenta de modo produtivo, para corrigir o texto, apontar possíveis teses, sugerir ideias de repertórios. Entretanto, jamais deve pedir que a ferramenta desenvolva o texto por completo, visto que isso prejudica a capacidade de argumentação do candidato, pois ele deixa de refletir sobre as questões propostas para apenas copiar o que a máquina apresentou”, destaca.
Fernanda reforça que mais importante que saber o tema da prova é saber desenvolver um texto coerente e organizado. “O aluno deve conhecer bem as exigências do exame para conseguir cumprir todas as solicitações”, finaliza.
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