O amor que guardei para mim

A beleza de ajudar o outro para esquecer a própria dor

Publicado em 06/12/2018, às 13h29 | Atualizado em 06/12/2018, às 13h37

Por Malu Silveira

Por que algumas pessoas insistem em ajudar o próximo mesmo quando sua dor já é um gritante pedido de socorro? / Foto: Pixbay

Por que algumas pessoas insistem em ajudar o próximo mesmo quando sua dor já é um gritante pedido de socorro? Foto: Pixbay

Muitos são os motivos que levam o ser humano a se dedicar ao voluntariado. Existem pessoas que o fazem por promessas, outras por obrigação social ou religiosa, há também aquelas que dispensam esse tempo por puro amor ao próximo. Algumas, inclusive, investem em trabalhos voluntários por complexas armadilhas do ego. Mas um punhado de pessoas consegue ir muito além. Tente olhar um pouco para os lados e você vai encontrá-las: são as pessoas de bom coração que decidiram doar seu tempo em prol do outro a fim de esquecer suas próprias dores.

Quando paramos para escutar algumas histórias de vidas, contadas muitas vezes à contragosto, com a resistência de quem não quer se lembrar das suas agruras, logo a conta fecha no nosso coração. Em grande parte dos casos, são seres humanos que carregam nas costas um enredo pesado de transportar para todo lado: pacientes diagnosticados com doenças incuráveis, pessoas que já tentaram por fim à própria vida, outros que enfrentam a dor de conviver com a memória de um parente que se suicidou. Há os que vivem com sequelas físicas e psicológicas de distúrbios graves ou os que enfrentam a depressão e outros inúmeros transtornos psiquiátricos incapacitantes. A lista de cargas é extensa.

Por que algumas pessoas insistem em ajudar o próximo mesmo quando sua dor já é, por si só, um gritante pedido de socorro? O que leva alguns indivíduos a renunciarem aos seus dramas pessoais para se dedicar a encontrar maneiras de fazer uma gentil diferença em outras vidas? Como esses indivíduos conseguem intervir em tragédias alheias quando suas próximas existências suplicam por amparo urgentemente?

Como eles logram um difícil êxito: de esquecer suas penosas mazelas para acudir outros corações dilacerados? E como dão conta de ficar feliz por salvar outras miseráveis existências enquanto as suas também imploram por um resgate amoroso? Se dizem por aí que empatia é colocar-se no lugar do outro - mesmo que não nos identifiquemos com a situação pela qual nosso próximo está passando - esses indivíduos devem estar revolucionando o modo empático de ser.

São seres humanos que ressignificam suas dores ao lançar-se em busca da regeneração do outro; que refazem suas rotas para socorrer quem ficou para trás na tempestade, mesmo quando seus barcos já estão estraçalhados; que colocam um sorriso no rosto de quem amarga tantas tristezas, mesmo quando eles próprios precisam de alguém que enxugue suas lágrimas. São aqueles que, nas batalhas da vida, voltam para socorrer guerreiros desconhecidos, quando eles mesmos estão com o corpo cravejado de balas.

Lembro que, ao chegar, no fim da noite, para o meu turno no serviço voluntário do qual faço parte, uma cena, no fim da rua, me chamou atenção: um outro voluntário, deficiente visual, vinha caminhando, sozinho, pela rua deserta, driblando os obstáculos (que, vamos combinar, são muitos no Recife) com sua bengala. Escapando dos buracos recifenses, esquivando-se dos lixos amontoados pelos cantos, salvando-se dos níveis das calçadas mal planejadas, além de conseguir passar despercebido pelos ladrões oportunistas e pelos famigerados “dois caras numa moto” até chegar na entrada do local e me cumprimentar, alegremente, para então iniciarmos nossos trabalhos sociais. E aí, preciso dizer algo mais?

Esse é um tipo de empatia revolucionária, que, no silêncio das boas ações feitas por almas despedaçadas, terminam salvando não só quem foi amparado por elas. Se pararmos para pensar direitinho, descobriremos a beleza que é essa solidariedade: daquelas que salva duas vidas de uma vez só. Já que essas pessoas, ao ajudar quem precisa para esquecer que também necessitam de socorro, terminam curando a si mesmas. Que coisa mais linda. :)

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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