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O mundo das palavras de Leila Guenther

Publicado em 03/09/2015, às 22h12 | Atualizado em 03/09/2015, às 22h24

Por Fábio Lucas

O voo noturno das galinhas, de Leila Guenther / Foto:divulgaç~~ao

O voo noturno das galinhas, de Leila Guenther Foto:divulgaç~~ao

Depois de “O voo noturno das galinhas”, seu primeiro livro de contos, ganhar uma edição portuguesa, a estreia de Leila Guenther na poesia vem com “Viagem a um deserto interior”. A obra foi selecionada pelo programa Petrobras Cultural e é um lançamento da Ateliê Editorial.

Nesta entrevista ao NE10, Leila Guenther fala sobre as diferenças na escrita da prosa e da poesia, e do significado da experiência literária, para ela, uma experiência unificadora, integral. “Quando se escreve, não dá para pensar em outra coisa senão na própria escrita.”

Este é o primeiro livro de poemas, depois do primeiro de contos. E você já tem mais um de cada gênero pronto para lançar. Qual a diferença, pra você, entre os dois gêneros, na hora da criação? 

Leila Guenther –
No meu caso, a prosa exige mais preparativos, como o planejamento do enredo, por exemplo. Não consigo começar a escrever sem ter em mente o foco narrativo, o espaço da ação, o tempo... Assim, às vezes o conto já sai quase pronto, com poucos retoques, porque tudo já foi exaustivamente pensado antes. No caso da poesia, vem primeiro um esboço e depois se seguem os ajustes, os cortes, ou seja, o trabalho duro.

Tem vontade de escrever um romance? Alguma ideia neste sentido em gestação?

Leila Guenther –
Tenho vontade de escrever sobre os imigrantes japoneses, levando em conta as experiências de minha própria família. No começo, pensei no romance, que é uma forma bastante versátil e abrangente, mas depois me pareceu que um livro de contos, com sua brevidade, seu caráter fragmentário, seria mais apropriado para contar essas histórias tão justamente fragmentadas, de tantas perdas, de vidas tão “quebradas”. Não pretendo que seja uma obra com uma unidade lógica, toda coesa. Gostaria, antes, que suas fragilidades ficassem expostas.

Você disse em uma entrevista que escreve por ser “um jeito de estar por inteiro no momento presente”. Mas não ocorre às vezes o inverso, de a escrita proporcionar tal mergulho – ou imersão no deserto – e quem escreve ter a sensação de escapar ao domínio do tempo?

Leila Guenther –
Exato. Mas este mergulho é justamente “estar presente”, estar por inteiro em algo. Uma experiência unificadora, integral. Quando se escreve, não dá para pensar em outra coisa senão na própria escrita. É diferente de quando lavamos louça, mas estamos pensando no filme que vimos ou no que vamos cozinhar para o jantar. Ou de estar olhando para uma árvore e não estar vendo a árvore, porque a mente está em outro lugar. O ideal, para mim, seria levar essa experiência de completude que a escrita proporciona a outros âmbitos da vida.

Na mesma entrevista, tomamos conhecimento que a feitura da Viagem a um deserto interior coincidiu com um momento de vida em que você se sentiu mais livre para escrever. O que te prendia antes? O que pode impedir a criação literária de se manifestar em liberdade?

Leila Guenther –
Provavelmente eu mesma me tolhesse. São vários os fatores que podem impedir a criação literária de se manifestar: insatisfação, medo, falta de confiança, de apoio e, inclusive, de condições materiais. Retomando o que falávamos acima sobre a diferença no momento da criação, era como se, na hora de escrever prosa, houvesse uma contenção que a poesia, pelo menos num primeiro instante, dispensava. Mas o efeito desse controle na prosa gera uma tensão curiosa, que meu editor português descreveu como “assinar condenações à morte com lápis de cera” ou “uma granada que serve para decorar a sala”...

No poema “Inquérito”, do livro “A vida passada a limpo”, Drummond sugere: “Pergunta ao que, não sendo, resta/ perfilado à porta do tempo,/ aguardando vez de possível;/ pergunta ao vago, sem propósito/ de captar maiores certezas/ além da vaporosa calma/ que uma presença imaginária/ dá aos quartos do coração.” A literatura é uma forma de perguntar, de entrar e peregrinar no deserto interior?

Leila Guenther –
Sim, mas é, sobretudo, uma forma de estar viva.

E como leitora, o que você prefere? Quais os autores que lhe marcam? Lembra do primeiro livro que leu com emoção, página a página?

Leila Guenther –
Posso dizer que há obras que me marcaram, em vez de dizer autores, porque nem sempre me entendo com tudo o que um autor escreveu, como é o caso do Drummond, que você citou. Ele escreveu, para o meu gosto, o melhor poema da literatura brasileira, mas há outros poemas seus que estão longe de minha compreensão. Um livro importante para mim foi “Clarissa”, do Erico Verissimo, que conheci menina. Não foi o primeiro nem o melhor, mas foi o que me deu consciência do artifício da literatura, de que era possível criar um mundo só com palavras.

>>
Mais: conheça o blog da autora: http://nalinhadavida.blogspot.com.br.

A despedida de Sacks

Autor de best-sellers mundiais de divulgação científica, o neurologista Oliver Sacks morreu de câncer, aos 82 anos, no último dia 30. Entre seus livros, estão “Tempo de despertar” (que virou filme com Robin Williams), “Um antropólogo em Marte”, “Tio Tungstênio” e “Alucinações musicais” – todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, que lançou este ano a autobiografia de Sacks: “Sempre em movimento: Oliver Sacks – Uma Vida”.

A seguir, um trecho do prefácio de “O olhar da mente”, de 2010. Vamos sentir falta de suas anotações, transformadas em livros deliciosos em que a inteligência não se separa da sensibilidade.

"Tipicamente meus relatos de caso começam com um encontro, uma carta, uma batida à porta - é a descrição que o paciente faz do que ele está sentindo que estimula a exploração mais completa. Atendi milhares de pacientes nas últimas décadas. Cada um me ensina alguma coisa, e é gratificante cuidar deles. Em alguns casos vemo-nos regularmente, como médico e paciente, por vinte anos ou mais. Nas anotações que faço, desdobro-me para registrar o que está acontecendo com eles e refletir sobre o que vivenciam."

Príncipe de bolso

O pequeno príncipe

O pequeno príncipe Foto: divulgação

A editora Vozes lançou uma versão de bolso, com as aquarelas do autor, do clássico “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. A história de um dos personagens mais citados da literatura ganha ainda mais leveza com as ilustrações originais do escritor e piloto francês que faleceu em 1944, num desastre de avião.

>> Pausa para a poesia

O delírio do verbo em Manoel de Barros

“No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a

criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona

para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele

delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer

nascimentos –

O verbo tem que pegar delírio.”

Manoel de Barros, na antologia “Meu quintal é maior do que o mundo” (Alfaguara, 2015)
 
AGENDA

Terça, 8/9, em Fortaleza –
Adriano Espínola lança a antologia de poemas “Escritos ao Sol” (Record), na Livraria Cultura do Varanda Mall, às 19h.

Quarta, 9/9, no Recife –
Lançamento do livro de poemas "As vísceras de Vinícius", de Ivon Rabêlo, em edição artesanal com capas pintadas pelo coletivo Cartonera Do Mar.  A edição é da Mariposa Cartonera, financiada através de crowdfunding, com apoio da Universidade Federal de Pernambuco, através da Pro-Ext, com o Centro Cultural Benfica. No Texas Café Bar, na Boa Vista, às 20h.

Quarta, 9/9, em São Paulo –
A portuguesa Ana Luisa Amaral lança o livro “Escuro” (Iluminuras) e conversa com o público na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, às 18h30.

RODAPÉ

É absurdo procurar um poço, ao acaso, na imensidão do deserto. (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe)

 


 

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

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Marca texto Fábio Lucas é jornalista e mestre em filosofia. fabiolucas@uol.com.br

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