Difusão

Saiba como surgiu a música: 'o som organizado'

Publicado em 14/12/2018, às 16h06 | Atualizado em 14/12/2018, às 16h43

Por Marcelo Sampaio de Alencar

A música é realmente o som organizado, como afirmava Edgard Varèse / Foto: PIxabay

A música é realmente o som organizado, como afirmava Edgard Varèse Foto: PIxabay

Edgard Valèse (1883-1965), um engenheiro e compositor francês naturalizado americano, pioneiro da música eletrônica, ainda quando o desenvolvimento da eletrônica estava em seu início, ficou conhecido por abandonar o método tradicional de composição em favor do uso da própria matéria sonora, tendo inclusive destruído os originais de suas composições anteriores, que, para ele, seguiam padrões conservadores. Mas, uma de suas ideias fundamentais foi a noção de que a música é o som organizado.

Pitágoras de Samos (c.570-c.495 a.C.), o filósofo e matemático grego conhecido pelo teorema que leva seu nome, foi quem fez a tentativa inicial de organizar a música, ao estabelecer as primeiras regras de consonância sonora, como a relação harmoniosa entre o som em uma determinada frequência, percebido como altura, e no dobro dela. Ele também notou que certas razoes entre números inteiros, quando aplicadas ao comprimento de uma corda, resultavam em harmonia.

Por exemplo, ao se dividir uma corda em três partes e prendê-la em um dos dois pontos marcados, fornece uma razão de 2/3 para a parte maior resultante. Ao se percutir a parte maior da corda, produz-se um som que se harmoniza com aquele gerado pela corda solta. A nota produzida, que tem uma frequência 50% maior que a original, que é conhecida como tônica, é chamada de quinta, ou dominante.

No violão, a primeira corda, a mais grossa e conhecida como primeiro bordão, se chama Mi. Se essa corda for presa no sétimo traste, que permite a razão de 2/3 mencionada, e ferida com um dos dedos, ela produz a nota Si, a quinta da escala que inicia com a tônica Mi. Além do mais, o décimo-segundo traste indica a metade da corda, e produz a mesma nota Mi, mas com o dobro da frequência da corda solta.

A razão 3/4, por outro lado, produz uma frequência mais baixa que aquela gerada pela quinta nota, e mais elevada que a nota original exatamente em 4/3. Ela é chamada de quarta, ou subdominante, e também mantém certa harmonia com a tônica da escala.

Não é surpresa que a nota Fá, apareça com tanta frequência em músicas compostas no tom Dó, visto que ela é a quarta dessa escala. Aliás, a nota Sol, a quinta da escala de Dó, também aparece muito. Considerando a escala que tem Dó como tom fundamental, as outras notas seguem a nomenclatura de graus tonais com as seguintes razões em relação à frequência original: Ré (supertônica, 9/8), Mi (mediante, 81/64), Fá (subdominante, 4/3), Sol (dominante, 3/2), Lá (superdominante, 27/16), Si (sensível, 243/128).

A propósito, a frequência do chamado Dó central do piano é 261,6 Hz (ciclos por segundo). A nota Dó' (o acento indica que ela está uma oitava acima, ou tem o dobro da altura) tem frequência de 523,2 Hz, que, aliás, corresponde ao Dó mais grave do violão, obtido pressionando a corda Lá (o segundo bordão) no terceiro traste.

Não há mistério na obtenção das razões anteriores. Por exemplo, para a nota Ré, a segunda nota, ou supertônica da escala de Dó, basta lembrar que a quinta justa de Dó, obtida multiplicando a sua frequência pela fração imprópria 3/2, é a nota Sol.

Por seu turno, a quinta justa de Sol, obtida pelo mesmo procedimento, é Ré' (uma oitava acima, com o dobro da frequência
do Ré original). Portanto, basta fazer então 3/2 × 3/2 = 9/4, e dividir por dois o resultado, para obter 9/8, que fornece a
altura correta da supertônica Ré.

A música, como visto, é realmente o som organizado, como afirmava Edgard Varèse. O som na natureza é produzido por muitos
animais, como os pássaros, os cetáceos, os chimpanzés, os morcegos, mas apenas com os seres humanos o som passou a ser organizado e criativo, ao ponto de gerar a música. Porém, a razão para o aparecimento da música entre os humanos continua um mistério.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: difusão entretenimento

Difusão Marcelo S. Alencar Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular da UFCG e presidente do Instituto de Estudos Avançados em Communicações (Iecom).. Email: sampaio.alencar@gmail.com e no twitter: @marcelosalencar

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