Dois Irmãos

Em meio a impasse, animais do zoo do Recife são as principais vítimas

Marília Banholzer Marília Banholzer
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Publicado em 17/06/2015 às 19:17
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Precisando de reformas, zoológico do Parque Estadual de Dois Irmãos abriga mais de 530 animais, como o chimpanzé / Foto: Marília Banholzer/NE10

Precisando de reformas, zoológico do Parque Estadual de Dois Irmãos abriga mais de 530 animais, como o chimpanzé Foto: Marília Banholzer/NE10

Visitar o Parque Estadual de Dois Irmãos (PEDI), no bairro de mesmo nome, na Zona Norte do Recife, é sair do local com a impressão de que algo não vai bem. Embora discretas melhorias estruturais estejam sendo realizadas, a sensação é de que o espaço de 14 hectares destinados ao zoológico está pequeno para os mais de 530 animais que vivem no local. Recintos notoriamente apertados para os bichos - como grandes felinos e longas serpentes - , com grades de proteção deterioradas, são pontos que mais chamam atenção dos visitantes.

Para o estudante de biologia Marcelo Santino, 27 anos, que sempre visita o espaço para fazer trabalhos universitários, o zoológico tem apresentado sinais de deterioração com o passar dos anos. “Atualmente está menos preservado, apesar da gente ver que estão realizando algumas obras, mas a verdade é que dá para notar que a maioria dos recintos, principalmente os dos mamíferos como felinos e primatas, além das aves, não são adequados. Os bichos apresentam comportamentos que mostram tédio e estresse”, avaliou o universitário.

Após visita, família disse que notou a falta de alguns animais e recintos vazios

Após visita, família disse que notou a falta de alguns animais e recintos vaziosFoto: Marília Banholzer/NE10

Já o técnico em informática Alex José Nascimento, 26 anos, que esteve no local com a esposa e a enteada de um ano e meio, disse que achou o passeio muito bom, mas pontuou que havia muitos recintos vazios. “Faz um ano que eu vim aqui e desta vez que percebi que muitas jaulas estavam vazias, alguns animais pareciam bem confortáveis, mas outros nem tanto. Mas de maneira geral ainda dá para trazer turistas para visitar”, resumiu o jovem.

Apesar dos apontamentos, o que parte dos 400 mil visitantes que o PEDI recebe por mês não sabe é que, em 2012, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), através da 12ª Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico-Cultural da Capital, abriu um inquérito civil para investigar as circunstâncias em que ocorreram os casos de mortes e desaparecimento de animais no Parque Estadual Dois Irmãos.

O caso não evoluiu e, no início deste ano, a promotoria voltou a ajuizar uma ação civil pública contra o Governo do Estado. O pedido, em caráter de urgência, cobrava o início das obras além da elaboração e implementação de planos de segurança, manutenção e conservação do parque. Para o promotor Ricardo Coelho, autor da ação, a situação do Parque Dois Irmãos é precária e ameaça a sobrevivência dos animais.



“Há algum tempo estive no zoológico com minha família e depois do que vi voltei no exercício de promotor. Nas duas ocasiões saí de lá decepcionado. As cobras, com em média dois metros de comprimento, vivem num serpentário apertado, além dos vidros estarem tão sujos que dificultam que os visitantes consigam vê-las, por exemplo. Essa é apenas uma das muitas situações que nós podemos verificar. O zoológico todo dá ideia de abandono”, ressaltou o promotor Ricardo Coelho. Ainda segundo o promotor, o Governo do Estado tem prolongado as melhorias definitivas no espaço.

Vinculada à Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado (Semas), a administração do zoológico respondeu que “o projeto de requalificação do Parque Estadual dos Irmãos já está em andamento e por ser muito complexo foi dividido em quatro etapas. Apesar da contenção no orçamento, o Governo do Estado segue priorizando os investimentos nesse que é um verdadeiro patrimônio do povo pernambucano”. Foi dito ainda que “em paralelo ao projeto de requalificação, que contemplará todo o Centro de Conservação de Espécies sob cuidados humanos (atual zoológico), no moderno conceito de bio-parque, estão sendo feitas obras e melhorias pontuais para garantir saúde e bem estar animal, além de conforto ao visitante”.

Foi aberto o programa de voluntariado do Parque Estadual de Dois Irmãos e para ouvir e interagir com a sociedade, há o espaço Roda de Conversa do Parque de Dois Irmãos, toda ultima quinta-feira de cada mês
A nota enviada pela gestão do PEDI ainda explica que os recintos sem animais são reflexo dos ajustes feitos e que retirá-los dos espaços seria uma estratégia para não deixá-los expostos “a riscos, estresse ou condições de fuga”. Já com relação ao habitat das serpentes, um novo serpentário será inaugurado no próximo mês, e estaria sendo programada a reforma dos recintos das emas, ajustes no habitat do hipopótamo, transferência da anta, pacas, furão, tatus, dentre outros animais, para locais mais espaçosos e adequados.

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Habitat das serpentes é considerado inadequado para o comprimento dos animais. Segundo a Semas, o espaço deve ser reformado - Marília Banholzer/NE10
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Recintos vazios desanimam alguns visitantes que cobram mais animais no zoológico do Recife - Marília Banholzer/NE10
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O leão é um dos principais destaques do zoológico. O animal costuma se mover muito pouco, segundo visitantes - Marília Banholzer/NE10
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Espaço reservado aos felinos é considerado apertado levando em consideração o tamanho e os hábitos desses animais - Marília Banholzer/NE10
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Chimpanzé do zoológico do Recife preferiu ficar em um lugar mais quieto, longe dos olhares curiosos - Marília Banholzer/NE10
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Urso pardo deve ter seu recinto reformado e ampliado na reformulação do Parque Estadual de Dois Irmãos - Marília Banholzer/NE10
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Guarda corpos de ferro estão deteriorado e cheios de ferrugem; alguns foram cobertos por canos em PVC ao invés de substituídos - Marília Banholzer/NE10


REFORMULAÇÃO DO PARQUE - De acordo com o MPPE, após as cobranças da Promotoria de Justiça de Meio Ambiente, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) apresentou o que seria uma plano de requalificação do espaço. O mesmo teria sido elaborado em 2011. Baseado no projeto, o lugar seria transformado seguindo o conceito de bio-parque, no qual os animais não ficam enjaulados e o público pode visitar os espécimes, olhando-os de cima, transitando por passarelas. Essa obra estaria autorizada pelo Governo do Estado e orçada em cerca de R$ 40 milhões.

Dividida em quatro fases, o edital de contração de uma empresa para realizar a primeira etapa foi publicado em abril, mas em seguida sofreu uma adiamento do prazo, que ficou do dia 11 de maio para 10 de junho. A etapa I inclui a construção do Setor Veterinária e sua Clínica, Setor de Biologia, nova Quarentena, nova Nutrição, nova Administração. O aporte para a requalificação é da ordem de R$ 9.824.000. As propostas inscritas no edital foram apresentadas estão em análise e o resultado final, segundo a Semas, será divulgado em breve.

BUROCRACIA - Um levantamento feito pela Polícia Civil, entre os anos de 2009 e 2012, aponta que foram vitimados dois veados, um tubarão, um antílope, um hipopótamo, um jacaré de papo-amarelo, um cervo, um cangambá, um macaco bugio, um macaco cuxiú e um emu (semelhante à avestruz). Segundo laudos periciais, os animais morreram após ingerir alimentos com chumbinho que foram arremessados para dentro dos recintos. Essas e outras situações apresentadas por relatórios de ONGs que trabalham em prol do bem-estar animal levaram o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) a iniciar um inquérito pedindo soluções para os problemas do PEDI.


Pedidos de reformas por parte do MPPE em relação ao zoo iniciaram em 2012
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Já em 2015, em fevereiro, uma liminar que pedia medidas emergencias foi apresentada ao Tribunal de Justiça de Pernambuco, através da 3ª Vara da Fazenda Pública. No mesmo mês a juíza Mariza Silva Borge informou que só daria um parecer sobre o caso após as contestações do Governo do Estado, o que só aconteceu em abril. A juíza, no entanto, deve intimar o MPPE para um novo posicionamento, o que ainda não tem prazo para acontecer.

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