caos na saúde

Superlotação, descaso e sofrimento na emergência do Hospital Otávio de Freitas

Marília Banholzer Marília Banholzer
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Publicado em 31/01/2014 às 1:02
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Inaugurada na década de 50, a unidade conta com 745 funcionários, 310 médicos e 493 leitos / Foto: Marília Banholzer/NE10

Inaugurada na década de 50, a unidade conta com 745 funcionários, 310 médicos e 493 leitos Foto: Marília Banholzer/NE10


Exaltada pela Secretaria de Saúde de Pernambuco como referência no tratamento de doenças respiratórias, em especial a tuberculose, a realidade do Hospital Otávio de Freitas (HOF) não é tão exitosa quanto o discurso. Caminhar pelos corredores do setor de urgência e emergência da unidade pública, no bairro de Tejipió, na Zona Oeste do Recife, é praticamente uma corrida de obstáculos. Macas e cadeiras de rodas superlotam o pequeno espaço que deveria servir apenas para a circulação de pessoas. Nessa ala também é possível flagrar muitos pacientes pelo chão, improvisando camas com lençois ou pedaços de papelão.


O amontoado de pessoas torna o ambiente abafado; o mau cheiro também impera no setor superlotado
Foto: Marília Banholzer/NE10

Gritos de protesto pelo mau atendimento e gemidos de dor ecoam entre as paredes sujas, deterioradas e marcadas pelo mofo. Além dos problemas estruturais, há ainda denúncias de que para ter um pouco mais de 'conforto' é necessário desembolsar alguns reais em nome de uma cadeira de rodas, uma maca ou até por uma vaga no estacionamento privativo para funcionários.

'Minha filha, eu tive que dar R$ 10 por um cadeira de rodas. Também paguei mais R$ 10 pela maca e todo dia dava R$ 5 para poder estacionar. Tudo tinha que dar uma 'gratificação', caso contrário não saia nada', denuncia o autônomo Walter Soares, que está acompanhando a esposa Laudiceia Guilherme, de 56 anos, que quebrou o tornozelo após uma topada e precisará passar por uma cirurgia de colocação de pinos.

A dona de casa deu entrada na unidade na noite do último sábado (25) e, com a perna imobilizada, teve que passar a noite na cadeira de rodas enquanto o marido dormia no chão. 'Teve uma enfermeira que me perguntou se eu não estava sentindo dor, já que eu estava tranquila. Respondi que se ela preferisse que eu gritasse era só avisar', conta a paciente que ainda não tem previsão para passar pelo procedimento cirúrgico. 'Acho que eles fazem tudo isso porque, pelo que dizem, estão sem receber pagamento há dois meses', disse a paciente em tom de ironia.


Pacientes dividem maca, dormem no chão e ficam expostos ao lixo infectante
Fotos: Erica Lobo/arquivo pessoal | Edição: NE10

Esse caso é apenas um dentro de um universo de cerca de 8 mil pessoas que dão entrada na emergência do HOF todos os meses. Outra situação degradante é a da idosa Maria Irene, de 90 anos, que chegou à unidade na quinta-feira (23) após sofrer uma queda em que fissurou um osso da coluna. Bisneta da idosa, a vendedora Erica Lobo, 30, mostra-se revoltada com o descaso dos profissionais com os pacientes da emergência.

'Tem gente dividindo maca, dormindo em papelão no chão, exposto a lixo infectante. No meio disso a gente fica sem informação, o médico some, aquilo é muito pior do que desumano', relata a jovem. 'Minha bisavó só teve uma maca porque ficou com a que veio na ambulância. Ela precisava de uma ultrassonografia da coluna e só fez depois que eu fiz um escândalo. Só aí encaminharam ela para uma clínica porque a máquina do hospital estava quebrada', afirmou. A idosa deu entrada no HOF depois de ser encaminhada pelo Hospital Geral de Camaragibe, que alegou melhores condições na unidade de Tejipió, que também é considerada referência em traumato-ortopedia, clínica médica, urologia, cirurgia geral e pediatria.

Após sete dias aguardando um encaminhamento para seu caso, a família da idosa foi pega de surpresa com a notícia de que a paciente receberia alta, uma vez que o tratamento dela exigia apenas o uso de um colete, descartando cirurgia. 'Se tivessem dado a atenção devida, ela poderia ter saído de lá até no mesmo dia que entrou', comentou a bisneta.


Aos 90 anos, dona Irene passou uma semana nos corredores da emergência
Foto: Erica Lobo/acervo pessoal

A desatenção com os pacientes é apenas um dos problemas da unidade de saúde pública, mas talvez, um dos mais recorrentes. Sem querer se identificar para evitar represálias, a funcionária do HOF Maria da Silva*, conta que, nessa semana, por exemplo, enquanto quase 20 crianças esperavam um procedimento médico, o profissional responsável estava dormindo. 'É revoltante. Depois do plantão volto para casa estressada. Os profissionais de lá são preguiçosos, mas eu sei que em muitos casos é por falta de estrutura', desabafa Maria que ainda diz: 'Lá o paciente entra com uma torção e sai com uma tuberculose. É todo mundo junto numa emergência só.'

Ainda de acordo com ela, os principais problemas são falta de estrutura física e falta de material humano, como médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, serviço social e psicologia. 'Fora da emergência, o caos em outros setores é de outro tipo. Ao invés de pessoas espalhadas pelo chão e sem atendimento, são pacientes que estão há dois meses esperando por uma cirurgia, que muitas vezes não acontece por uma bobagem, como a falta de um fio numa máquina', relata a trabalhadora que está há mais de uma década convivendo com os graves problemas da unidade.

Ao relatar o dia a dia da emergência do Otávio de Freitas, Maria da Silva critica ainda a falta de médicos. 'Já teve dia de ter dois médicos para cuidar de mais de 25 pessoas além de qualquer intercorrência do hospital. Nessa situação, se dois pacientes param ao mesmo tempo (tem uma parada cardíaca), o médico vai ter que escolher quem salvar. E o fator de desempate é a idade, o mais novo é o que é salvo.'

» Confira vídeo feito nos corredores da unidade com câmera escondida:

'A primeira coisa para melhorar a situação de lá [HOF] era que deveria ter uma administração não médica. Existe um corporativismo muito grande,  então tudo é passível de ser desculpado. Afinal, hoje eu sou diretor e amanhã eu posso voltar a ser médico', ressalta Maria.

A Secretaria de Saúde do Estado respondeu aos questionamentos acerca dos problemas citados através de nota. No texto, a unidade reconhece a demanda excessiva na emergência. 'A direção do Otávio de Freitas reconhece a alta demanda na unidade, mas esclarece que todos os pacientes recebem a assistência necessária. (...) O hospital ressalta ainda que, mesmo sobrecarregado, oferece aos doentes todo o tratamento conforme as prescrições médicas.'

Como forma de tentar recuperar a qualidade dos atendimentos na unidade que foi inaugurada em 1956, ainda como Sanatório do Sancho, o hospital deve passar por uma reforma, porém a data para início das intervenções não foi divulgada. 'Em relação às queixas sobre a estrutura da unidade, a direção informa que já estão previstas obras de requalificação que vão abranger a troca do telhado, reforma dos banheiros e capinação', diz a nota oficial.

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O texto enviado pela Secretaria de Saúde traz a informação que de que o 'HOF também passa por ampliação e reestruturação, desde setembro, do setor de tisiologia. A unidade ganhará ambulatório especializado e enfermaria para tratar pacientes com tuberculose multirresistente', no entanto a funcionária Maria da Silva rebate: 'Dizem que é referência em pneumologia e não tem nenhum pneumologista na emergência, quem faz os primeiros procedimentos é um médico residente.'

Sobre a denúncia da falta de médicos, a SES explica que para reforçar as escalas de plantão e emergências da unidade foram convocados, no final do ano passado, 33 médicos (5 clínicos gerais, 1 infectologista, 6 intensivistas adulto, 8 intensivistas pediátricos, 1 pneumologista, 2 traumatologistas e 10 cirurgiões).

No entanto, a chegada desses profissionais não parece ter surtido muitos efeitos. Pelo menos é a impressão de Maria da Silva. 'Teoricamente o paciente só pode ficar 24 horas numa emergência, e isso não acontece. Os novos que chegaram não dão conta do problema que já tem por lá. Já vi casos de uma criança passar o dia inteiro em jejum esperando por uma cirurgia que não vai acontecer porque os médicos não dão conta da demanda.'

Em meio ao problemas, Maria da Silva escuta a pergunta que seria mais óbvia: 'Vocês não podem transferir parte dos pacientes para outra unidade?'. A resposta é triste: 'Para onde? Todos os oito grande hospitais da Região Metropolitana do Recife, inclusive os três novos - Dom Helder, Miguel Arraes e Pelópidas Silveira, estão do mesmo jeito', finaliza a funcionária, que não precisa dizer mais nada.

* O nome da funcionária é fictício

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