Usina de Histórias

O telefone tocou novamente

Publicado em 20/04/2017, às 08h55 | Atualizado em 20/04/2017, às 09h27

Por Franco Benites

Aconteceu umas três vezes esta semana e em todas elas eu me senti dentro de uma cápsula do tempo. Estava em casa, lendo ou agarrado com algum afazer doméstico, e o telefone tocou pela manhã. Já seria de espantar se fosse o celular, afinal quem faz uma ligação hoje com o whatsapp à disposição?, mas para meu assombro maior foi o fixo.

O telefone tocou novamente, como diz aquela canção. Jorge Ben Jor estava certo: fui atender e não era o meu amor. Era uma voz eletrônica que provavelmente queria me convencer a aumentar o pacote de internet de casa ou do celular. Digo provavelmente porque mal esperei a atendente eletrônica dar bom dia e, PÊI, desliguei o telefone.

Isso foi na segunda-feira. Na terça, o telefone tocou de novo. Eu sabia que só podia ser a atendente eletrônica porque ninguém tem o número aqui de casa. Eu não tenho o número da minha casa. Mas aquele telefone tocando era insistente e fui atender. Era a voz eletrônica, então, PÊI, telefone na cara de novo.

Fiquei em pé, olhando para aquele aparelho, um artefato branco, quase pré-histórico, com teclas salientes e um fio que insiste em ficar se encaracolando, e voltei dez casas no tempo.



Me lembrei da época em que possuir um aparelho desses em casa era sinal de riqueza. Eu tinha amigos cujos pais puderam comprar mais de um telefone fixo. Ricos! Sim, sou do tempo em que se compravam as linhas e cada uma delas valia uma pequena fortuna.

Sou do tempo em que as casas tinham uma agenda toda rabiscada com números de amigos, familiares, colégios, escritórios e consultórios médicos. Essa agenda ficava ali do lado do telefone fixo, carne e unha, alma gêmea, as metades da laranja, dois amantes, dois irmãos, duas forças que se atraem... vocês entenderam ou preciso mesmo escrever toda a música de Fábio Jr?

Sou do tempo em que era uma emoção quando o telefone tocava porque a gente não sabia quem seria do outro lado da linha. Às vezes, até sabia porque um amigo ou a paquera combinava de ligar às 21h pontualmente, 'olha lá, hein, fica perto do telefone que vou ligar às 21h em ponto'. Então, às 21h em ponto, ou nove da noite se vocês preferirem, o telefone tocava, TRIMMMM, e uma voz que você nunca ouviu na vida perguntava 'A Darci está?'. Só nos restava conter o abuso e ser educado para dizer que não, nenhuma Darci mora aqui.

Até que o telefone tocava de novo e... 'é da casa da Darci?'.

NOTA MENTAL: NUNCA MAIS ESCREVER 'SOU DO TEMPO', MESMO 'SENDO DO TEMPO'

O bom de ninguém saber o número do telefone da minha casa é a garantia de que nenhuma má notícia vai chegar por ele. Por outro lado, uma sessão de filmes em casa, num sábado sem plantão e preguiçoso, nunca será interrompida com uma ligação alvissareira me dizendo que, sei lá, ganhei no Caminhão do Faustão. Não se pode ter tudo.

Trimmmm.

PQP, Jorge Ben Jor. O telefone tocou novamente.

Eu preciso treinar o cachorro para atender às ligações. E descobrir qual o número aqui de casa e salvar na agenda para qualquer emergência. 

Os telefones fixos são aparelhos pré-históricos que transformam um pedacinho das casas em museu / Foto:

Os telefones fixos são aparelhos pré-históricos que transformam um pedacinho das casas em museu Foto:


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites é um jornalista recifense que trocou momentaneamente a terra dos altos coqueiros para estudar em Braga, Portugal. Entende que o mundo foi feito para ser vivido, observado e narrado.. francobenites@gmail.com

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