Usina de Histórias

Clube do Coração Partido

Publicado em 11/04/2017, às 09h00 | Atualizado em 11/04/2017, às 15h08

Por Franco Benites

É preciso que se digam palavras bonitas sobre as mulheres, mas também palavras necessárias para que se acabe com a violência contra as mulheres / Foto: Franco Benites

É preciso que se digam palavras bonitas sobre as mulheres, mas também palavras necessárias para que se acabe com a violência contra as mulheres Foto: Franco Benites

Mirella, não fomos apresentados e nem vamos ser. Apesar do Recife ser uma novela das 9, onde os personagens de todos os núcleos se esbarram, a gente não se conheceu. Desconfio que a gente já se cruzou porque nessa cidade-novela o meu núcleo conhece gente de outros núcleos pertinho do seu.

No dia em que você ganhou as manchetes dos jornais, Mirella, você tinha um almoço marcado com uma das minhas madrinhas de casamento. Você não sabia, eu também não, mas descobri que Sofia, uma amiga-irmã, te conhecia desde pequena. Ela me disse que seus pais tinham uma casa em Tamandaré que ficava atrás da residência dela.

A Galega - será que você também chamava Sofia assim? - queria ter muito almoçado com você. E se você conhecia Sofia como eu conheço sabe como é difícil encontrar um horário na agenda dela e como é bom quando isso ocorre.

Veja só como os personagens de toda essa novela recifense estão interligados, Mirella. Você também era muito amiga de Thais, uma amiga de infância que pude reencontrar poucos anos atrás.

Um dia, Thais me falou que ela e algumas amigas tinham um grupo chamado Clube do Coração Partido. A diversão dessa turma era se juntar para conversar, beber, comer e cantar. Soube que você fazia parte do clube, Mirella.

Antes de ouvir falar sobre você, Mirella, eu disse para Thais que esse nome - Clube do Coração Partido - era fantástico. Vocês tinham um repertório de 'dor de cotovelo', mas cantavam sem tristeza, sempre com um timbre de alegria para celebrar a vida e a amizade.



Quando conheci Thais, no Jardim 2, você não tinha nem nascido, Mirella. Você, que é de 1988, ainda não tinha vindo ao mundo e nem sabia que iria se despedir dele tão cedo.

No último domingo, houve uma passeata em sua homenagem, Mirella, e em homenagem a outras mulheres. A todas as mulheres, na verdade. Vanessa e eu fomos lá, demos um abraço em Thais e acompanhamos seus amigos e familiares durante uma parte do trajeto. Sofia preferiu não ir porque cada um lida com a dor e as saudades de maneira diferente, mas ela passou a semana inteira pensando em você.

Thais falou no microfone. Outras pessoas que não conheço também falaram. Você deve saber o que foi dito, mas não me custa nada lembrar aqui.

Foram ditas palavras bonitas sobre você, Mirella. Eu, que sou desconfiado por natureza, acreditei em cada frase que foi dita.

Além de palavras bonitas, também disseram palavras necessárias sobre o mundo em que vivemos hoje e como transformar esse mundo em um lugar melhor para Mirellas, Vanessas, Letícias, Luanas, Fernandas, Flávias, Melinas, Karlas, Natálias, Paulas, Danielas, Sofias, Marianas, Marcelas, Verônicas, Milenas, Thais, Marias...

O Clube do Coração Partido deixou de ser um 'nome-fantasia' por esses dias, Mirella. Mas esse clube também é o clube do coração cheio de amor por você.

Que você possa seguir em paz, Mirella, "como der, ou puder, ou quiser"

O QUE É O QUE É

"Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser".


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites é um jornalista recifense que trocou momentaneamente a terra dos altos coqueiros para estudar em Braga, Portugal. Entende que o mundo foi feito para ser vivido, observado e narrado.. francobenites@gmail.com

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