Usina de Histórias

Mete a mão

Publicado em 20/09/2017, às 11h07 | Atualizado em 20/09/2017, às 11h14

Por Franco Benites

A vida é mais nossa quando a gente mete a mão e assume as rédeas. Nem que seja da limpeza do cocô do cachorro / Foto: pixabay

A vida é mais nossa quando a gente mete a mão e assume as rédeas. Nem que seja da limpeza do cocô do cachorro Foto: pixabay

Há coisa de dez dias, minha esposa chegou pra mim com um sorriso de quem tinha descoberto a pólvora: 'amor, tu sabia que o ralo das pias no Canadá já vem com um triturador de restos de comida? Acho que tu ia ser feliz lá'.

Explico: Vanessa cozinha muito bem e eu ligo o fogo apenas para fazer comidas muito específicas - ela diz que faço o melhor cuscuz do mundo e os sucos mais gostosos e eu, desajeitado que só nesses assuntos de fogão, finjo que acredito. Para compensar, não deixo ela tocar numa só colherzinha de café suja e assumo a limpeza dos pratos manhã, tarde e noite. Às vezes, a pia fica repleta de cascas de frutas e verduras ou pele de galinha, escama de peixe e eu meto a mão sem dó para limpar. Acho que ela fica com pena e por isso veio falar do triturador.

Sem querer tirar a empolgação de Vanessa, que parecia estar fazendo uma revelação que iria mudar minha vida, acho mesmo até que se ela pudesse teria falado do triturador das pias canadenses com a passagem Recife-Toronto ou Recife-Montreal já comprada, eu disse que não via problemas em meter a mão na pia ou no ralo.

Juro que não foi uma resposta padrão de um marido querendo ficar bem na foto com a esposa. A questão é que faço da lavagem de pratos a minha meditação (não é para rir; isso é muito sério) e não vejo problemas MESMO no que acompanha a tarefa.

O que mais me irrita, quer dizer, irritar é uma palavra muito forte para a situação, o que mais, digamos, arranca umas duas bufadas de insatisfação é ter que limpar uma panela cheia de fritura. Mas como a gente quase não come fritura em casa essa é uma situação rara que eu contorno bem.

Antes de ter um cachorro em casa, eu tinha uma pena danada quando via as pessoas na rua se agachando para recolher cocô de cachorro. Achava que elas tinham mais é que fazer isso, como manda o bom senso e a educação, mas eu pensava o quão desagradável era essa tarefa.

Hoje, passeio ao menos duas vezes com Luke, de domingo a domingo, faça chuva ou sol, eu esteja de ressaca ou não, vestido para ser padrinho do casamento de alguém ou não, pronto para ir ao jogo do Náutico ou não, e não estou nem aí. Me agachar para recolher o que ele bota pra fora é apenas mais uma tarefa entre muitas [sim, uso papel para não sujar as mãos e faço questão de lavá-las ao voltar pra casa].

Se um dia for ao Canadá vou querer conhecer esse tal triturador, mas a vida é mais nossa quando a gente mete a mão e assume as rédeas. Nem que seja da limpeza da pia da cozinha. Ou do cocô do cachorro.


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites Franco Benites é jornalista e repórter do Jornal do Commercio. Entende que o mundo vai além da briga entre esquerda e direita e foi feito para ser vivido, observado e narrado. francobenites@gmail.com

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