Usina de Histórias

A ver estrelas

Publicado em 21/03/2017, às 09h45 | Atualizado em 21/03/2017, às 10h20

Por Franco Benites

 

Uma das melhores coisas da vida é ver estrelas no colo da avó / Foto:Reprodução/Internet

Uma das melhores coisas da vida é ver estrelas no colo da avó Foto:Reprodução/Internet

É improvável que minha avó materna chegasse aos 100 anos de idade, mas se ela completasse o centenário de vida aqui na terra a data seria celebrada no último dia 19 de março. Do domingo pra cá, tenho pensado muito em 'dona' Vanda e é por isso que dedico a coluna de hoje a ela. O texto é antigo, de 2009, mas sei que nunca vou conseguir falar algo melhor sobre minha avó do que o que escrevi há oito anos. Reproduzo o texto como homenagem a ela e a todos aqueles que têm uma avó a quem pedir colo.

A ver estrelas

 

Quando era criança, eu tinha uma ritual com a minha avó, dona Vanda. À noite, íamos para a calçada e ficávamos juntos. Ela em uma cadeira e eu em outra. Ela contando histórias, eu ouvindo. Muitas vezes, esses momentos eram rompidos com a chegada das outras crianças da rua, que me chamavam para brincar. Enquanto eu estava do lado dela, gostava de me inclinar sobre o seu corpo para poder ver o céu. Ela dizia que um dia eu iria crescer, começaria a namorar e me esqueceria dela e daqueles momentos. Nessas horas, me dava um aperto no peito e, no meu íntimo, sem deixar transparecer tristeza, tudo o que eu desejava era não crescer.

Mesmo com a pouca idade, eu tinha consciência de que um dia a mais na minha vida, era uma dia a menos na de minha avó. E esse medo do perdê-la me paralisava. Eu me perguntava onde e quando se daria esse momento de despedida. Vejam só, uma criança de cinco ou seis anos filosofando sobre esse tipo de coisa. Mas, a meu modo, eu conseguia filosofar. E se não ia além nos meus pensamentos não era só por conta da idade. Era por medo. Quando os pensamentos começavam a ficar mais assustadores, eu pedia para minha avó contar uma história ou pulava direto para perto dos meus colegas e ia esquecer o assunto em rodadas de polícia e ladrão ou pique-esconde.

Cresci, mas sempre que dona Vanda ficava doente, aqueles momentos ao lado dela e as perguntas que eu mesmo me fazia e não sabia responder voltavam à tona. Quando a situação se normalizava, eu só agradecia por não ter encontrado a resposta daquela vez. Com o passar dos anos, consegui controlar a ansiedade e os fantasmas que me assombravam. E olhava para o céu e me sentia feliz por que aos meus 10, 14, 18, 21 ou 25 anos eu podia repetir o gesto de olhar para as estrelas sem dor. Apesar de não estar no colo da minha avó, eu sabia que ela estava por perto. Ora ao alcance de um abraço, ora de um telefonema.



Porém, ontem, 14 de junho de 2009, às 9h15, aos 29 anos, eu tive a resposta para a pergunta que tanto me afligia quando criança. E apesar da dor e da tristeza, eu me sinto abençoado porque tive muito mais tempo ao lado de minha avó do que supunha que teria aos cinco anos. Nesse tempo todo de convivência, de nossa parte, houve brigas e desencontros, mas existiu carinho, afeto e amor numa escala infinitamente maior. Nos alternamos inúmeras vezes nos postos de quem cuida e de quem é cuidado. E tudo o que desejo é que tenha feito a minha parte bem para corresponder ao que ela me deu.

É lugar-comum desejar voltar no tempo para que a gente possa se doar mais, receber mais. Me sinto tentado a isso. A voltar no tempo para um abraço a mais, uma conversa a mais, para que dona Vanda pudesse ver mais algumas de minhas realizações pessoais e profissionais. Contudo, sei que restarão carinhos e palavras a fazer e a dizer mesmo com todo o tempo do mundo. Então, eu só quero agradecer. Pelo colo, pela companhia, pelas mesadas, pelos puxões de orelha e pelos pedidos diários de proteção.

Agradeço pelos momentos em que minha avó me comprou um picolé mesmo quando a ordem materna é que não tomasse nada gelado por conta da gripe. Nessas ocasiões, ela aconselhava o meu refúgio na esquina para que minha mãe não me visse. Quero agradecer, também, pelo auxílio financeiro inesperado que ela me dava quando acertava no jogo do bicho. Esse era o vício de dona Vanda. E todo dia ela dizia que não tinha acertado a milhar, centena ou dezena por pouco.

Enquanto teve saúde para andar, minha avó fazia questão de ir até o portão para me mandar um último beijo ou me ver entrando no carro.

Em maio, no meu último aniversário, ela ligou e não conseguiu falar nada. Só chorou. Talvez soubesse que as respostas para minhas perguntas infantis estivessem próximas. Talvez fosse apenas saudades do tempo em que podia me colocar no colo para que pudéssemos ver o céu juntos.

Sei que a sua vontade era de me dizer o que sempre dizia: "Estou rezando para que você possa conseguir tudo aquilo que você quer".

Pois, minha avó, saiba que eu nunca quis tanto. E agora a única coisa que peço é que a senhora esteja bem

[E daqui, de 2017, eu lhe digo, minha avó: viva seus 100 anos].


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites Franco Benites é jornalista e repórter do Jornal do Commercio. Entende que o mundo vai além da briga entre esquerda e direita e foi feito para ser vivido, observado e narrado. francobenites@gmail.com

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  • De: Norma Suely Santos - 21/03/2017 20:29 Lindo a mensagem que você escreveu,Parabéns!!!!
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