Usina de Histórias

Viagem do amor

Publicado em 20/06/2017, às 14h24 | Atualizado em 20/06/2017, às 14h40

Por Franco Benites

Duas amigas conversavam na parada de ônibus por volta das 18h, mas uma pegou o ônibus e a outra ficou. Pelo que entendi da conversa - sim, tenho essa mania feia de prestar atenção no que dizem quando estão a minha volta em uma parada de ônibus -, elas iam para o mesmo destino, mas uma delas, a ruiva, resolveu ficar por alguma razão até então alheia a mim.

Dez minutos depois, veio a explicação. Um rapaz aparece e a ruiva diz, entre dengosa e falsamente chateada, que havia perdido um ônibus por conta dele. O adolescente, os dois são adolescentes, a abraçou e disse que ela não precisava ter esperado. Ali, eu entendi tudo. Não eram namorados, mas a ruiva queria muito que fossem, aparentemente, e retardou a ida para casa porque sabia que se abrisse mão do primeiro ônibus teria a companhia do paquera.

Fiquei, então, com um olho na missa (no casal) e outro no padre (prestando atenção se meu ônibus vinha e se não iria queimar parada, o que por sorte não aconteceu). Esperei o Setúbal/Príncipe tempo suficiente para mergulhar nas minhas lembranças e recordar momentos da minha adolescência, ali pelos 14, 15, 16 anos, quando fazia companhia nas paradas de ônibus próximas ao parque 13 de maio ou da rua do Príncipe a colegas de escola ou do curso de inglês, potenciais alvos amorosos.



Era um Recife sem estações de BRT e ônibus modernos, as pessoas não andavam com smartphones nas mãos ou bolsos, mas já havia mazelas sociais, o que significava trombadinhas e trombadões dispostos a intimidar quem parecesse mais indefeso e a dar um bote em carteiras, cordões de prata e relógios dos mais descuidados. Eu morava no centro do Recife e ia e voltava da escola a pé, sem necessidade de pegar ônibus, então, se me demorava em alguma parada era por uma questão de interes..., digo, de cavalheirismo.

Peguei o ônibus e deixei os adolescentes sem saber se aquela paquera evoluiu, se o abraço efusivo da ruiva no colega descambou para um beijo, se o letreiro do ônibus mostrava como destino Viagem do Amor em vez de Terminal Xambá.

Espero encontrar um casal feliz e não apenas dois amigos quando estiver a caminho da próxima viagem para casa.

- Motô, na próxima parada desce, mas o amor tá subindo.

O amor de sua vida, ou de uma parte dela, pode estar na parada de ônibus / Foto:Bobby Fabisak/JC Imagem

O amor de sua vida, ou de uma parte dela, pode estar na parada de ônibus Foto:Bobby Fabisak/JC Imagem


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites Franco Benites é jornalista e repórter do Jornal do Commercio. Entende que o mundo vai além da briga entre esquerda e direita e foi feito para ser vivido, observado e narrado. francobenites@gmail.com

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