Bullying: um sintoma da contemporaneidade

Publicado em 22/05/2012, às 17h07 | Atualizado em 22/07/2014, às 01h01

Por Sílvia Gusmão

Recentemente, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre o caso de seis adolescentes de classe média alta que foram denunciadas à Justiça pela prática de bullying. Chama a atenção o fato de duas jovens já terem sido condenadas a prestarem serviços comunitários e outros quatro processos estarem em andamento na Promotoria de Infância de São Paulo. A notícia também reativa a discussão sobre essa prática corriqueira nos colégios das redes pública e privada, de ameaças, injúrias, difamações e agressões sistemáticas, feitas pessoalmente ou de forma virtual. Muitas vezes, com a conivência dos pais defensores da violência praticada por seus filhos, sem a menor preocupação com as consequências para o futuro deles e da própria sociedade.

A discussão sobre bullying não é novidade. Preocupa educadores, ganha espaço na mídia e no debate jurídico, mas não se desenvolvem na mesma proporção ações preventivas e jurídicas. Com relação às ações preventivas, a escola tem um papel importante a desempenhar. Embora a intolerância com as diferenças seja historicamente antiga, esse fenômeno surgiu há poucas décadas, tendo como situação emblemática o assassinato de doze estudantes e um professor no Colégio Columbine High School, nos EUA, em 1999. A repercussão mundial dessa tragédia foi tanta que gerou dois filmes.

No Brasil, o caso de bullying de maior comoção ocorreu em 2011, numa escola municipal do Rio de Janeiro, em Realengo, onde doze adolescentes foram massacrados, vítimas de um ex-aluno. O debate sobre esse fenômeno não pode ser desvinculado das mudanças ocorridas na sociedade. Estamos vivendo uma época onde as relações sociais não estão alicerçadas em regras preestabelecidas e na Lei que vale para todos. Ao contrário, há uma recusa a tudo o que possa evocar exterioridade, autoridade e diferença, passando a vigorar as leis particulares que respaldam a cultura individualista.

Esse cenário se constituiu a partir de uma série de fatores socioeconômicos e históricos, dentre os quais podemos ressaltar a distorção do conceito de democracia, enquanto sistema esvaziado do lugar de exceção, das tradições e dos representantes das diferenças hierárquicas. Tal interpretação disseminou-se no seio da família, na escola, na política, nas empresas, gerando dificuldades que se evidenciam na fragilidade da noção dos limites. Dizer não, lidar com impossibilidades, hoje, é motivo de impasse para os pais e os adultos em geral.

Estamos diante do declínio da referência à alteridade, lugar simbólico, de onde emanava inspiração para engajamento com ideais sociais e políticos, respeito à tradição e à diferença. O déficit dos ideais - marcos identificatórios transmissores de referências simbólicas - faz surgir uma multiplicidade de identificações pluralizadas e diversificadas que resultam na preponderância das identificações horizontais – identificação com os pares – fundamentadas na similaridade das escolhas e modos de gozar a vida. Segundo Bauman, conceituado sociólogo polonês, a identidade perdeu sua solidez na pós-modernidade. As identidades pessoais se deterioram, os laços sociais se fragilizam, a violência toma o lugar da palavra e a intolerância corta os vínculos. Outro fator significativo para a fratura do laço social foi o advento do Neoliberalismo. Nesse sistema a força propulsora da sociedade é o consumismo que define e atesta a identidade e a afiliação social pelo acesso aos bens materiais. Na atividade de consumo o sujeito se engaja para ser aceito, livre de obrigações com o outro porque a busca é por objetos que prometem satisfação.

Dizer não, lidar com impossibilidades, hoje, é motivo de impasse para os pais e os adultos em geral

Na perspectiva de Bauman, a modernidade líquida volatiliza as relações humanas. A vida em conjunto - famílias, casais, grupos de amigos - perde consistência e estabilidade. Os freios institucionais cedem aos desejos individuais e à conquista dos objetos portadores da “felicidade”. As pessoas passam a valer pelo que possuem. O respeito e o reconhecimento das diferenças e dos limites são subtraídos pela satisfação imediata.Neste sentido, bullying é um sintoma da sociedade contemporânea que demanda ações preventivas. As escolas, em especial, podem ter importante função na promoção de debates e no desenvolvimento de atividades com seus alunos que os instigue a pensar sobre seu papel e sua participação na sociedade. Isso vale mais do que investir apenas no repasse de informações, muitas vezes, insuficiente para produzir mudanças efetivas.

Planejar ações atraentes sobre o tema poderia ser uma alternativa para implicar os alunos nessa discussão, favorecendo a tomada de consciência sobre a questão e a possibilidade de se fazer escolhas mais salutares para o convívio social e para o exercício da cidadania. Naturalmente os pais não podem ficar de fora do processo. Convocá-los a refletir sobre a legitimidade do seu lugar de referência para que possam fazer uso da sua autoridade de maneira mais segura, pode ser um

É preciso considerar todos esses aspectos e não perder o bom senso, para não estimular atitudes persecutórias transformando tudo que é próprio das relações humanas, como conflitos, agressividade e competições, em bullying. Tal comportamento pode ter efeitos nocivos, tanto porque pode produzir engessamento dos laços sociais quanto impedir as crianças e adolescentes de aprenderem a reagir e a enfrentarem impasses próprios da vida em sociedade.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE:

Trajeto profissional Sílvia Gusmão é psicanalista e consultora da Trajeto Consultoria. silvia@trajeto consultoria.com.br

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