Só a vida, não basta!

Minha filha ainda não aprendeu a comer um caranguejo

Publicado em 13/04/2018, às 16h32 | Atualizado em 13/04/2018, às 16h45

Por Diego Garcez

Claramente não é só o sabor do caranguejo que atrai, mas todo o processo de comer a iguaria / Foto: divulgação

Claramente não é só o sabor do caranguejo que atrai, mas todo o processo de comer a iguaria Foto: divulgação

 Bernardo vivia em voltas com seu país, o Tajiquistão.

O país passava por um momento difícil, era possível enxergar muita raiva e ódio nos vasos sanguíneos oculares de seus concidadãos.

A população estava dividida em torno da política, da política não, da paixão pelo seu ponto de vista. Isso nitidamente favorecia a velha forma de fazer política. As pessoas haviam esquecido que político é um ser metabólico e darwinista num nível extraterreno, faz de tudo para se manter lá em cima, no poder. Seja qual for a bandeira que pareça carregar.

Lá dentro dos gabinetes, dos restaurantes, nas conversas de conchavos, os lados que parecem opostos são mais próximos que você e seu primo. Não se engane. Mas a população do Tajiquistão estava bem enganada e apaixonada, isso facilitava e muito qualquer plano de manter as coisas como sempre foram.

Bernardo estava extremamente preocupado, aparentemente ninguém mais conseguia enxergar isso, ninguém conseguia enxergar nada além das velhas narrativas. Elas continuavam funcionando muito bem e alimentando o espírito de todos. Bernardo chegou a pensar que estava louco.

Ele tomou uma decisão.

Vou embora daqui, farei minha vida na Europa.

Enviou currículos, fez contatos, se empenhou. Em alguns meses apareceram duas oportunidades concretas e muito interessantes.

Bernardo não conseguiu dormir.

No dia seguinte, para desabrochar as amarras da mente e desopilar as dores do corpo, foi com sua família para uma programação bem tradicional na sua cidade: comer caranguejo.

Se lambuzaram sem medo, resgataram as origens e conversaram sobre a vida. Recolheram os pedaços de amor e esperança que foram ficando pelo caminho.

 Bernardo percebeu que sua filha mais nova já estava totalmente imersa na experiência de degustar a iguaria. A menina usava o martelo para quebrar as patolas e chupava os dedos sujos de carne. Claramente não era só o sabor que a atraía, ela gostava do processo. De alguma forma ela entendeu o poder terapêutico daquilo, pois sorria ao mesmo tempo que prestava atenção à conversa séria dos pais.

Os pais estavam, como era de se esperar, a conversar sobre os problemas no Tajiquistão e a data de partida.

Foi quando Bernardo olhou para a sua filha e viu que havia pedaços de caranguejo por todo seu corpo. Todos na mesa iniciaram uma gargalhada libertadora de mil anos. Ali foi habilitado um novo pacote, transbordante de forças, necessário para o enfrentamento dos problemas diários.

 Bernardo percebeu naquele momento que sua menina precisava urgentemente ter aulas com a avó sobre como comer caranguejo. A mãe de Bernardo era especialista na arte de degustar aquele bicho de aparência feia sem desperdiçar um único fio de carne e sorriso. Estava claro que essa habilidade a ajudou na construção do seu caráter aguerrido e também sábio.

 No outro dia ele respondeu as propostas de trabalho no exterior com a seguinte frase:

 Sorry, but I can't leave my country, my daughter have not learnt eat a crab yet. ( Desculpe, mas não posso deixar meu país, minha filha ainda não aprendeu a comer um caranguejo.)


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Só a vida, não basta! Diego Garcez Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego. diego.garcez1510@gmail.com

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