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Rua da Fundição, 17h00

Publicado em 31/03/2016, às 18h22 | Atualizado em 31/03/2016, às 18h37

Por Luiz Pessoa

Mesmo com hérnia de disco, desvio de coluna, um fígado doente e dores nas pernas, Maria Madalena ganha R$ 8 a R$ 10 após um dia inteiro recolhendo plásticos recicláveis / Foto: Luiz Pessoa/ NE10

Mesmo com hérnia de disco, desvio de coluna, um fígado doente e dores nas pernas, Maria Madalena ganha R$ 8 a R$ 10 após um dia inteiro recolhendo plásticos recicláveis Foto: Luiz Pessoa/ NE10

Minha vida foi sofrida desde o início, meus pais me abandonaram jovem, no interior, vivi momentos de perigo vindo para a cidade com dezesseis anos, sozinha, e com a vida toda pela frente. Passei por muitas necessidades, trabalhei em casa de família como lavadeira, empregada, por muitos anos. Até ser empregada ficou difícil agora, né? Eu gostaria muito de ter estudado, de ter ido ao colégio. Esse é o único sonho da minha vida, e que eu nunca realizei. Disse isso para minha filha e ela não escutou, agora digo isso ao filho dela, meu neto, conto minha história e digo a ele que para ser alguém na vida só precisa agarrar as oportunidades e fazer delas a sua visão. Minha filha hoje é dependente química e sofre nas ruas, está com um aspecto doente, não quer saber de mim nem do filho, é uma coisa triste.

"Prefiro morrer analfabeta do que descuidar do meu neto e ele cair na tentação das drogas igual à mãe." Maria Madalena da Silva
Agora, de que adianta eu estudar nesse momento da minha vida? Para morrer sabendo? Não, não posso descuidar do meu neto para que ele caia no caminho errado igual ao da mãe. Prefiro morrer analfabeta do que ver meu neto sem um futuro, atrapalhado igual à mãe.

Foto: Luiz Pessoa/ NE10

Enquanto eu cato plástico reciclável para comer e dar o que comer ao meu neto, tem muitos que têm emprego, têm vida boa e vai fazer coisa errada, prejudicar os outros. São essas coisas que a gente vê, isso é que me dá revolta. Vejo gente empregada e ainda vai roubar, traficar, fazer coisas que levam os filhos dos outros para o mal caminho assim como levou minha filha, uma jovem bonita que agora nem do filho dela quer saber mais, está viciada em crack, completamente doente e necessitada. Tive de me virar nos trinta para cuidar dela, enquanto era difícil conseguir dinheiro e comida eu contava como era difícil viver uma vida honesta para uma pessoa sem estudo, ela começou bem no caminho, mas as amizades e o dinheiro fácil lhe tiraram do caminho, e ela está do jeito que está, doente, dependente, triste, sozinha e arrependida, como alguma vezes ela fala comigo. Mas só aparece para pedir, depois some e não quer saber de nada.

Agora eu oriento meu neto, eu faço de tudo, qualquer sacrifício para levá-lo ao colégio, deixo de trabalhar inclusive, o pouco que tenho guardo numa invasão que consegui um tempo atrás, vivo assim, sem teto fixo, muitas vezes fui despejada pela prefeitura ou pelos proprietários dos terrenos.

Maria Madalena da Silva, 60 anos.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: notícias siga a rua

Siga a rua Luiz Pessoa ex-aluno de ciência da computação, trabalha com audiovisual há 11 anos. Hoje dedica seu tempo à fotografia e videografia. lpessoa@ne10.com.br

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  • De: Mendes- 01/04/2016 13:34 A verdadeira brasileira,enquanto isto,os ptralhas e quadrilha de dilminha e lulinha,jo´se dirceu,genuíno.roubam milhões do pais.acabam com o brasil,esta senhora dar um exemplo de vida.
  • De: ana elizabeth- 01/04/2016 12:22 Grande sensibilidade do autor, tanto na fotografia, quanto no texto. Apreende a alma das pessoas.
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