É possível usar produtos químicos no cabelo durante a gestação?

Publicado em 29/09/2012, às 20h25 | Atualizado em 21/07/2014, às 11h30

Por Cláudia Magalhães

O uso de produtos químicos nos cabelos durante a gestação é uma dúvida bastante frequente no nosso dia a dia do consultório dermatológico, principalmente no que se refere à segurança, nesta fase tão delicada da vida de uma mulher. Diferentes tipos de tratamentos dos cabelos são comumente realizados nos dias de hoje e, para facilitar o entendimento, falo um pouco sobre as especificações de cada um deles: 

Coloração – aqui existem diferentes maneiras de colorir os fios de cabelo: gradativas (obtidas por corantes metálicos, como sais de chumbo, bismuto ou prata); temporárias (corantes solúveis em água com alto peso molecular, o que impede a penetração além da cutícula); semi-permanentes (hennas sintéticas, substâncias de baixo peso molecular derivados do coaltar) e permanentes (oxidação: soluções alcalinas à base de amônia que penetram através da cutícula).

• Permanente - ondas permanentes são criadas devido à utilização de duas soluções para o cabelo: a primeira solução é uma solução de ondulação (tioglicolato de sódio ou amônio) e a segunda é uma solução de neutralização ou solução de fixação (peróxido de hidrogênio).

• Descoloração (luzes, mechas) - envolve a utilização de peróxido de hidrogênio em base alcalina (amônia).

• Relaxamento
- também são conhecidos como alisadores de cabelo e envolvem uma variedade de produtos químicos, como hidróxido de potássio, de cálcio, de sódio e guanidina.


Vários trabalhos, independentemente do período da gestação, tentam verificar o potencial cancerígeno da utilização destes produtos químicos no cabelo, principalmente em relação ao câncer hematológico e de bexiga. No entanto, até o momento, nenhum destes estudos confirmou tal relação e, desta maneira, ficamos com a afirmação de que estes produtos são considerados seguros para a saúde, inclusive com a aprovação de órgãos como o Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e também da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.

Existem poucos estudos referentes à tintura dos cabelos utilizada durante a gravidez humana. Em estudos com animais, doses 100 vezes maiores do que as utilizadas em seres humanos não mostraram alterações significativas em fetos em desenvolvimento. Sabemos que apenas uma pequena quantidade de qualquer produto aplicado no nosso couro cabeludo é realmente absorvida e, portanto, disponíveis para chegar ao desenvolvimento do bebê.

Um estudo em seres humanos analisou o uso de alisadores de cabelo durante a gravidez e não encontrou risco aumentado de baixo peso ao nascimento ou parto prematuro. Este estudo não abordou a possibilidade de outras anormalidades (tais como malformações). Já outros estudos sugerem que produtos químicos podem ser absorvidos através do couro cabeludo em quantidades suficientes para aumentar o risco de neoplasias. Além disso, um estudo mostrou que o neuroblastoma, uma neoplasia pediátrica comum, foi três vezes mais frequente em crianças cujas mães utilizaram produtos de coloração durante a gestação.

No entanto, um grande estudo analisou o risco de abortamento em profissionais que trabalham com estes produtos e ele apenas demonstrou um leve aumento do risco de abortamento espontâneo naquelas mulheres com atividades específicas, tal como carga horária acima de 40 horas semanais, com um maior número de substâncias clareadoras e permanentes aplicados por semana. Visualizando por outro lado, aqueles profissionais que trabalham em tempo parcial (menos de 35 horas por semana) não parecem ter um aumento do risco de aborto durante a gravidez. Desta forma, diante da ambiguidade destes resultados, fica absolutamente impossível fazer qualquer afirmativa convicta quanto ao uso de produtos químicos durante o período gestacional.

Segundo o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG), tinturas de cabelo são provavelmente seguros para uso durante a gravidez, por apresentarem pouca absorção através da pele. No entanto, ainda é importante ser cauteloso! Muitos profissionais de saúde recomendam que mulheres grávidas não usem tinturas permanentes durante os três primeiros meses de gestação. A preocupação seria de que os produtos de inalação, utilizados durante o processo, poderiam ser prejudiciais para o bebê em desenvolvimento. Tinturas permanentes contêm amônia, que tem uma fumaça química forte.

A recomendação é evitar tinturas de cabelo que contenham amoníaco. O aviso de inalação química também se aplica aos produtos de alisamento! Por outro lado, tinturas semi-permanentes ou descoloração por luzes podem ser considerados mais seguros para estas mulheres grávidas. No procedimento de luzes, o corante é limitado às folhas de papel alumínio utilizadas no procedimento e desta feita, este corante não será absorvido pela pele. O mesmo ocorreria em relação à amamentação: como poucos produtos são absorvidos pela pele, é improvável que eles passem para o leite materno.

É importante lembrar que as soluções de fixação ou de neutralização usadas durante as colorações permanentes e nos processos de alisamento, podem irritar o couro cabeludo, mas não afetam outras áreas do corpo, e assim não afetarão o feto durante a gestação ou o bebê, na sua fase de amamentação.  Resumindo, ainda hoje não existe um consenso médico para confirmar ou não, se as tintas de cabelo são prejudiciais durante a gravidez. Podemos assim afirmar que os produtos com amônia devem ser evitados no primeiro trimestre, devido ao perigo de malformações. Shampoos tonalizantes são permitidos durante toda a gestação. Luzes, reflexos, ballayage são autorizados, mas sempre procurando fazê-los longe da raiz!

Sendo assim, é muito importante consultar o ginecologista e o dermatologista da sua confiança e, acima de tudo,  que se mantenham sempre bastante atualizados! Eles estão aptos a responder as suas principais dúvidas em qualquer momento, especialmente nesta fase tão especial, que é a gestação.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE:

Questão de pele Cláudia Magalhães Formada pela Unicamp, onde fez residência médica, é especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). É membro efetivo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD) e Fellow da Sociedade Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Americana de Laser (ASMLS). recepcao.claudiamagalhaes@gmail.com

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