Questão de pele

Muito além do Hidrogel

Publicado em 09/12/2014, às 12h34 | Atualizado em 09/12/2014, às 12h44

Por Cláudia Magalhães

 / Foto: CanStock

Foto: CanStock

Na semana passada, o nome Hidrogel tornou-se muito popularizado, pois foi o motivo de várias matérias na imprensa em todo o Brasil em decorrência do caso da modelo Andessa Urach. Ela recebeu aplicações do produto em suas coxas há 5 anos e, no último dia 29 de novembro, foi internada em estado grave em uma UTI da cidade de Porto Alegre (RS), vítima de septicemia. Vamos parar apenas por alguns instantes para analisarmos o que realmente é importante nesse caso de Andressa Urich, em especial, e em tantos outros que são, ou que muitas vezes, nem conseguem ser tão destacados na imprensa.

Em primeiro lugar, vale a pena relembrar que o Hidrogel é um preenchedor no qual a principal substância nele existente é a poliamida. Quando ele é injetado nas camadas mais profundas da pele e/ou no plano muscular, ocorrerá a formação de um filme ao seu redor, onde bactérias podem colonizá-lo. O que  poderá ser a causa de uma infecção muitos anos após o seu implante, exatamente como ocorreu no caso da modelo Andressa.

Ainda em relação ao Hidrogel, devemos salientar que o seu registro junto à Anvisa, que permite a sua comercialização e importação, está vencido desde o dia 31 de março deste ano. No entanto existe a liberação para o uso dos lotes fabricados até esta mesma data. Num jogo dos 7 erros, o primeiro grande erro está exatamente aí! Como podemos aceitar que quaisquer lotes de um produto que tem o seu registro expirado possam ainda ser comercializados e aplicados com finalidade estética?!

Outra questão que paira no ar é o porquê se permite, ainda nos dias de hoje, que tantas clínicas se mantenham abertas e continuem anunciando procedimentos estéticos milagrosos que preparam o corpo para o Verão que vem chegando?

Diante do enorme rigor que muitas clínicas médicas, dermatológicas e de cirurgia plástica são avaliadas pela mesma Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como explicar a proliferação cada vez maior dessas clínicas "estéticas" em todo o Brasil? Porque todas essas inúmeras irregularidades com as quais nos deparamos todos os dias na internet ou em outdoors pela cidade ou mesmo, ao virarmos uma esquina qualquer e vermos uma placa com um anúncio de "uma promessa de beleza e de juventude eternas", somente venham à tona em situações limítrofes como esse recente caso de Andressa. Ou mesmo, no caso da morte de outra mulher, há cerca de um mês em Goiânia (GO), vítima também de uma aplicação do Hidrogel - nesse último caso, provavelmente o produto foi incorretamente aplicado dentro de um vaso e houve uma embolia e morte da paciente.

Vale a pena ressaltarmos que, atualmente, observamos que a busca pela beleza, pela juventude e pela perfeição dos contornos corporais e das linhas da face são desejos muito frequentemente encontrados em um número crescente de pessoas. Essas pessoas almejam muitas vezes que, em um passe de mágica, possam obter resultados rápidos e eficazes. É exatamente nesse momento que também se tornam alvo fácil de profissionais - médicos ou não -, que, infelizmente, fazem com que um simples sonho possa se transformar em um enorme pesadelo. 

Vivemos em um mundo moderno onde a tecnologia impera e os procedimentos para o rejuvenescimento facial e os tratamentos da melhora do contorno corporal estão cada vez mais acessíveis. No entanto é preciso ter acesso a eles de uma maneira segura, através de clínicas e de profissionais capacitados para executá-los. E, muito além disso, é preciso que os pacientes que forem se submeter a algum desses procedimentos iniciem a sua busca a partir dos ótimos resultados obtidos pelos vários profissionais de excelência, que praticam uma medicina correta e honesta.

Também é preciso avaliar junto a esses profissionais os riscos e os benefícios dos vários tratamentos disponíveis. É fundamental termos a convicção de que o preço nunca poderá ser o fator decisivo no momento em que se faz a escolha de um tratamento estético cirúrgico ou com a utilização da toxina botulínica; ou com os vários tipos de preenchimentos ou ainda com os diversos equipamentos de Lasers hoje existentes.  `

Diante de todos esses fatos, consideramos que, infelizmente, ainda vivemos em um País no qual os vários órgãos de controle e de regulamentação da saúde não são completamente eficazes. Além disso, não contamos com um sistema judiciário adequado como o que existe nos Estados Unidos, onde há punição de fato e de verdade para aqueles que infringem as leis. Sendo assim, vale a pena ressaltarmos que a nossa vida, a nossa saúde e a nossa integridade física e psíquica são bens que não têm preço.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

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Questão de pele Cláudia Magalhães Formada pela Unicamp, onde fez residência médica, é especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). É membro efetivo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD) e Fellow da Sociedade Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Americana de Laser (ASMLS). recepcao.claudiamagalhaes@gmail.com

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