O amor que guardei para mim

Cicatrizes marcadas na alma que nem tatuagem

Publicado em 15/02/2018, às 08h20 | Atualizado em 15/02/2018, às 08h20

Por Malu Silveira

Não precisamos ir muito longe para enxergar os sinais que nos impulsiona na vida / Foto: Pixabay

Não precisamos ir muito longe para enxergar os sinais que nos impulsiona na vida Foto: Pixabay

Se a vida fosse fácil, que extraordinário seria passar por nossas experiências terrenas. Como seria simples viver todos os dias. Sem aperreios, perrengues ou sufocos. Lágrimas, somente de felicidade. Dor, só na barriga: e seria de tanto rir. Caretas, só nas brincadeiras. Guerra, somente as de almofadas. Não apenas viveríamos, eternizaríamos nossos momentos. Sabe por que? Pois todas as nossas lembranças seriam de tempos felizes.

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Às vezes me pego imaginando como seria se vivêssemos nesse fantástico mundo dos sonhos, rodeados por nossas mais mirabolantes fantasias. Seríamos assim tão contentes? Saberíamos valorizar todas as dádivas dadas, mesmo que sem nenhum esforço? Ser feliz assim, todo o tempo, não esgotaria nossas energias? Como seria viver, dia após dia, sem nenhuma bagagem sofrida para carregar nas costas? Dessa forma, seríamos assim tão fortes?

Houve uma época em minha vida, logo após sofrer - até então - a pior das decepções amorosas, que não aguentava mais escutar os outros dizendo que aquele desgosto me faria crescer, uau!, me faria muito mais forte. O sofrimento, me diziam, com certeza me faria uma pessoa melhor. E que, no futuro, eu iria agradecer por ter passado por tudo aquilo. Por Deus, como eu queria, naquela época, que me transportassem para essa terra dos pôneis coloridos.

Na minha cabeça, eu não precisava ter passado por nada daquilo para aprender algo. Passar bem, obrigada. Eu realmente achava que minha vida seria tão ou muito melhor se aquela tempestade não tivesse desorganizado a minha rotina. Sim, eu acreditava que apenas os dias ensolarados, com suas árvores frondosas e suas flores maravilhosas, seriam suficiente para me ensinar a dominar os malabarismos da vida.

No fundo eu entendia que era somente isso que a gente quer: ser feliz, sem que para isso precisemos levar algumas muitas bofetadas da vida. Eu acreditava que, se nos esquivássemos, sempre que possível, das piores lutas, conseguiríamos, sem muito esforço, um lugar no pódio.

Só após passar por muitas experiências, escutar tantos relatos e observar tantos inimagináveis cenários, é que a gente percebe que aquele mundo lá de cima simplesmente não existe. Não condiz com nossa realidade. E, mesmo que existisse, terminaria por nos engolir aos montes, sem chance de fuga. E sabe por que? É que não tivemos a oportunidade de testar nossas melhores armas e mais habilidosas ferramentas de escapar ou vencer as batalhas.

Chega um momento em que aceitamos que nossas feridas, mesmo quando ainda não saradas, são nossos mais potentes escudos contra diversos monstros. Percebemos, enfim, que nossos processos em busca da cura são nossas mais extraordinárias jornadas. Veja bem, tem coisa mais linda do que se dar conta da mágica que é ser forte mesmo quando não temos mais forças? Você já sequer reparou como é grande a felicidade de alguém que tinha tudo para não se reerguer e finalmente conseguiu dar mais alguns passos?

Agora sei que aquele universo paralelo de felicidade abundante jamais nos transformaria em pessoas melhores - mais humanas, generosas e solidárias. Sabe por que? Porque simplesmente não teríamos para onde olhar, algo em que pudéssemos nos nortear.

Do lado de cá, no entanto, não precisaríamos ir muito longe para enxergar os sinais que nos impulsiona diariamente a correr atrás das nossas alegrias. É que apenas nossas cicatrizes nos faz entender o essencial.. Coisa que muito provavelmente todos aqueles tão sonhados “dias fáceis” jamais nos faria compreender. É que essas marcas estão cravadas - na pele e na alma - que nem tatuagem. Todo o processo, pode ter certeza, dói para caramba. Mas a gente aprende a confiar. No final, você vai gostar do resultado. :)

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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