O amor que guardei para mim

Nós por nós

Publicado em 29/06/2017, às 08h20 | Atualizado em 29/06/2017, às 08h20

Por Malu Silveira

Como é difícil sentir falta de uma pessoa que sequer esteve ali para que sua ausência fosse sentida / Foto: Pixabay

Como é difícil sentir falta de uma pessoa que sequer esteve ali para que sua ausência fosse sentida Foto: Pixabay

Hoje me peguei pensando em todas as vezes que esperei que você estivesse ao meu lado. E, seja lá por quais motivos, você sequer apareceu. Nem que fosse para me dar um breve, porém apertado, abraço. Lembrei que, ao receber um diagnóstico aterrorizante bem no auge dos 25 anos, aguardei tanto por uma mensagem sua. Um ‘tudo bem?’ que fosse. Só para me sentir querida, já que você não podia fazer com que eu me sentisse amada.

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Hoje me dei conta das inúmeras vezes em que chorei e pensei que você poderia ter me estendido a mão. Como quando encarei algumas cirurgias morrendo de medo. Ou ao esperar aflita na sala de espera pela próxima consulta com mais um prognóstico dolorido no saldo. Ou naquela vez em que aguardei extremamente preocupada por notícias do sobrinho caçula, internado ao nascer por problemas no parto.

Hoje lembrei das tantas conquistas que quis compartilhar contigo. Dos conselhos que gostaria de ter recebido sem que para isso tivesse que ter implorado sutilmente por eles. Das conversas que gostaria de não ter precisado iniciá-las. Dos convites que tive que fazer porque eles nunca me eram feitos primeiro.

Hoje recordei dos pesadelos que tive e acordei desesperada desejando que você tivesse pressentido algo e falasse comigo. Relembrei também dos inúmeros sonhos que, ao acordar, eu rezava repetidas vezes para que todos virassem realidade. Do mais bobo ao mais erótico. Por falar nisso, hoje me peguei lembrando de todos os lugares em que fizemos sexo. Às vezes nem tão bom, mas quase sempre totalmente entregue. Mas aí me dei conta daquela mensagem do dia seguinte que quase nunca chegava e do abraço que quase nunca durava.



Se juntassem todos os dias...

... em que me peguei pensando como sua presença teria sido um abraço na minha alma pode marcar aí umas boas semanas, quiçá um punhado de meses. Penosas horas, nas quais fui ligando os pontos e juntando os retalhos. E sempre chegava a uma triste resposta. Como é difícil sentir falta de uma pessoa que sequer esteve ali para que sua ausência fosse, de fato e de direito, sentida.

Hoje, e em qualquer brecha do meu dia, me peguei pensando como é torturante ter que se conformar com o discurso de que não devemos criar expectativas. Quando tudo o que eu queria era regar alegremente minhas sementes e poder gozar dos meus frutos. Como seria bom colher amor se plantei, com tanto cuidado, carinho.

Mas não se preocupe. Não foi só você. Antes de você já existiu outro. E antes, outro. E outro. E não foi apenas comigo. É com tantas de nós. Que aprendemos, a duras penas, a olhar cada vez mais para dentro. A nos voltar para o íntimo. Ou nos jogar em círculos de acolhimento, prontos para enxugar lágrimas que não deveriam ter brotado por ali.

Hoje atentei para o fato de que, se por tantas vezes você não marcou uma gentil presença, provavelmente nunca mais marcará. E isso só comprova um triste cenário: estamos cada vez mais sós, embora rodeados de gente. É uma quase certeza lamentável de que, em diversos relacionamentos amorosos, não podemos contar para todo o sempre. Não há pacto de amigas ou juramento de irmãos. Nem muito menos o porto seguro dos pais. Vamos aprendendo, bravamente, a sermos nós por nós. Do contrário, se por acaso fraquejarmos, quem será?


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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