
Quem foi aos cinemas para ver a adaptação de Tintim feita por Steven Spielberg vai ter contato com um outro herói. Ainda que todos os elementos e personagens clássicos estejam lá - o cachorrinho Milu, os irmãos policiais Dupont e Dupond, capitão Haddock - vale a pena conhecer mais a fundo o universo do intrépido jornalista na sua mídia original, os quadrinhos.
Por aqui, os livros de Tintim são publicados pela editora Companhia das Letras desde 2005, mas já eram conhecidos no Brasil bem antes disso por causa das edições que saíram pelas editoras Record e Flamboyant, hoje esgotadas, e pelo desenho animado exibido pela TV Cultura nos anos 1990 . Por mais de oitenta anos, o jovem repórter já foi publicado em quase 60 idiomas e tem fãs no mundo todo, particularmente na França e Bélgica, onde está entronizado como parte da cultura pop desses países.
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Criado pelo jornalista e desenhista Hergé (pseudônimo de Georges Remi) em 1929, Tintim retomou o velho gosto europeu por histórias de exploração e adicionou elementos detetivescos que prendem a atenção do leitor até o grande desfecho final. Na arte dos quadrinhos, foi importante por popularizar um estilo conhecido como "linha clara", de traços muito simples. A primeira aparição aconteceu no suplemento juvenil Le Petit Vingtième, que fazia parte do jornal belga Le Vingtième Siècle.
A primeira história mostra o repórter indo até Moscou, na então União Soviética para enfrentar os bolcheviques. A HQ foi publicada de forma seriada no suplemento juvenil do jornal. A HQ foi um grande sucesso editorial e tornou o personagem muito popular entre as crianças. Pensando nisso, seus editores tiveram a brilhante ideia de celebrar o "retorno" do herói, e contratou um ator para fazer o papel de Tintim voltando de sua aventura na URSS. Centenas de fãs esperaram na estação central de Bruxelas pelo jovem repórter em 8 de maio de 1930. A estratégia foi repetida mais três vezes.
Ainda que sejam muito ingênuas, claramente voltado para crianças da primeira metade do século passado, essa primeira fase de Tintim já trazia elementos sofisticados para as HQs, como a narrativa ágil. Como retrato dos solavancos que o mundo - e mais precisamente a Europa - sofreu durante o século 20, o personagem também serve para acompanhar essas transformações. Em 1939, com a Bélgica ocupada pelos nazistas, o jornal Le Vingtième Siecle foi fechado, e consequentemente a série de Tintim foi descontinuada.
Hergé interrompe a série Tintim no País do Ouro Negro e retoma uma nova, Tintim e o Caranguejo das Pinças de Ouro dentro do Le Soir, jornal que tinha permissão dos nazistas para circular. Isso causou problemas à imagem pública do autor anos mais tarde, por levar seu famoso personagem à uma publicação autorizada por Hitler. Já no ano passado, um congolês foi a um tribunal belga para retirar de circulação o livro Tintim no Congo (1931), alegando que a obra trazia muitos estereótipos racistas sobre os africanos, como o fato de mostrá-los em traços semelhantes aos macacos. O processo teve muito repercussão no mundo todo.
Atualmente, toda a obra de Tintim pode ser facilmente encontrada nas livrarias em livros com boa edição, à altura dos originais publicados na Europa. Um dos meus preferidos é Tintim e a Alfa-Arte, uma obra que traz os croquis do que seria a última aventura de Tintim. Inacabada, a história investigava o misterioso assassinatos de dois especialistas em arte e foi interrompida pela morte do autor, em 1983. Prato cheio para os fãs são as 42 páginas de esboços que mostram o processo criativo de Hergé. É um livro para iniciados no personagem, mas não deixa de ser interessante - e muito bonito. Quem gostar do Tintim mais clássico, temos boas opções como A Ilha Negra, passado na Escócia, O Lótus Azul, na China e Os Charutos do Faraó.
Mas, uma vez iniciado a leitura dos gibis de Tintim, a tentação de completar os 24 livros oficiais será grande. E apesar do controverso longa dirigido por Steven Spielberg (que tanto agradou como decepcionou os fãs), a série em quadrinhos é um tesouro inconteste.
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Uma sugestão para quem ir mais fundo na história de Tintim é ler este artigo de Sérgio Codespoti, um dos maiores especialistas em HQs europeias.
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10
Uma boa para quem não conhece é ouvir o Nerdcast sobre o filme. Nele tem uma passada boa pela história do personagem e pelo filme em sim. Segue o link: http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast/nerdcast-293-tintim-o-macaco-e-o-herege/
PAULO FLORO é repórter do JC Online e um dos editores da Revista O Grito!
