
I
Da minha varanda, na cidade, vejo a chuva descer em riscos verticais, enchendo a copa das árvores de um verde úmido, e aos poucos aliviando o excesso de água para o Capibaribe, aqui juntinho. De onde estou já não enxergo facilmente os prédios vizinhos, mas escuto o ruído rouco e solitário de um pequeno avião acima das nuvens, que há tempos passa duas vezes por dia, indo e voltando para algum lugar.
Enquanto chove, ouço que os pássaros ficaram em silêncio, quem sabe em recolhimento à espera do próximo sol, já que essa não é época de chuvas prolongadas. As pessoas também sumiram, talvez porque nas primeiras chuvas as sombrinhas ainda estejam no armário. Só um cachorro vadio, esquecido dos outros e de si mesmo, perambula indiferente às poças que se acumulam na rua.
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II
Na praia, dentro d’água, sinto a chuva chegando devagar e a acompanho na pesada massa cinza que encobre o sol e se precipita sobre a água salgada, como se mar e céu fossem o mesmo domínio. Os pingos não me molham, apenas acrescentam mais água ao corpo, agora salobro, numa sensação de que nasci aqui, no oceano, como meus ancestrais mais distantes.
As toalhas na areia foram recolhidas, enquanto o grito infantil dos que brincavam de pipa já se ouve dentro de casa. Ainda vejo dois pescadores recém-chegados do mar, que arrastam com esforço a jangada sobre troncos roliços de coqueiro para não deixá-la ao alcance da próxima maré cheia, antes de seguir para o bar de Zé Gordo, tomar a esperada cachaça com peixe frito.
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III
Do terraço da casa na fazenda assisto a chuva cair forte, pipocando no chão seco e levantando um aroma peculiar, de terra molhada. A lama logo se faz na estradinha de barro, enquanto a lavandeira se banha, na certeza de que não será engaiolada. É hora de aparar água do telhado e guardá-la para dias secos, quando não houver água na terra nem no céu.
Se a terra cheira o milho é semeado, à espera de novas chuvas que lhe garantam safrejar, depois de um arriscado caminhar pelos tempos incertos, de Santo José a São João. Só então a água se fará canjica, alegria, namoro e casamento à beira da fogueira. No Sertão água de chuva é coisa séria, não se medindo pelos dias em que chove, mas pelo tempo em que perdura, nos barreiros e nas cisternas.
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IV
Ontem choveu na favela, mas hoje nem dá pra saber se o alagamento que inunda o lugar das brincadeiras resulta das águas ou do esgoto crônico, a céu aberto. Dentro de casas, a chuva caia em pingos grossos, de goteira. Quando o garoto acordou assustado com o trovão, nem precisou correr para a cama da mãe, porque ali já é a sua própria cama. Felizes mesmo estavam os porcos, que apesar de presos em chiqueiros improvisados, puderam comemorar o alívio do calor e se lambuzar porcamente. Já a hortinha plantada na bacia imprestável, dava sinais de afogamento.
Durante a chuva, as visitas nada sociais dos consumidores de droga diminuem e, por isso, a polícia faz menos ronda. Mas as baratas se exasperam com a água inundando seus esconderijos, enquanto as ratazanas se sentem livres da perseguição dos gatos. O que nada muda é debaixo do telhado de Gerson, com a bola doze por vezes entrando na caçapa e a cachaça tomada com coca cola prolongando o serão do bar sem portas. Tiros? Pra que, se está tudo calmo?
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V
As pancadas de chuva no para brisa eram tão grandes, que a nuvem encharcada parecia trombar com o carro. Uma subindo a serra e o outro descendo para o litoral. No volante, eu não sabia se a próxima curva da estrada seria para a direita ou para a esquerda. Com medo de encontrar um obstáculo fatal, pensei em frear. Mas como, se atrás de mim outro em mesma velocidade poderia, de repente, ter-me como o próprio obstáculo?
Se nada aconteceu de terrível naquela noite, foi porque a minha inércia deixou o carro deslizar reto, coincidentemente no pequeno trecho de estrada sem curvas, até que pude enxergar alguma coisa, pelo vidro ainda embaçado. A partir daí, liguei o som e o pisca pista de alerta enquanto descia, anestesiado, os últimos quilômetros da Serra das Russas e avistava a planície.
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VI
Dois corpos correram desorientados, evitando se molhar com a chuva que chegara sem aviso prévio. Avistando um guarda-chuva, já aberto, buscaram proteção sem mesmo pedir licença ao desconhecido que passava, terminando por se molharem os três. No fracasso da tentativa, já com as costas ensopadas e risos nervosos, se abrigaram debaixo de uma árvore, que ainda segurava a chuva em sua copa. Mas aos poucos, a cada folha que cedia com o peso da água, mais um pouco encharcavam.
A chuva parecia mais grossa, sobretudo se vista diante da luz do poste. Correram então para a marquise de um portão, mas lá se espremiam namorados mais cautelosos. Até que, já inundados de corpo e alma pela água fria assumiram relaxar, e se enlaçaram e se beijaram, esquecendo-se de tudo, retomando o que faziam antes da chuva começar.
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10
RICARDO BRAGA é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com
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