Foco ambiental

Discutindo o Cais José Estelita

Publicado em 28/07/2014, às 07h51 | Atualizado em 28/07/2014, às 12h25

Por Ricardo Braga

O Cais José Estelita liga o bairro de São José com seus sítios históricos à Praia de Boa viagem, com seus edifícios modernos. / Foto: Marcelo Soares

O Cais José Estelita liga o bairro de São José com seus sítios históricos à Praia de Boa viagem, com seus edifícios modernos. Foto: Marcelo Soares

O Cais José Estelita é uma área absolutamente privilegiada, ainda sem destino claro para a cidade do Recife. A antiga Ilha de Antônio Vaz, de frente para a bacia do Rio Pina e avistando o mar aberto, situa-se entre duas realidades urbanísticas distintas: liga o bairro de São José com seus sítios históricos à Praia de Boa viagem, com seus edifícios modernos. É um espaço aberto ao diálogo entre a natureza, a história e a contemporaneidade. Por isso, o que se fizer ali, marcará a cidade para sempre.

Por falta de protagonismo do poder público, aquela área de 10 hectares foi reservada por um consórcio privado para a construção de 12 torres de até 41 andares, reeditando as duas já existentes ali próximas, que tanto contrastam, incomodam e ferem a paisagem mansa do bairro, ainda dominada pela superfície das águas e a amplitude dos espaços abertos.

Mais uma vez o capital imobiliário passou a perna no interesse público, ditando o destino da estrutura e funcionalidade de uma parte da cidade. Estranhamente, no último dia útil da gestão municipal anterior, foi aprovado o Projeto Novo Recife, cujo nome e forma de divulgação parecem querer confundi-lo com uma proposta de governo, alegada para o bem da cidade e de seus moradores. Coube à atual gestão municipal manter-se omissa ou, no máximo, negociando medidas compensatórias para tornar o projeto politicamente palatável.

Diante das críticas, vindas de muitas partes e capitaneadas pelo movimento Direitos Urbanos, o poder econômico, mais uma vez, soube usar a sua força, mobilizando advogados, lançando propaganda paga massiva em jornal, rádio e televisão, e negociando os anéis para preservar os dedos, oferecendo compensações à cidade como se essa fosse uma prostituta a receber adereços por ter dado o que lhe é mais importante, o corpo.

Assim, as vantagens do empreendimento passaram a ser os ganhos gerados pelo investimento naquilo que o poder público na realidade deveria capitanear, como a preservação do patrimônio histórico e as praças. Deixa-se então de discutir as 12 torres, que descaracterizam a paisagem com um paredão de concreto, a ser visto de qualquer ponto num raio de muitos quilômetros.

Ainda bem que parte do Recife acordou, a partir do Ocupe Estelita, fazendo com que a prefeitura seja cobrada a assumir o protagonismo na gestão da cidade e conduzir a discussão do projeto com participação social, tendo como referencial a integração com os bairros próximos, a implantação de equipamentos de interesse social e a revisão da dimensão das indesejadas torres naquela área.

Independentemente do que se consiga nas negociações dos próximos dias, a mobilização no Cais José Estelita já tem meia vitória. Foi o estopim que desencadeou uma grande mobilização para discutir e interferir no desenho da cidade, rearticulando pessoas e instituições que já estavam descrentes de que seria possível se contrapor ao partilhamento dos espaços urbanos pelo setor imobiliário, diante de governos acanhados no desempenho de seu papel como gestor desses espaços.

Mas não se trata de maniqueísmo entre o bem e o mal. Apesar de ser da sua essência buscar o rendimento máximo do que investe, o grande capital privado tem sabedoria suficiente para se alinhar às oportunidades que surjam, orientadas por uma nova correlação de forças decorrente dos processos democráticos. Por aí, quem sabe, poderá se viabilizar um novo partido urbanístico para o Cais José Estelita, que atenda ao interesse da cidade e dos seus cidadãos.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Foco ambiental Ricardo Braga é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com. ricardobraga.jc@gmail.com

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  • De: Carlos- 28/07/2014 20:03 Ela não é apenas uma maconheira e crackeira. "Deixa" a iniciativa privada criar emprego e renda para o trabalhador, desocupada
  • De: Biagio- 28/07/2014 10:29 Pode se até modernizar a área mas nunca construir torres de 41 andares , pois tudo iria parecer um paliteiro ,além de tirar toda a beleza, ventilação , no máximo 10 andares e se enquadrando no plano urbanístico da cidade.