NE10
Pernambuco - 24.04.14 - Atualizado às 04h45

Foco ambiental

Cidadania ambiental e os desafios do século 21

Publicado em 01.04.2014, às 11h03


Ilustração: internet

Por Ricardo Braga

Há pouco tempo, fui convidado pelo Sistema S (Senai, Sebrae e Senar) a realizar palestra sobre Educação para a formação da cidadania ambiental, voltada a centenas de professores, sobretudo do ensino básico. Considerei o desafio estimulante e aceitei na hora. Além de oferecer a oportunidade de organizar o meu pensamento sobre o tema, me possibilitou contribuir, mais uma vez, com a formação de pessoas que são estratégicas e indispensáveis na construção da cidadania de crianças e jovens.

A cidadania apresenta várias faces ao longo da história. Antes de Cristo, mais precisamente na Pólis da Grécia Antiga, cidadãos eram os poucos que detinham o poder de mando e que podiam, por isso mesmo, decidir o destino da cidade em discussões e deliberações havidas na ágora. Embora essa experiência seja conhecida como o nascedouro da democracia, ela se estabelecia apenas entre alguns e não incluía a maior parte da população das decisões importantes.

Posteriormente, em Roma, essa condição de cidadão foi estendida a um número proporcionalmente maior de pessoas, agora como membros da aristocracia, que exerciam as decisões na civitas. Na Idade Média, embora referida como a Idade das Trevas, iniciaram-se de maneira formal as liberdades cívicas e pessoais, avançando a visão de cidadania por meio da conquista de direitos considerados de primeira geração.

Já no século 18, a partir de movimentos revolucionários na França, Estados Unidos e Inglaterra, foram sacramentados os direitos do cidadão moderno, sociais e coletivos. Mas esse processo de conquista se estende até o século 20, com a conquista do direito ao voto universal, de greve e de associação, que já são considerados de segunda geração.

A partir de meados do século 20, aos direitos individuais juntaram-se os sociais, econômicos, ambientais e culturais, inclusive no Brasil. Pode-se considerá-los de terceira geração, ocasião em que se consolida o direito à paz, às diferenças étnicas e culturais e ao meio ambiente sustentável. Nesse contexto contemporâneo, é forjada uma cidadania mais robusta, a partir de preceitos democráticos, numa visão ampla dos próprios direitos progressivamente conquistados.

É nesse quadro que pode ser enxergada a cidadania ambiental, que agrega a multidimensionalidade ecológica, de gênero, étnica, de idade, política e social. Que também reconhece como legítima a diversidade cultural e biológica e cultiva a solidariedade intergeracional, entendida como a valorização da história como aprendizado, e do futuro como compromisso ético. Além disso, assume a alteridade, que possibilita olhar, sentir, respeitar e levar em consideração o outro.

Porém existem enormes desafios à cidadania ambiental no século 21, uma vez que vários fenômenos contemporâneos parecem estar na contramão dos direitos conquistados e se estabelecem e se enraízam na sociedade. Um dos mais sensíveis é a perda da identidade na multidão. Posso perguntar quem sou eu neste mundo de gente ou em que faço diferença em existir ou não? A resposta a essas perguntas pode levar ao sentimento de dissolução da própria cidadania. A percepção de não ser adequadamente reconhecido no contexto político-social onde se vive pode levar ao afastamento dos interesses coletivos e à valorização do individualismo, sobretudo em um ambiente competitivo e hostil.

Outro fenômeno agravante se estabeleceu na sociedade contemporânea, o da necessidade de gerar resultados rapidamente, diante da velocidade incontrolável dos acontecimentos, do excesso de informações que chegam permanentemente e da competição por legitimação social. Isso exige um cidadão ao que posso chamá-lo de “multi-tarefas”, fazendo-se escravo de uma agenda lotada de compromissos a ser cumpridos, o que o conduz à sensação de permanente falta de tempo para dar conta de tudo que a sociedade parece exigir e, em consequência, ao sentimento de inadimplência consigo mesmo e com os outros. Essa constatação vai ao encontro de uma frase lapidar do cartunista Millôr Fernandes, de que “o futuro chega com tal rapidez que começo a desconfiar que o agora está atrás de mim”.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Compartilhe essa notícia

DIGG NEWSVINE STUMBLE WINDOWS LIVE GOOGLE FACEBOOK MYSPACE


Comente esta matéria


Cadastre-se! Esqueceu a senha? O comentário é de total responsabilidade do internauta que o inseriu. O NE10 reserva-se o direito de não publicar mensagens com palavras de baixo calão, publicidade, calúnia, injúria, difamação ou qualquer conduta que possa ser considerada criminosa. Para participar, é preciso ser cadastrado no Portal.

Publicidade

Perfil

RICARDO BRAGA é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com



ranking

  1. Nenhuma notícia lida até o momento

especial

Largos e Pátios - pedras que contam a história

Largos e Pátios - pedras que contam a história

No aniversário das cidades, o portal convida a um passeio pelos pátios do Recife e largos de Olinda

Sistema Jornal do Commercio de Comunicação
© Copyright © 1997-2014, SJCC - Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - Recife - PE - Brasil
Grupo JCPM