Difusão

As sete pragas do português

Publicado em 19/08/2015, às 08h31 | Atualizado em 26/08/2015, às 18h34

Por Marcelo S. Alencar

 / Foto: Free Images

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Os leitores qualificados que acompanham esta coluna de divulgação científica, nos últimos 15 anos, têm certamente variados interesses, que vão de história da ciência à matemática, passando pela economia, engenharia e, principalmente, comunicações. Entretanto, em função da premência do tema, este artigo trata da Língua Portuguesa e dos atuais problemas que ela enfrenta.

As línguas mudam com o tempo, algumas são mais permeáveis a mudanças, como o inglês, outras mais inflexiveis, como o alemão. O português aceita alterações e novas palavras, mas não tem mudado muito nos últimos séculos, o que é ótimo, pois permite que obras magníficas, como Os Lusíadas, publicada por Luís Vaz de Camões em 1572, possam ainda ser lidas sem muita dificuldade. A Carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, escrita em 1 de maio de 1500, ainda é perfeitamente legível apesar de ter completado 500 anos poucos dias após o nascimento desta coluna.

As novas palavras surgem principalmente nas ciências, os jargões aparecem na tecnologia, assim como as gírias são produzidas geralmente nas comunidades. Novas formas de falar e comunicar ideias ocorrem o tempo todo. Não há como frear a inventividade do povo.

Porém, nos anos recentes, em função do poder multiplicador da televisão e da internet, um modo de falar estranho tem dominado as conversas, as apresentações, as entrevistas e corre o risco de passar para a linguagem escrita. Como pragas contemporâneas, esses vícios se espalham como virus em redes de computadores.

Tudo começou com a mania carioca de colocar artigo antes de nomes de pessoas. Isso é estranho porque o artigo definido tem exatamente a função de identificar ou determinar um substantivo de modo particular. Um nome próprio já está, obviamente, identificado, logo, não precisa de artigo definido.

O uso da expressão "o mesmo" como pronome é outra praga que assola a língua, inclusive a escrita. Uma aplicação lícita seria "este é o mesmo exemplo que usei no documento Receituário, encontrado no portal Difusão Científica." Aliás, o portal, que ensina como escrever melhor, entre outras coisas, está disponível em www.difusaocientifica.com.

Outra expressão que aparece com frequência é "como um todo", que não serve para nada e apenas empobrece o texto. Dizer "a sociedade como um todo" é um pleonasmo, visto que a sociedade já é composta por toda a população que se quer caracterizar. Talvez o único uso adequado seja o da expressão "aquele sanduíche, como um todo."

Usar "onde", que é advérbio de lugar, em lugar das expressões com pronomes relativos "em que" ou "na qual" é um erro comum, que está virando praga. Por sinal, pouca gente sabe usar o pronome relativo "cujo," que também é erroneamente substituído pelo advérbio "onde."

A palavra "cada" identifica uma entidade particular. Portanto, não há sentido em escrever "a cada cinco palavras se comete um erro." O correto seria "a cada conjunto de cinco palavras se comete um erro."

Mas umas das pragas mais nefastas é o excessivo uso do gerúndio, que deve indicar uma ação contínua, geralmente em andamento. Aparentemente, o único treinamento que os empregados de call centers recebem é como usar mal o gerúndio. Sim, esses centros de reclamações apareceram porque o sistema telefônico, após a privatização, não tem mais qualidade, como já discutido na coluna. Não havia call centers na época da Telebras, porque os telefones funcionavam.

Há muitos outros vícios, porém a praga mais nefasta da atualidade é o uso de "você" para substituir a linguagem impessoal, como em "você transmite o sinal pela rede," quando se quer dizer "o sinal é transmitido pela rede." Aparece, com frequência em uma expressão do tipo "você tem em português outra maneira de falar," quando se pretende dizer "há em português outra maneira de falar."

Para que o leitor se convença da importância da escrita correta, vale a pena recordar a inscrição feita por um escriba egípcio, há quatro mil anos: "Um homem morreu e seu corpo se tornou terra. Todos os seus parentes se desintegraram no pó. É pela escrita que será lembrado."

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: difusão notícias

Difusão Marcelo S. Alencar é professor titular da UFCG e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Telecomunicações. sampaio.alencar@gmail.com e no twitter: @marcelosalencar

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  • De: Ricardo Velez- 26/08/2015 19:58 @Apenas para refletir: Provavelmente o autor teve a intenção de gerar certa polêmica com o termo 'praga' além de fazer uma associação com as pragas bíblicas (inclusive fechando com uma referência ao Egito). Mas se você leu o texto, verá que ele trata principalmente de maneiras consideradas 'erradas' pois são mesmo construções inúteis e muitas vezes redundantes. Ou então, como é o caso do 'o mesmo', expressões que não existem e passam a não permitir um entendimento futuro (ou, no futuro, do passado) da língua.
  • De: Borges- 26/08/2015 19:47 De fato! Cada vez mais difícil encontrar alguém que saiba escrever nesse país!!
  • De: Apenas para refletir- 26/08/2015 14:22 Devemos refletir sobre o conceito de "praga" e de língua desta matéria. Quem é esse autor? Certamente, não se trata de verdadeiro estudioso e entendedor de nossa língua, de seus fenômenos, sua relevância e seus simbolismos sociais. O texto está impregnado de preconceitos e "achismos", demonstrando o desconhecimento dos estudos científicos na área e não reconhecendo a natureza mutável de todo idioma e a inerente diversidade decorrente da interação e dos usos sociais do português.
  • De: Ricardo Bezerra- 19/08/2015 11:03 Artigo muito interessante. Contudo, sobre o trecho "Portanto, não há sentido em escrever "a cada cinco palavras se comete um erro." O correto seria "a cada conjunto de cinco palavras se comete um erro." ", tenho uma "leve" discordância, visto que pode-se considerar uma elipse de "conjunto de", o que torna as expressões equivalentes.
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