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Recife - 21.05.12

Diário de um gordo (em dieta)

Gordo morre em cirurgia de estômago

Publicado em 19.02.2010, às 09h30

Se uma única pessoa viver melhor por conta de meu discurso pós-morte, o esforço terá sido recompensado
Se uma única pessoa viver melhor por conta de meu discurso pós-morte, o esforço terá sido recompensado
Foto: Divulgação

Grande Austeróbilo*,

Eu estou morto porque era gordo. E porque não consegui emagrecer. E porque não tive perseverança. E porque procurei caminhos ‘fáceis’. E porque Deus quis. Não foi erro médico (mesmo sendo ele um açougueiro). Não foram complicações. Morri porque tinha que morrer e pronto.

Estou aguardando julgamento. Nesse momento, estamos no intervalo de almoço e a votação está em 22 a 17 para que eu vá para o inferno. Ainda faltam muitos argumentos e a base aliada ainda não definiu o voto da bancada, então tudo pode mudar. Só depois a decisão segue para a Sanção Divina.

Comecei a acostumar com a idéia do inferno. Lá tem open bar e churrasco diariamente. Além disso, poderia praticar minha arte. Fui cartunista por 36 anos. No paraíso não é permitido charge de nenhum tipo: para não causar discórdia. No entanto, o céu muito me atrai. Não pelas virgens e tal - Isso é folclore -; virgem, lá, só Maria mesmo. O que me tenta são as nuvens de algodão doce, os rios de leite condensado e uma vida eterna fat free e sem diabetes.

Esta é minha última oportunidade de comunicação. Então, gostaria de fazer alguns pedidos e dizer alguns conselhos.

Em meu velório, não quero rosas, nem lágrimas. Nem preto, nem vela. Quero caixão fechado e microfone aberto. Uma foto minha, de quando era moço e vivia sorrindo. Quero Gipsy Kings tocando salsa, baixinho. Que cada amigo e familiar não troque uma lamentação sequer. Quero histórias engraçadas. Memórias de uma ajuda mútua. Quero lembranças felizes, saudosas e incompreensíveis.

Não quero “morreu jovem”, mas “sabia viver”. Rejeito o “por quê?” e abraço o “vai fazer falta”. Quero uma releitura póstuma, com direito a brinde com tequila, obrigatório a todos os presentes na despedida ingrata. E no fim, um suspiro como quem diz, paraíba e masculina: “Ah, se sêsse”.

Nunca fui muito sábio. Na maior parte do tempo, vivi reclamando do que me faltava. Ouvi, agora há pouco, que eu tinha tudo o que  todos os ‘julgados’ não mais tinham. E é verdade.

Agradeça por estar vivo e sorria a cada topada! Você sente, você anda. Muitos queriam poder ‘topar’. Grite alto que é feliz. Busque, naturalmente, ser a pessoa preferida de pelo menos um entre os seis bilhões de semelhantes a você.

No início da manhã, faça um desejo que você queira realizar até o fim do dia. Pode ser perder um quilo, pode ser conseguir o financiamento de um carro, pode ser um emprego. O importante é desejar; é sentir falta de algo. É saber o passo necessário para que você cresça e tenha ainda mais motivos para sorrir.

Ame.

Primeiro, a você mesmo. Você é seu bem mais precioso e é mais importante do que qualquer outra pessoa que conheça. Se conheça! Se toque, se mostre, se divirta. O resto vem em seguida.

Segundo, ame ao seu próximo. Não precisa de beijos, ou doações, ou sexo (apesar que, de vez em quando, é a melhor ‘ajuda’ possível). Às vezes, um sorriso e um bom dia caloroso mudam o dia de alguém. Talvez um “você é importante para mim” seja o que alguém desejou ouvir até o fim do dia. Diga! Que custa?

Por fim, ame o seu ‘eu’ em outra pessoa. Declare, esperneie, acaricie, grite, beije e goze. Muito. Não há troca mais justa. Não há entrega mais sincera. Ter o coração partido algumas vezes faz parte, contabilizar sorrisos e gemidos ‘sem dor’ faz valer a pena ter vivido.

Tenho que ir. Este discurso fez o placar empatar. 23 a 23. Talvez, enfim, eu tenha sido um bom rapaz! E se uma única pessoa viver melhor por conta de meu discurso pós-morte, o esforço terá sido recompensado. Desde que, esta, se mantenha longe dos ‘quases’ que encontrar pelo caminho. Afinal, “Quem quase vive, já morreu”... 24, 25...

*Autor dos livros ‘Minhas Grandes Coisas’ e ‘Fins de Semana & Feriados’.

**Para acessar todos os textos desta coluna, acesse a comunidade Diário de Um Gordo (Em Dieta)

NOTA DO AUTOR – Agradeço a todos que, há um ano, acompanharam este ‘semanário’ virtual feito com bastante apreço. Para quem perdeu o primeiro texto, que explica o que significa ‘Austeróbilo’, clique aqui. É o fim. Obrigado. Sentirei falta.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do JC ONLINE

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De: Milena- 23/02/2010 09:55

Quando será o lançamento do livro?!? Estou ansiosa. Abs.

De: ilregel- 22/02/2010 16:52

como sempre uma excelente leitura... acompanhei todas as semanas, e nenhum deixou a desejar.. que as mudanças sejam sempre pra melhorr e mt sorte e mt sucesso... abração e meus sinceros parabens.

De: Ed W.- 20/02/2010 13:26

obrigado, galera. isso significa bastante pra mim. espero vocês quando a coluna virar livro!!!

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Perfil

ED WANDERLEY é jornalista, anarquista, fatalista e todos outros 'istas' que valem a pena



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