
Estive afastado da coluna por estar envolvido em uma série de trabalhos e projetos que necessitavam horas de dedicação, afinal, não me sinto muito à vontade escrevendo sobre um tema no qual sou apenas um espectador, tenho medo de me transformar naquele crítico chato, amargo e demagogo que quer entender de tudo e no fim das contas não produz nada. A questão está na dificuldade de falar das próprias peças, porque alguns poderiam tomar esse ato como uma grande publicidade pessoal, por isso estou buscando o equilíbrio no conteúdo para que a obra ganhe mais importância que o autor.
Como se lê nas noticias, a Europa está passando por uma crise econômica avassaladora, e não há emprego para jovens em nenhum setor, há cortes por todos os lados e a sociedade é totalmente controlada. Para se ter uma idéia na cidade em que vivo tem protestos todas as semanas, e para organizá-los é preciso obter uma autorização do estado. Ao contrário do que prega as nossas queridas bancadas ruralista, evagelista, verticalista, bioniquista e ex-esquerdista, precisamos de uma sociedade que dê o mínimo de bem estar e conforto para nossa população e pra isso precisa tomar algumas rédeas, se não, essa euforia toda, logo, logo vai para as cucuias e estaremos na mesma miséria que os europeus, mas com a infelicidade de um estado caótico, que finge ser laico e finge querer melhorias para a população.
Por aqui na gringolândia, cansados de tanta dor, ranger de dentes e dependência do estado para produzir obras (vou nem entrar no funcionalismo público artístico, porque aí viro judas!) muitos artísticas se juntaram em coletivos para fortalecer a “classe” e criar distintos festivais para divulgação das obras e peças. Esses tipos de ações não fortalecem apenas uma pequena classe “coleguista”, como aposta nos chamados artistas emergentes que estão produzindo sem o auxílio do estado e sem uma visão da arte como espetáculo.
Semana passada junto com uma companheira do grupo poéticas digitais da Usp, que está por aqui no doutorado sanduíche, apresentamos o projeto Rua-redando-Errabundeio, baseado numa prática desenvolvida pelos situacionistas, relacionamos os espaços públicos, com a rua; o privado, com a sala de exposição; e o “virtual” (que estamos discutindo se devemos chamá-lo disso mesmo) com a web, criando uma conexão entre os três, para obter uma expansão e construir um novo espaço.
Confesso, que pra conseguir os recursos no Brasil para desenvolver a obra seria um parto, não pelo custo, que é baixo, mas, pela idéia como ação artística. Por aqui existe uma explosão de galerias e espaços de produção e difusão de arte contemporânea, que são diferentes dos que conheci por aí, com sua chiqueza, vinho tinto e pinturas, pinturas e mais pinturas. A desglamuralização da arte nesse momento, por aqui, aproxima as pessoas para conhecer, compreender e realizar obras contestativas, políticas, sociais e reivindicativas de vídeo arte, arte sonora, instalação e esculturas. Isso é muito “massa”, porque tira o medo do espectador e manda a arrogância embora, além de possibilitar espaços para exposição, discussão e produção de obras dos artistas emergentes.
Voltando lá pro Rua-redando-Errabundeio, propusemos utilizar nossos telefones para conectar e expandir os espaços. Esse trabalho surgiu curiosamente pela nossa necessidade de estar na rua sem medo, de poder percorrê-la despreocupadamente percebendo cada detalhe, cada som e cada pessoa que passa. Ao contrário do que a nossa indústria do medo diz, não são prédios gradeados que diminuem a violência, negar o espaço público como legítimo para a participação popular é o que gera violência.
As imagens capturadas no percurso vão para a web via streaming, e são projetadas no espaço privado (galeria, museu, media labs, salas). De maneira irônica, a rua, esse espaço que pertence a todos ganha outro estatus quando é projetada na sala de exposição como algo distante, inalcançável, uma peça monocanal para galeria. O sonho dos verticalistas, a rua chegando pela web, que chique! Essas imagens e sons capturados passam por um computador e, através de um soft livre, é transformada em tempo real mostrando a influência e decisão das pessoas em transformarem a paisagem urbana, modificando suas cores, texturas e sons.
Com outro telefone enviamos esta imagem à Web, fechando o ciclo do público, privado e “virtual”. No espaço expositivo são duas as projeções a rua que chega por streaming e a segunda que é a capturada e modificada também em tempo real. Nossa proposta busca o reconhecimento da paisagem, a necessidade de percebê-la e o impacto causado pela ganância da transformação constante das paisagens cotidianas. O queremos, como bem falou o professor Luiz Amorim no documentário “Velho Recife Novo”, é reconhecer a cidade historicamente construída e simbolicamente percebida para denunciar suas transformações, evocando e exigindo a rua como espaço para a população.
Alguns festivais de arte independente
http://www.incubarte.org/
http://tuberlinpormivalencia.blogspot.com.es/
Web da ação comentada no texto
http://rua-redando-errabundeio.tumblr.com/
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10
DECO NASCIMENTO é olindense, artista sonoro, mestre em artes visuais e multimídia
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