Vamos, filho?!?

Publicado em 27/04/2012, às 17h20 | Atualizado em 22/07/2014, às 03h20

Por Guilherme Lima Moura

Dia desses, fiquei encantado com uma cena que presenciei. Estavam próximos a mim um homem e sua noiva, uma jovem viúva, mãe de um menino que também estava com eles, e cujo pai já há alguns anos falecera. A certa altura, o homem referiu-se à criança chamando-a assim: “Vamos, filho?!”. E ele foi. Emocionei-me. Enquanto os três saíam do recinto com a naturalidade típica das famílias, um filme passava em minha mente. Lembrei-me daquele jovem que havia partido. Circunstâncias da vida privaram-lhe de se manter pai daquele pequeno garoto, na época ainda um bebê.

Naquele momento, na condição de testemunha silenciosa de uma cena que mal durou alguns segundos, enchi minha alma de gratidão a Deus pela adoção. Bendita seja a escolha que cabe a cada um de nós de sermos ou não bem-aventurados. De segurarmos as rédeas do nosso futuro e assumirmos a autoria da nossa própria felicidade. Agradeci. Agradeci e pensei em quão maravilhoso é perceber que é tão somente na convivência afetiva que construímos nossa parentalidade!

“Vamos, filho?!”

Pensei em quão maravilhosa é a adoção. “Homem” e “criança” são conceitos absolutos: existem em si mesmos. “Pais” e “filhos” são conceitos relativos: um só existe por causa e a partir do outro. Ninguém pode ser pai ou mãe sem a existência de um filho ou filha e vice-versa.

Por isso, não é possível adotarmos crianças. Adotamos filhos. Porque é na adoção que pais e filhos se realizam, ou seja, passam a existir um por causa do outro. Como diz a médica e psicanalista francesa Francoise Dolto, “o ser humano, fisicamente, é um mamífero; e, psiquicamente, é um ser de filiação linguística e, portanto, de adoção”.

Lembrei de quantos arrastam por aí a frustração de uma paternidade ou maternidade não realizada por suporem que só pela gestação podem se tornar pais ou mães. Que tolice! Até quando acharão que a filiação se estabelece na herança genética? Quantos mais exemplos de desamor precisarão ainda testemunhar em meio aos laços da consanguinidade?

Não é possível adotarmos crianças. Adotamos filhos. Porque é na adoção que pais e filhos se realizam, ou seja, passam a existir um por causa do outro.

Há quem diga “Não posso ser mãe”, “Não posso ser pai”. Errado! Talvez não possa engravidar. Mas pode ser mãe ou pai, sim! Basta querer e ter disponibilidade para amar. Até porque se engravidar e não tiver amor, também não será mãe nem pai. Como já dissemos, a gestação é apenas um ponto de partida: nem imprescindível, nem suficiente. A filiação é a aceitação recíproca a um convite de profunda amorosidade.

“Vamos, filho?!”, continuava a frase em minha mente. Que coisa tão simples e linda! No convite amoroso, o exemplo singelo do fazer-se pai. Na aquiescência espontânea do menino, o fazer-se filho. Convite aceito, adoção realizada. Simples assim.

Depois daquela cena, ao chegar em casa senti-me ainda mais feliz por estar com minha família, estabelecida totalmente através da adoção, desde a adoção que minha esposa e eu realizamos um com o outro.

Lembrei-me novamente do jovem pai que se fora tão cedo. No silêncio da minha emoção, desejei que ele estivesse em paz. E entendi que se eu estivesse em seu lugar, boa parte da paz que eu poderia ter certamente adviria do fato de meus filhos serem amados.

“Vamos, filho?! Vamos, pai!”

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE:

Atitude adotiva Guilherme Lima Moura é pai adotivo, integrante do Gead (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife) e professor da UFPE. glmoura@gmail.com

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