Atitude adotiva

Designações

Publicado em 11/10/2016, às 17h24 | Atualizado em 11/10/2016, às 20h42

Por Guilheme Lima Moura

Adoção não é adjetivo. Adoção é verbo! / Foto: Reprodução/Internet

Adoção não é adjetivo. Adoção é verbo! Foto: Reprodução/Internet

Há alguns anos a querida Renata Vitorino, valorosa trabalhadora que nos ladeia atualmente à frente do GEAD Recife, compartilhou conosco uma frase muito interessante, dita por uma irmã sua, e que até hoje nos inspira. A frase refere-se ao fato de o primeiro filho da nossa amiga (na época, o único) ter chegado àquela família através da adoção: “a gente sabe o tempo todo, mas não lembra nunca”.

A sentença tão simples é de uma sabedoria incrível. Nasceu da intuição daquela tia que, na construção de seu afeto na convivência com o sobrinho, percebeu de cara uma das grandes essências da filiação de verdade: um filho não é adotivo; ele foi adotado.

Adoção não é adjetivo. Adoção é verbo!

Há um sentido importante nesta distinção – que transcende meras tergiversações gramaticais, pelas quais poderíamos dizer que adoção é substantivo – e que surge de forma poética em “a gente sabe o tempo todo, mas não lembra nunca”.

Adoção é verbo porque é um fato biográfico, um aspecto da história dos pais e de seus filhos. Refere-se simplesmente à ação praticada, através da qual pais e filhos chegaram, em algum momento, aos braços uns dos outros. Como tal, é sabido. E, sendo bem compreendido, é naturalmente conversado. Não é segredo, muito menos tabu.

Adoção não é adjetivo porque não é uma marca distintiva do filho, nem dos pais. Não é um traço que defina quem quer que seja como sujeito em si. Não possui (a priori!) relevância como definição ou descrição. Como diz Suzana Schettini, “filho é filho”. Não cabem adjetivos adicionais aos substantivos filha e filho. Marília, Henrique, Ana Gleice e João Rafael são meus filhos e filhas. Ponto. E assim o é com Renata e Marconi, e com outros tantos incontáveis pais, mães, filhas e filhos.

Por que, então, referirmo-nos a alguém como filho ou filha adotiva? O que eu estou fazendo quando estou fazendo uso dessa informação na minha fala a respeito de alguém? Por que é cabível ressaltar esse dado no ato da referência a uma pessoa? Essas são questões fundamentais.

Como pragmaticista de formação acadêmica (e de carteirinha), entendo que o significado surge necessariamente no uso. Ele não está encapsulado em palavras ou em classes gramaticais. De maneira que o uso adjetivado (ou outro qualquer) pode ocorrer, sim, de maneira oportuna se o contexto assim o justificar.

Por exemplo, posso me dizer “pai adotivo” para explicar a alguém como me tornei pai, esclarecendo que a gestação não é um caminho inevitável para a paternidade. Posso fazê-lo para dizer a alguém: “Ei, você talvez não possa engravidar. Mas pode ser mãe sim!”.

Posso também dizer que alguém é “pai ou mãe de verdade”, para esclarecer que um pai e uma mãe só o são verdadeiramente se adotam a criança que, por este meio, torna-se sua filha ou filho, possuindo ou não entre eles algum laço biológico. Posso fazê-lo para alertar que a gravidez é apenas um ponto de partida: nem imprescindível, nem suficiente.

Posso ainda designar alguém como “genitor ou genitora” de um ser humano (porque o gestou), para distingui-lo do “pai ou mãe” que, ao adotar esse ser humano, tornou-o filho ou filha (porque estabeleceu com ele ou ela uma relação afetiva única e incomparável).

Posso fazê-lo para demonstrar que a verdadeira paternidade ou maternidade não está num registro de cartório ou numa pensão alimentícia. Tampouco está situada numa sopa genética multimilenar, na qual todos nós (humanos e não humanos) nos confundimos, em meio a uma ontogenia diluída na esteira do tempo, e que nos faz, enfim e de fato, integrantes de um grande rebanho orgânico. Ali residem provedores legais ou financeiros ou, ainda, provedores de genes. Os pais e mães, diferentemente, surgem da mais profunda expressão do amor: o cuidado.

Os praticantes destas designações promovem lucidez. Note bem o leitor como são libertadores essas distinções!

Um grave problema surge, porém, quando designações do tipo “filho adotivo” são usadas para tentar fazer diferenciações injustificáveis, do tipo “João é filho adotivo e não conhece sua verdadeira mãe”. Ou “Maria não é filha de verdade. Ela é filha de criação”. Ou, ainda, “Os irmãos de Maria são filhos de João, e Maria é filha adotiva de João”. Estas sentenças revelam a falsa ideia de que um filho que surge como tal através da adoção é um filho de segunda categoria. A designação aqui tem efeito segregatório, e até mesmo ilegal.

Ainda mais sério é quando alguém afirma – como vemos com frequência na mídia – algo como “João, que é filho adotivo, cometeu tal crime”. Ou “João foi assassinado por Maria, sua filha adotiva”. Em casos assim, o enunciado tem a intenção de associar o ato criminoso praticado por alguém, ao fato desse alguém ter sido adotado pelos seus pais. Tal sentença tenta fazer relação de causalidade falsa e, portanto, produtora de preconceito e de discriminação. Ora, quantos crimes surgem todos os dias praticados por pessoas que nada têm a ver com adoção?

Os praticantes dessas designações promovem preconceito e estimulam a ignorância. Mesmo diante dos fatos que insistem todos os dias em nos mostrar que pais e filhos só existem na adoção. Afinal, são tantas as ocorrências de abandono e violência praticados contra “o próprio filho”, surgidas todos os dias! Como sustentar que pai e mãe de verdade são aqueles que simplesmente geram outros seres humanos?

Os praticantes dessas designações maldosas não compreendem o que a irmã de Renata percebeu tão facilmente. Tampouco entendem a definição simples dada por Suzana. Em vez de “a gente sabe o tempo todo, mas não lembra nunca” e “filho é filho”, praticam um aforismo perverso que muito fala e nada sabe sobre adoção. Algo como “a gente não sabe nunca o que é, mas lembra o tempo todo”.

Designações e designações. Enquanto as que promovem maldade persistirem, precisaremos praticar as que promovem iluminação esclarecedora. Até o dia em que nenhuma designação será mais necessária. Porque filho é filho e a gente sabe disso o tempo todo.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Atitude adotiva Guilherme Lima Moura é pai adotivo, integrante do Gead (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife) e professor da UFPE. glmoura@gmail.com

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