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Pernambuco - 22.05.12 - Atualizado às 18h04

Aleatória

Isonor

Publicado em 17.05.2012, às 14h50



Por Ana Quitéria

Na noite de sábado era difícil dormir. Ficava embolando na cama, pensando no dia de amanhã. Domingo. Dia que termina bem e sempre acaba mal. Mas ainda era sábado. Sabia que no dia seguinte seria acordada relativamente cedo e lhe dariam café com leite e biscoitos. Depois enfiar-lhe-iam a roupa de banho. Um biquíni de, como se fosse para combinar com a música, bolinhas, mas que não era amarelo, era azul. Azul e branco, um fundo azul com bolinhas brancas, como se fosse para combinar com o céu.

Depois de recolher todos os apetrechos – balde, sacolas, lanches, garrafas de kisuco, cadeira e toalha – todos eles, eram muitos, seguiriam em romaria para o ponto do ônibus. Lá encontrariam outras romarias de vizinhos que faziam o mesmo movimento, como se fossem marés, de ida e volta. Todo domingo. No coletivo, iriam cantando os hits populares, acompanhando bem alto, como se fossem artistas, os compassos e letras ditados pelo radinho de pilha. Sorridentes e oleosos, sorririam como se não houvessem segundas-feiras nem câncer de pele.

Chegando ao ponto final, seria aquele mesmo aperreio para descer, cada um querendo chegar primeiro em seu lugar ao sol. Como se fossem uma manada, sairiam nas carreiras em direção à areia, onde passarão deliciosas horas. Como se fossem calangos, estender-se-iam ao sol, buscando sugar a força que vem daquela luz gratuita, daquela luz de Deus. Era sempre assim.

Amanhã sentiria aquela deliciosa sensação da areia debaixo dos pés. Mexeria os dedinhos, esfregando um no outro, sentiria os grãozinhos arranhando a pele. Como se fosse uma pequena tartaruga, seu instinto seria correr para o mar, o que tentaria fazer o mais rápido possível, tentando driblar aquelas mãos que a impediriam, querendo tirar-lhe a blusinha e o shortinho. Só de biquíni, correia sorrindo para a imensidão verde e molhada e ali, na beirinha, encheria os fundilhos de areia, enquanto construiria os seus castelos efêmeros. 

O dia passaria voando, com gosto de picolé de uva, raspa-raspa de groselha, morango e coco, amendoim torrado e "cozinhado". Também comeria os lanches de dentro do isonor que veio de casa, com galeto, danone, carambolas, bananas e sanduíche de bolacha maria com goiabada. As mulheres besuntar-se-iam de água oxigenada e ainda mais óleo, que comprariam aos homens que vendem as coisas em pedaços de pau. As crianças chorariam por boias, pipas e algodões-doces daqueles que vinham em sacos plásticos, de onde só queriam as bolas de encher.

Homens e mulheres tomariam as cachaças que vinham da usina, em garrafas de vidro, tampadas com rolhas de cana-de-açúcar secas. Comeriam caranguejos vermelhos e taludos, quebrando as patolas no dentes, como se fossem bichos, como se não fossem próteses. 

Na volta estariam todos calados, como se fossem mudos, como se fossem tristes. A pele, carne vermelha queimada do sol, já não gostaria tanto da sensação causada pela areia. Não cantariam mais músicas, não sorriam mais tanto. Já haveria amanhã, já haveria segunda.  Já ela, voltaria dormindo, pois ainda era santa.

Sobre o título desta coluna: Antes de bicicleta ser bike e biliro ser grampo de cabelo, em algumas localidades do Nordeste do Brasil, o Isopor (poliestireno expandido) era chamado de Isonor. Se não me engano, por causa de uma empresa que produzia este material.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

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ANA QUITÉRIA é jornalista, cineasta e escreve às quintas. anaquim@gmail.com e no twitter: @anaquim



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