
Na testa, perfeita mente colada nos ossos. Poucas rugas, só as bochechas, antes cheinhas e fofinhas, caíram com a ação da gravidade. Cruza de jacaré com cobra dágua, é morena, mas tem sardas, desde criança. Pontos, grande e pequenos que fizeram o inferno de sua adolescência, mas dos quais, hoje, nem lembra mais. Foi em criança que marcou o couro cabeludo com pequenas e muitas cicatrizes, numa queda de cabeça por cima de um engradado de garrafas de leite. Passando a mão por cima dos cabelos, pode-se sentir o relevo.
O lóbulo de sua orelha, nunca perfurado para brincos, é molinho e frio, também com umas sardinhas. Na base do nariz, uns cravinhos, que vivem tranquilos, já que ela não liga mesmo.
A pele dela é toda macia, com tez aveludada. Um veludo grosso, macio, sedoso, que cai pesado, em alguns locais, formando dobras. Existem pespontos e rebites também, como nos cotovelos e nos joelhos. A bolota do cotovelo segura o couro no osso, enquanto gordurinhas gostosas de pegar ficam meio soltas desde o ombro. Um pedacinho de pele cai por cima do rebite. Bom de apertar.
Nos seios, mais cicatrizes, crias de um médico pouco hábil, mas com boas intenções de tirar dali grandes males. Na barriga, mais cicatrizes. Vesícula, cesárea. Nádegas grandes, lisas e macias, sem celulite ou estrias. Pernas roliças, igualmente lisas e macias, com poucas veias aparentes. Os pés sim, castigados por muito trabalho, calcanhares grossos, dedos meio retorcidos por sapatos inclementes e horas de pé, andando ou correndo em corredores brancos sem fim. A pele dela. A linda pele dela.
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10
ANA QUITÉRIA é jornalista, cineasta e escreve às quintas. anaquim@gmail.com e no twitter: @anaquim
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