Aleatória

A liberdade é azul

Publicado em 18/07/2014, às 10h35 | Atualizado em 22/07/2014, às 16h16

Por Ana Quitéria

No meio do banho, sentiu os cabelos molhados nas costas e teve uma epifania: não precisava daquele peso / Foto: reprodução do Instagram da atriz Nanda Costa

No meio do banho, sentiu os cabelos molhados nas costas e teve uma epifania: não precisava daquele peso Foto: reprodução do Instagram da atriz Nanda Costa

Betina acordou cedo, comeu seu mamão papaya e foi para academia. Exercitou os glúteos e pernas, o que mais odiava. Voltou suada, cansada e pensando o que pensava sempre naquele momento: porque se submetia àquilo? Resignada, continuou em frente. Chegou em casa, beijou o marido, que já estava com uma xícara de café na mão, e entrou no banheiro, para tomar um banho e sair correndo para o trabalho.

No meio do banho, enquanto se esfregava forte com sua esponja de cerdas naturais, sentiu os cabelos molhados nas costas e teve uma epifania. Não precisava daquele peso. Enxaguou o corpo e logo depois que toda a espuma desceu pelo ralo, abriu a gavetinha do armarinho da pia e tateou até encontrar um aparelho de barbear novo em folha.

A lâmina estava afiada e a superfície mudava de cor de acordo com a luz, que entrava pela janelinha do banheiro, de onde saía o vapor da água muito-muito quente. Desligou o chuveiro e, delicadamente, começou a passar o aparelho no local onde os cabelos margeiam a testa. A testa foi crescendo e uma superfície azul e macia foi surgindo aos poucos, como um céu que se descortinava depois de uma tempestade.

Uma sensação de leveza tomava conta dela, como se pouca coisa mais importasse, a não ser o sentimento de liberdade Ana Quitéria


Uma sensação de leveza tomava conta dela, como se pouca coisa mais importasse, a não ser o sentimento de liberdade, de desprendimento, de desapego, de soltura de amarras. Era como se ela fosse parte integrante de uma verdade que poucos sabiam, mas todos deveriam alcançar. Sorrindo saiu do banheiro nua, pois nem tocara na toalha, para que ela não levasse aquilo tudo de dentro dela.

A empregada deixou cair a xícara que acabara de recolher das mãos do patrão.

O marido não disse palavra, apenas manteve o queixo solto no ar, abobado.

Betina sorriu ainda mais e foi vestir-se.

 

 

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Aleatória Ana Quitéria é jornalista, cineasta e escreve às quintas. anaquim@gmail.com e no twitter: @anaquim

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