NE10
Pernambuco - 17.04.14 - Atualizado às 00h49

Aleatória

As patinhas da varejeira

Publicado em 20.03.2014, às 10h26


Jogou o vinho fora. Lavou a taça. Abriu outra garrafa. Nenhuma varejeira a faria chorar
Jogou o vinho fora. Lavou a taça. Abriu outra garrafa. Nenhuma varejeira a faria chorar
Foto: divulgação

Por Ana Quitéria

A mosca varejeira esfregava as patinhas como quem aguarda um jantar delicioso. Bem na borda da taça. Olhar pra ela dava um misto de nojo e saudade. As varejeiras são assim, coitadas, causam nojo apesar de suas cores tão bonitas e metálicas, que mudam serelepes com a luz. Furta cor.

Mas sempre se lembrava do pai quando via uma varejeira. Não que o pai parecesse uma mosca. Nem era furta cor. Tampouco era imundo. Foi só uma ocasião, quando ele ainda era pai dela, e viu que uma mosca daquelas tinha pousado bem em cima do brigadeiro que ela tinha deixado para esfriar na sacada.

Chorou muito pelo brigadeiro estragado. Queria comê-lo assim mesmo. Não chorou quando o pai foi embora. Ao contrário da varejeira, que pousou de supetão no brigadeiro, o pai a abandonou de fininho, em doses homeopáticas. Na hora, nem sentiu. Primeiro deixou de ir almoçar em casa. O que foi um alívio por ela não ter mais que lavar os pratos dele.

Depois começou a chegar muito-muito tarde, como se não quisesse vê-la. Também foi um alívio, já que não ia precisar esquentar o jantar para ele. Mesmo quando estava acordada, corria para a cama e fingia dormir quando ouvia o Fusca barulhento adentrar pela garagem. Conversar não era mais uma opção. Assim como comer aqueles brigadeiros.

Pensou isso enquanto uma mosca esfregava as patinhas. Antes de ela voar pra infectar outra borda de copo. Impressionou-se com quantas lembranças cabem no esfregar de patas de uma mosca. Jogou o vinho fora. Lavou a taça. Abriu outra garrafa. Nenhuma varejeira a faria chorar. 

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Compartilhe essa notícia

DIGG NEWSVINE STUMBLE WINDOWS LIVE GOOGLE FACEBOOK MYSPACE


Comente esta matéria


Cadastre-se! Esqueceu a senha? O comentário é de total responsabilidade do internauta que o inseriu. O NE10 reserva-se o direito de não publicar mensagens com palavras de baixo calão, publicidade, calúnia, injúria, difamação ou qualquer conduta que possa ser considerada criminosa. Para participar, é preciso ser cadastrado no Portal.

Publicidade

Perfil

ANA QUITÉRIA é jornalista, cineasta e escreve às quintas. anaquim@gmail.com e no twitter: @anaquim



especial

O largo, o povo e a bola

O largo, o povo e a bola

A saga de paixão do Santa Cruz faz 100 anos em 3 de fevereiro de 2014

Sistema Jornal do Commercio de Comunicação
© Copyright © 1997-2014, SJCC - Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - Recife - PE - Brasil
Grupo JCPM