
Entrar em uma universidade pública é o sonho de muitos brasileiros. Mas o número de vagas oferecidas é inversamente proporcional a esse desejo. Em Pernambuco, no último Vestibular das Universidades Federais (UFPE, UFRPE e Univasf), o mais concorrido do Estado, apenas 8.566 dos mais de 52 mil feras alcançaram uma das vagas. Mesmo não tendo acesso às melhores escolas, alguns jovens conseguem chegar lá. Para ajudá-los, professores e estudantes das próprias universidades envolvem-se em cursinhos pré-vestibulares gratuitos. Nesses lugares, além de conhecimento, os alunos levam na bagagem a autoestima que precisavam para acreditar que é possível, sim, ter um diploma de curso superior.
Afastada há seis anos da sala de aula, Claudemice Correia do Nascimento, de 26 anos, decidiu que era o momento de passar no vestibular. "Concluí o ensino médio no ano 2000 e, em 2001 e 2003, fiz vestibular mas não passei. Depois desse tempo, só fiz trabalhar", contou Claudemice. Em 2007, resolveu se inscrever no Projeto Farol, cursinho pré-vestibular gratuito organizado pela Igreja Batista Comunitária do Jordão. "A motivação que recebíamos lá era até mais importante que o conteúdo", lembra Claudemice que, no mesmo ano, passou no curso de geografia da UFPE.
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Além das aulas do Farol, que funciona aos sábados, das 8h às 12h15, a jovem dividia seu tempo entre um outro cursinho pré-vestibular, que funciona em seu bairro (Jardim Jordão), pelo qual pagava R$ 20 por mês, e um emprego num centro de compras. "Era muito corrido. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Aos sábados, ainda tinham as aulas do Farol. Mas o esforço valeu a pena". No 3º período do curso, Claudemice estreia este ano como uma das voluntárias do Projeto Farol, que conta com 21 professores, todos voluntários. "Quero retribuir o apoio que recebi quando estava lá. Sei que o meu exemplo poderá motivar outros alunos, que têm uma história parecida com a minha", acredita.
Este é o 3º ano do projeto que, em 2009, irá oferecer 150 vagas. As inscrições acontecem neste sábado (28), na Igreja Batista Comunitária, localizada em Jordão de Baixo, Zona Sul do Recife. O coordenador do projeto, Deíllio Moreira de Souza, explica como nasceu o cursinho. "Fizemos uma pesquisa na comunidade e vimos que os jovens não tinham condições de entrar numa universidade pública porque simplesmente não tinham aula. Na época (2007), chegamos a identificar que uma das escolas não oferecia aula de biologia há pelo menos quatro meses".
No começo, membros da própria igreja abraçaram a causa. Hoje, a maioria do grupo é formada por professores e estudantes que admiram o trabalho realizado, que ainda conta com a ajuda da Organização Não Governamental MPC Recife. Além das aulas, os alunos têm acompanhamento psicológico. "Muitos chegam com problemas familiares, baixa autoestima, por isso contamos com a ajuda de três psicólogos e um assistente social", diz Deíllio.
As aulas funcionam em esquema de rodízio. A cada sábado, são três disciplinas. Os alunos se dividem em três salas. No intervalo, ainda recebem um lanche gratuito. A maioria das disciplinas conta com até três professores, mas algumas delas, como língua estrangeira, não tem profissional especializado. A professora de história Bianca Nogueira, que coordenada a equipe pedagógica, diz que a maior dificuldade está em encontrar docentes de espanhol. "Um professor de história que fala espanhol é quem dará as aulas", destacou.
Bianca destaca que a dificuldade não é encontrar voluntários, mas conseguir manter o aluno no cursinho. "Infelizmente ainda temos um alto índice de evasão. Começamos no ano passado com 130 alunos e terminamos apenas com 30. Muitos deixam de frequentar o curso porque precisam trabalhar, mas estamos estudando alternativas para acompanhá-los melhor e motivá-los a continuar", ressalta a professora.
Interessados poderão se inscrever no cursinho neste sábado (28), das 8h às 12h e das 14h às 18h
Local: Igreja Batista Comunitário, Rua Álvaro Ferraz, 350, Jordão de Baixo
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