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Pernambuco - 20.04.14 - Atualizado às 15h20

Turismo // ASTRO-REI

No Nordeste, pôr do sol é espetáculo para moradores e turistas

Publicado em 02.08.2012, às 18h17


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Em Salvador, a população se despede do sol com aplausos
Foto: Gustavo Maia/NE10/BA

Vanessa Silva|NE10/PB e Gustavo Maia | NE10/BA Colaboraram Debora Nascimento e Isabelle Figueirôa, do Recife

Independentemente do cenário, seja urbano, na praia ou no campo, quando o sol decide descansar e  tinge o céu de púrpura, amarelo e laranja, o ambiente se transforma. Considerado um dos fenômenos mais belos da natureza, o pôr do sol provoca em milhares de pessoas no mundo sensações de paz, tranquilidade e inspiração. Muitos apenas contemplam, outros aproveitam para agradecer e ainda existem aqueles que escolhem o momento para se declarar a um grande amor ou comemorar uma data especial.

Em pontos da Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, por exemplo, é comum encontrar pessoas aguardando o fim da tarde para saudar a grande estrela.  Alguns locais já transformaram o espetáculo gratuito da natureza em atrativo turístico e fonte de renda para artistas e comerciantes. O NE10 apresenta abaixo alguns dos crepúsculos mais famosos do Nordeste.

PARAÍBA

» Praia do Jacaré


Foto: Vanessa Silva/NE10/PB

Há mais de 20 anos, a Praia do Jacaré, na Paraíba, é ponto de encontro dos admiradores do astro-rei. Hoje, a prática de contemplar a hora em que o sol declina espalhou-se pelo Nordeste. Uma das peculiaridades do pôr do sol do Jacaré, como ficou conhecido o espetáculo paraibano, é o casamento perfeito entre os acordes do Bolero de Ravel, executado pelo saxofonista Jurandy Félix, e a hora do crepúsculo.

Quando o sol começa a recostar-se na margem do Rio Paraíba (sim, apesar de ter nome de praia, o local marca, na verdade, o encontro do rio com o mar), a composição do Francês Maurice Ravel começa a ecoar, como que dando ritmo à apresentação da natureza. Jurandy do Sax, codinome adotado pelo músico, desce em uma pequena canoa até o meio do rio. A última nota é tocada no momento exato em que o sol desaparece no horizonte.
 
Atraídas pela fama do local, pessoas de diversos lugares do mundo passam por lá todos os dias. Existem duas opções para assistir ao espetáculo. Nenhuma, porém, gratuita. Os bares e restaurantes fecharam o acesso à margem e costumam cobrar um couvert artístico de R$ 5, em média. Durante os meses de verão, é preciso chegar cedo para conseguir um bom lugar. Também é possível optar por ver todo o show dentro de catamarãs. Por cerca de R$ 20, os barcos oferecem um passeio pelo Rio Paraíba, com guias que falam sobre história, geografia, hidrografia e curiosidades locais.

As impressões do público são as mais variadas. Para a consultora de sistemas e paulista Margarete Santana, de 34 anos, o momento merece apenas um adjetivo: perfeito. "A harmonia entre o momento em que o sol se põe e a música é algo indescritível, é realmente perfeito. Não tem outra palavra pra descrever", disse. A paulista visitava pela primeira vez o local, acompanhada da amiga Miriam Pereira, também paulista, mas que há alguns anos mudou-se para a Paraíba. Miriam já assistiu o espetáculo inúmeras vezes, e acredita que a cada nova apresentação é possível viver uma sensação diferente. "A primeira vez que você vem fica muito preocupado em fazer registros do momento. Quando passa a ver de novo e prestar mais atenção, pode captar muitas outras coisas. Hoje, por exemplo, me entreguei mais à música e pude perceber o quanto ela é bem executada".
 
O músico que há 12 anos realiza a performance todas as tardes, sem exceção, diz que o momento, apesar de ter se tornado atrativo turístico e uma fonte de renda local, representa para ele um ritual. "Onde quer que eu esteja na hora do pôr do sol, sinto a necessidade de tocar o bolero, não sei explicar o porquê. É um momento mágico, espiritual. Minha relação com o sol foi se estreitando a um ponto de, em alguns momentos, eu já ter me confundido com ele ali no meio do rio", contou. Após mais de 4 mil execuções da música na Praia do Jacaré, Jurandy sequer precisa olhar para o horizonte ou mesmo um relógio para saber que é hora de começar ou encerrar o espetáculo. "Eu sinto quando é chegada a hora. É como um chamado", descreve.
 
TRAJETÓRIA - A história do lugar se mistura com a própria trajetória artística de Jurandy. Começou a estudar música aos 9 anos, no município de Livramento, Borborema paraibana. Lá foi onde nasceu e morou até a adolescência, quando se mudou para João Pessoa. Tocou em bandas de baile e orquestras. Em 1993, gravou o primeiro disco como saxofonista. O lançamento ocorreu justamento no restaurante Jacaré Bar, o primeiro a se instalar na Praia do Jacaré. Foi ali que, mesmo sem saber, começaria sua história com o “Bolero” de Ravel, o barquinho, o rio e o pôr-do-sol.
 
O bolero veio de um grupo de amigos que escutava a trilha sonora do filme "Retratos da Vida" no Bar do Jacaré. Involuntariamente, a música tocou bem no momento em que o sol se deitava. O grupo curtiu tanto o momento que chegou a repetir outras vezes, até que Jurandy chegou e passou a tocar, sozinho, todos os dias. "Lá pelo ano 2000, eu estava no píer observando o crepúsculo, quando tive um “insight”. Me vi dentro da água, tocando dali. Foi como uma mensagem. Ficou claro pra mim que eu iria tocar o “Bolero” de Ravel dentro do rio”. E assim concebeu-se o espetáculo da maneira como é conhecido até hoje.

PERNAMBUCO

» Fernando de Noronha


Foto: JC Imagem

O pôr do sol considerado mais bonito da Ilha de Fernando de Noronha pode ser visto do mirante do Forte de São Pedro, na praia do Boldró. Vários passeios que passam o dia explorando Noronha tem como ponto final o Forte, onde todos podem observar os últimos raios de sol do dia. Durante o verão, o sol se põe entre os morros Dois Irmãos, um dos cartões postais mais conhecidos da ilha. Para os turistas que visitam Fernando de Noronha nas outras estações do ano, o espetáculo não deixa a desejar. A medida que o sol vai descendo, o mar vai deixando de ser o azul típico que rodeia a ilha e ganhando uma tonalidade dourada.

Para turista Telma Maria do Nascimento Soares, que mora em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e que conferiu o pôr do sol de Noronha ao lado dos seus três filhos e do marido, "o momento mais bonito ocorre quando o sol aparenta tocar na água, colorindo a paisagem de dourado", disse.

BAHIA

» Salvador


Foto: Gustavo Maia/NE10/BA

"Você já viu uma coisa dessas em outro lugar do mundo?", perguntou ao repórter a turista mineira Suelen Silveira, 30 anos, sentada na areia da praia do Porto da Barra, em Salvador, Bahia. Instantes antes, ela presenciara um evento que, se para quem é de fora parece extraordinário, para os soteropolitanos já virou uma espécie de tradição.

Era final da tarde. O pôr do sol pintava o céu azulado com diferentes tons de laranja, vermelho e amarelo. Mas não foi apenas a beleza da natureza que impressionou Suelen. A cena poderia até mesmo ter passado despercebida aos seus olhos não fosse a reação das centenas de pessoas que estavam no local. Enquanto o sol desaparecia no horizonte, como se fosse engolido pelo mar, quem estava na areia aplaudia, assoviava e gritava, para o espanto da forasteira. "É realmente digno de bater palmas", resumiu.

O depoimento da funcionária pública, que veio de Itaúna (MG), ajuda a entender o efeito que a celebração ao pôr do sol pode ter nos neófitos. "Já tinha vindo para Salvador antes, mas para essa praia é a primeira vez. Eu estava aqui na areia sentada com minha família e de repente todo mundo começou a bater palmas. Não sabia o que estava acontecendo, olhei assustada e alguém falou que era para o pôr do sol. Aí que eu vi que realmente é lindo. Mas eu nunca tinha visto acontecer isso na minha vida. E olhe que já fui em várias praias do Brasil", disse a mulher, sob o olhar atento dos familiares.

O turista Fernando Justino, de férias na capital baiana, estava com a câmera à postos para registrar o fenômeno natural, geralmente despercebido por ele em São Paulo, onde mora. "Eu vi todo mundo batendo palma e não sabia o motivo. Até procurei alguém fazendo aniversário, mas depois percebi que era toda a praia e notei que o aplauso era pela natureza. É uma festa muito bonita", relatou Justino.

Não se sabe ao certo quando esta tradição se iniciou. Há oito anos trabalhando na praia, o vendedor ambulante Arnaldo Santos lembra que as palmas começaram espontaneamente e acabaram virando um hábito comum a todos os frequentadores. "Quando começou, exatamente, eu não sei, mas desde que eu comecei a vender aqui isso já existe", conta. O bombeiro salva-vidas Felipe Cabral cuida do mar do Porto da Barra há pouco menos de um ano e diz não lembrar um dia de sol em que a tradição tenha sido quebrada. "É bastante inusitado, mas aqui já virou uma coisa normal", completa.

FAROL - A apenas 800 metros da praia do Porto, outra atração turística de Salvador atrai amantes do pôr-do-sol. No gramado da colina que fica atrás do Farol da Barra, a vista é privilegiada. Diariamente, dezenas de pessoas vão ao local para admirar a despedida do sol e também costumam aplaudir. É comum encontrar rodas de violão ou casais em clima de lua-de-mel no fim da tarde.

RIO GRANDE DO NORTE

» Pipa



Foto: Tiago Silva/Especial para o NE10

Município onde se localiza o balneário da Praia da Pipa, Tibau do Sul, fica às margens da lagoa Guaraíras e tem um imperdível pôr do sol na Creperia Marinas, uma espécie de palafita que possibilita uma visão única do entardecer. Para embalar o espetáculo, temas do compositor italiano Antonio Vivaldi e do francês Maurice Ravel são tradição. O tempo que o sol leva para se pôr coincide com o tempo da ópera, cujo final é celebrado com uma salva de palmas dos visitantes.

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De: Almir- 03/08/2012 11:38

Quando os turistas do sul e sudeste vem passar as férias no nordeste (claro que não são todos) passam a respeitar os nordestino, mais basta voltar pra sua terra de origem que começa o preconceito denovo, bando de hipócritas.

De: Ari júnior- 02/08/2012 22:16

Boa matéria, parabéns! Sou do Recife e senti a falta na reportagem de vocês mostrarem também o põr do sol no campo e não apenas no litoral. Em Pernambuco uma ótima sugestão é o põr do sol nas montanhas de Bonito nas proximidades do hotel Rodeadouro. Lá os turistas v~em de pau de arara e esperam o astro rei se pôr com aplausos emocionados. Fica a dica.

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