
Abstrair dança contemporânea não é uma tarefa fácil. É desejável apreciar os movimentos dentro da proposta da transgressão da rigidez da dança clássica, de uma forma mais ambiciosa do que é vista na dança moderna. O bailarino expressa principalmente suas próprias emoções, ao invés de contar uma história tradicional com coreografia bem fluida e previsível. Também não há aquela preocupação em demonstrar leveza. Em 'Amour, Acide et Noix', espetáculo canadense que estreou em Recife no sábado (15), estas caracteristicas estão potencializadas.
Pela primeira vez nessa edição do 'Janeiro de Grandes Espetáculos', o Teatro Santa Isabel ficou lotado até o quarto andar. Era notável o grande interesse do público, que se esticava por cima do apoio dos camarotes para ver os quatro bailarinos, três rapazes e uma moça, completamente nus. O que se viu foram movimentos que pouco se assemelham a visão comum que as pessoas tem do que seja dança. Mais pareciam acrobacias e exercícios, como já foi dito.
Essa coreografia, ao som de Vivaldi e um ocasional metal softcore alemão, além do som de passarinhos piando em outro momento, insistia em se manter imprevisível. Um ritmo perceptível ajudaria a deixar o público mais confortável, porém o diretor Daniel Léveillé não faz concessões. A sincronia da dança com a música é bastante peculiar. Em dado momento pode parecer que é possível antecipar algum movimento, no entanto surge o inusitado, e depois o barulho (frequente) do impacto do corpo ao aterrisar no palco. A iluminação é básica, porém consegue os mais variados efeitos. O resultado é um tanto revolucionário.
Entre os temas mais notáveis a serem tratados, estão a solidão, a entrega, o erotismo e a libertação. A vantagem de enxergar o corpo dos bailarinos por completo é notar a respiração ofegante, a contração dos músculos definidos, o esforço humano, enfim. A cena em que o suor voa durante um giro é particularmente significativa. Alternando entre o carão e a dramaticidade, as expressões faciais também deixam claro que os bailarinos também são atores. Entre as formações apresentadas estão solos, duetos, trios e quartetos, numa sequencia inesperada. As pessoas em cena chegam a ficar em posições vulneráveis e sexualizáveis, o que tira o público de sua quase onipresente expressão blasé.
Ao final da apresentação, a plateia aplaudiu longamente, mas poucos se levantaram. Não ficou claro se expectativas foram frustradas, ou a supresa tinha sido muito forte, ou ainda, ficaram chateados por não entender de imediato. Quem sabe. Talvez tenha sido tudo isso e um pouco mais.
Ficha técnica: Direção e coreografia: Daniel Léveillé. Direção técnica: Armando Gomez Rubio. Iluminação: Marc Parent. Elenco: Esther Gaudette, Emmanuel Proulx, Mathieu Campeau e Justin Gionet.
