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Pernambuco - 21.05.12 - Atualizado às 16h17

20 anos

Cazuza é objeto de estudo em pesquisa acadêmica

Publicado em 06.07.2010, às 20h57

Fabianna Freire Pepeu fpepeu@jc.com.br
Cazuza morreu há exatos 20 anos
Cazuza morreu há exatos 20 anos
Foto: Divulgação

A admiração pela música e poesia de Cazuza e a sua coragem de assumir publicamente que era portador do vírus HIV levaram a universitária Tatiana Notaro a escolher o ex-cantor do Barão Vermelho para personagem do seu trabalho de conclusão de curso, a partir de uma histórica reportagem sobre a doença do artista publicada na revista Veja. O impacto causado por Cazuza repercutiu tão forte em Tatiana que ela chegou a fazer uma tatuagem em homenagem ao ídolo, morto há exatos 20 anos.

JC - Como surgiu essa idolatria por Cazuza já que você era uma garotinha quando ele morreu?

TATIANA NOTARO - Eu não chamo de “idolatria” porque isso implicaria dizer que o tenho como um ídolo, óbvio, o que não é verdade. Cazuza, pra mim, é, antes de tudo, um interessante e rico objeto de pesquisa. Claro que posso me encaixar como fã, como apreciadora da música que ele produziu, mas “idolatria” soa como uma paixão, que é meio irracional, e não é o caso.

Meu pai sempre ouviu Cazuza e, quando eu era criança, achava que o Cazuza “novo” (saudável, de cabelos cacheados) era um e o “velho” (esquálido, de cabelos ralos) era outro. Não sei quando desfiz essa imagem, mas “descobri” Cazuza em 2001, quando comecei a estudar jornalismo na Católica e encontrei na biblioteca “Cazuza – só as mães são felizes”, a biografia dele, de autoria de Lucinha Araujo (mãe dele), escrita pela jornalista Regina Echeverria. Só três anos depois veio o filme (que eu acho meio decepcionante enquanto biografia).

Depois, estava fazendo uma pesquisa na Veja e achei o ranking que a revista publica com as “10 matérias mais comentadas” e no meio estava “A luta em público contra a Aids”, onde os jornalistas traçaram o calvário do Cazuza aidético. A matéria, em si, já dá um debate grande sobre ética, mas quando juntei a ela o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e a análise de discurso, virou uma monografia. Construí um acervo interessante de informações sobre ele.

JC - Você ainda escuta as músicas dele?

TATIANA NOTARO  - Eu tenho todos os álbuns que ele lançou nas duas fases da carreira, com o Barão Vermelho e solo, e ainda o póstumo “Por aí”. Na época do processo da mono, eu escutava todo dia, mas hoje, apenas eventualmente. O primeiro deles, o “Barão Vermelho”, de 1982, é muito bom, um dos meus preferidos. Acho que o melhor da fase. Gosto muito do “Só se for a dois” (segundo solo) e do gravado ao vivo. O póstumo é fraco (foi feito com as faixas que não entraram em “Burguesia”).

Aliás, há um ponto aqui que talvez possa separar os meus vieses de “fã” e de “pesquisadora”. Como fã, eu acho Cazuza uma criatura ímpar, mas por ser pesquisadora, consigo analisar as origens de alguns comportamentos e alguns fatos que serviram de bases para músicas que ele produziu. Ele não era um simples “playboy drogado e bissexual”, como já ouvi muita gente falar. Cazuza é um compositor de referência no rock nacional e um dos mais significativos (ao lado, talvez, de Raul Seixas e Renato Russo, cada um no seu espaço) da MPB. Isso não sou eu quem fala, mas nomes como Caetano, Gil, Rita Lee e Chico Buarque.

O que gosto nele são os extremos, por que foi capaz de produzir grandes composições e outras músicas as quais rotulo como totalmente dispensáveis.Músicas ruins mesmo. Entende a diferença? Com as análises que faço, consigo ser crítica e não achar tudo bom, simplesmente por que foi ele quem fez.

JC - Que aspectos da vida dele foram mais tocantes para você?

TATIANA NOTARO - Quando se fala de Cazuza, é muito difícil fugir da aids, mas eu vou começar falando da sua fase anterior. Em todos os relatos, é muito comum ouvir os amigos narrarem uma pessoa verdadeiramente apaixonante. Lembro que quando produzimos a matéria pelos 50 anos de nascimento dele, em 2007, aí no JC, entrevistei Sandra de Sá. Foi muito comovente e ela chegou a chorar ao telefone (Cazuza é padrinho do filho de Sandra, Jorge). Ezequiel Neves (produtor e amigo) disse-me que Cazuza é a ausência mais presente na vida dele. Ele ainda é muito vivo nessas pessoas. Claro que aí há aquele simbolismo da morte, quando os defeitos são atenuados, mas estou querendo falar do aspecto humano que ele deixou àqueles que conviveram com ele. E ele é muito contagiante. O legado de fãs pós filme retrata bem isso. Essa lembrança acaba sendo, invariavelmente, o que sobra de cada um de nós quando morremos.

E voltando à aids, não podemos esquecer que foi um ato de coragem assumir a doença naquela época. Até hoje, a aids é um tabu, imagine na década de 80. Então, quando ele assumiu pra Zeca Camargo (em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo) que tinha aids, deu um caminho diferente à história da doença no Brasil. Ele poderia ser outro Lauro Corona, que morreu sem assumir que era soropositivo. A justificativa que ele deu aos pais para a confissão resume tudo: “Não posso cantar ‘Brasil, mostra a tua cara’ e continuar escondendo minha condição”. Pra mim, é totalmente coerente.

JC - Na sua opinião, a música dele continua atual?

TATIANA NOTARO - Cazuza é atualíssimo. Olha, muitas composições dele são bem ligadas ao momento em que ele vivia. A primeira fase tem temas bem adolescentes, aquelas coisas de amores mal resolvidos. Isso não deixa de ser atual, né? Desencontros amorosos serão sempre atuais: “Foi você quem quis ir embora/ Agora volta arrependida e chora” – entende?

Agora, se a gente for falar de atualidade mesmo, vamos pegar “Brasil” como exemplo. Essa música é de 89. São mais de 20 anos. Eu fico meio em dúvida se estamos falando de um poeta à frente de seu tempo ou de um país estacionado no erro de sempre. “Ideologia” também é muito atual quando fala “meus heróis morreram de overdose/ meus inimigos estão no poder/ Ideologia, eu quero uma pra viver”, pq eu acho que estamos muito sem referência hoje. Vivemos de heróis mortos, né? Gente que fez história, mas que não está mais aqui. Então me pergunto quem é que faz história hoje.

JC - Seu trabalho na universidade era sobre ética no jornalismo, mas você terminou por dedicar um capítulo inteiro sobre Cazuza. Por que fez este recorte?

TATIANA NOTARO - Fiz uma análise de discurso sobre a matéria da Veja, baseada no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Quero deixar claro que o interesse primordial foi o estudo do código, então não digo que a monografia é sobre Cazuza, porque não é. Eu fiz um capítulo sobre ele, mas para situar o leitor no contexto histórico da aids na vida dele. Na verdade, é um trabalho que analisa a ética da mídia na publicização do fenômeno da aids.

Quando foi contaminado, Cazuza não era mais o burguês da Zona Sul do Rio de Janeiro, já era o cantor nacionalmente conhecido. Foi uma chance desperdiçada pela Veja, que poderia ter feito uma matéria bem informativa e acabou puxando só o sensacionalismo. A matéria tem oito páginas e nenhuma linha com informações sobre a doença. Daí você avalia.

Acho que um ponto importante da pesquisa foi atrelar os registros (jornais, revistas) com relatos. Então entrevistei a mãe dele e outras pessoas próximas para saber sobre as repercussões do caso da Veja (Maurício Barros, tecladista do Barão, Lobão, Gilda Mattoso). E tudo isso me ajudou a construir uma análise justa do material, porque, por exemplo, Lucinha me contou que a Veja não inventou as informações. Tudo o que foi publicado foi realmente dito por Cazuza. Avalio, então, a forma como foi publicada.

JC - O que você mais gostava nele?

TATIANA NOTARO - O filme (“Cazuza – o tempo não pára”) mostra um Cazuza doido o tempo todo, bêbado o tempo todo. E, como me disse Lucinha Araujo na entrevista, “ninguém é uma coisa só”. Estou dizendo isso para responder à sua pergunta: estudando a obra de Cazuza, percebi que ele é muito mais que aquilo.

O melhor de Cazuza é ter sido muito sincero e prático. Ele meteu os pés pelas mãos muitas vezes por isso, fez muita coisa que a maioria acharia errado, mas fez e assumiu. Acho que se assumir como ele fez é uma coisa muito difícil. Ele assumiu todas as escolhas. Veja: quando descobriu que tinha Aids, ele tinha 29 anos. Naquele tempo, mais do que hoje, isso era uma sentença de morte sem volta, uma condenação. Ele se tratou, mas a escolha maior dele foi de viver o máximo que podia. E nesses dois anos de doença, ele produziu muito, bebeu muito e falou o que veio à cabeça. Lobão define bem isso quando fala que “é melhor viver dez anos a mil que mil anos a dez”.

Elis Regina, por exemplo, morreu de overdose, e dificilmente você vê alguém referindo-se a ela como uma drogada. A vida de Cazuza era muito pública e isso sempre dá margem para rótulos.

JC - E por que você resolveu fazer uma tatuagem homenageando Cazuza?

TATIANA NOTARO - Eu tatuei a frase “o tempo não para” no pé esquerdo. Representa muita coisa. Além de ser a frase escrita no túmulo dele (no cemitério São João Batista), no Rio, me remete ao meu projeto. Eu queria fazê-lo evitando o apelo emocional de fã e fui até o cemitério para conhecer o túmulo e ter a ideia de “objetividade” que precisava. Ali, além de ser o túmulo de Cazuza, é o túmulo de um aidético, o primeiro que o Brasil conheceu de fato. Isso foi o grande cerne da minha pesquisa e justamente o que a Veja esqueceu quando escreveu na capa daquela edição de 89 “Cazuza – uma vítima da aids agoniza em praça pública”.

A pesquisa foi muito importante pra mim, porque foi um grande projeto finalizado com o formato que eu idealizei. Esse é o principal motivo da tatuagem.

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