
“Vendíamos café solto, café moído, fiambre e tínhamos todo o tipo de máquina. Até uma registradora, que poucas empresas possuíam. Hoje em dia, não existe mais isso. Tudo foi substituído por computadores.” O depoimento da argentina Lida Charles, 80 anos, sobre o armazém no qual trabalhou durante toda a vida, é um entre vários outros do projeto Memoro – o banco da memória. Espécie de YouTube da terceira idade, o site tem a proposta de criar um banco de dados audiovisual com relatos de pessoas nascidas antes de 1940. O objetivo é formar uma ponte entre um passado não tão distante e as novas gerações.
Nascida na Itália, a ideia foi concebida em 2007 por quatro amigos: Franco Nicola, Lorenzo Fenoglio, Valentina Vaio e Luca Novarino. De três anos para cá, França, Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos e, mais recentemente, Argentina, filiaram-se à iniciativa.
“A ideia é recopilar, selecionar e distribuir as histórias, para que elas não desapareçam. Aquela foi uma geração de muitas transformações sociais, e estabelecer uma lógica digital para contá-las é um grande desafio”, diz o jornalista e responsável pelo Memoro Argentina, Juan Mascardi, admitindo que “é um projeto desestruturado e horizontal”. “O grande valor agregado é o olhar particular fornecido pelo conjunto de histórias, fatos que devem ser arquivados, pois vivemos uma geração esquecida”, diz.
Funcionando como uma associação sem fins lucrativos, o projeto sobrevive de doações e páginas especiais, nas quais empresas, administrações públicas e organizações locais podem contar sua história e estratégias de responsabilidade social. O site também tem espaço exclusivo para banners.
O dinheiro é usado para pagar o trabalho das pessoas envolvidas, criar iniciativas locais e dar suporte ao desenvolvimento do programa em âmbito internacional. “No meu caso, ainda estou em processo de elaboração do projeto, pois só agora estamos lançando-o formalmente. Ainda não existe retorno financeiro, mas no caso de outros países a plataforma Memoro já salvaguarda a memória de instituições e empresas”, explica Juan Mascardi.
Exemplo disso é a sociedade entre o Memoro España e o Taller de la Memoria do Instituto Nepp, de Barcelona. A oficina catalã realiza trabalhos especializados com idosos, estimulando-os na manutenção de funções cognitivas, como memória e linguagem. O resultado desse apoio bilateral pode ser observado nos vídeos, que conseguem resgatar a identidade das pessoas através do discurso falado.
O site já registra cerca de um milhão de visitas e mais de 63 horas de depoimentos. A rede internacional conta com redações ativas na cidade espanhola de Barcelona, nas norte-americanas Denver e Los Angeles, em Mónaco di Baviera, na Alemanha, e ainda em Londres e Buenos Aires. Além de alimentar o site com conteúdo audiovisual, os parceiros são responsáveis pelas atualizações de um blog sobre o projeto.
O Brasil ainda não conta com representação oficial do Banco da Memória, mas a iniciativa está aberta a interessados. Alguém se habilita?
www.memoro.org
