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Pernambuco - 23.04.14 - Atualizado às 16h28

Nordeste // Descoberta

Canoas indígenas que estavam submersas em lagoa no RN são encontradas por pescador

Publicado em 18.04.2013, às 19h01


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As embarcações foram achadas na lagoa de Extremoz, na Grande Natal, pelo pescador aposentado Pedro Luiz, de 69 anos.
Foto:Canindé Santos/Especial para o NE10 RN

Kívia Soares Do NE10/Rio Grande do Norte

Desde os sete anos Seu Pedro Luiz da Silva, hoje com 69, já pescava com o pai na lagoa de Extremoz, cidade da Região Metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte. O então menino, que se tornou pescador, só não imaginava que naquelas águas onde brincava na infância havia relíquias que resgatam a história do estado onde mora: cinco canoas com características indígenas, a maior delas com cerca de 4,5 metros.

Pedro Luiz conta que as três últimas canoas foram descobertas em março deste ano e estão expostas na Fundação de Cultura Aldeia do Guajiru, da Prefeitura Municipal de Extremoz. “Para retirar essas canoas foi difícil, pois o material estava muito encravado na lama seca da lagoa”, diz.

Já os primeiros achados, no ano de 2009, Seu Pedro doou para o Museu Câmara Cascudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).  “Eu encontrei as duas durante uma pescaria de mergulho. Não tirei da lagoa assim que achei, mas marquei o local e voltei lá para pegar”, acrescenta.


Momento em que as canoas foram retiradas da lagoa (Fotos: Canindé Santos)

O pescador revela que gostaria mesmo que as embarcações estivessem na cidade onde mora.“Era melhor que elas estivessem em Extremoz, mas naquela época ninguém deu interesse, e se eu deixasse aqui iriam se acabar, por isso mandei que levassem”, lamenta. Ele faz questão, inclusive, de mostrar um documento que comprova os achados históricos encontrados em baixo d'água e doados ao museu em Natal.

Seu Pedro hoje está aposentado do ofício, mas fala que descobriu as canoas por gostar muito de ir na lagoa e lembra também da infância, quando brincava no local. “No tempo de menino nunca vi essas canoas, eu brincava sempre na lagoa de Extremoz e nunca imaginei que elas estavam lá. Era peixe da lagoa e até hoje ainda sou”, diz sorrindo.

O senhor de 69 anos se orgulha de ter descoberto vestígios indígenas em Extremoz. “Me sinto muito feliz de ter encontrado e acho muito importante”, ressalta.  Pedro Luiz conta que também já encontrou imagens de santos durante as pescarias e garante que debaixo daquelas águas existe outra canoa de índios submersa. “Esses dias voltei lá para encontrar. Estou sempre indo em busca dela, mas perdi o local”, comenta.


Pedro Luiz da Silva diz se orgulhar dos achados na lagoa e afirma ainda existir outra canoa submersa por lá.
(Foto: Canindé Santos)

O fotógrafo Canindé Santos, que também mora em Extremoz, foi o responsável por registrar todas as descobertas que ficaram durante anos submersas na água. Segundo ele, através de Seu Pedro, chegou até os resquícios históricos. Santos destaca que a cidade tem muita história que precisa ser resgatada. Para ele é uma forma de manter viva a memória de Extremoz.

“Tivemos que retirar as canoas de lá para proteger enquanto os órgãos responsáveis tomem as providências necessárias. Muitas pessoas estavam retirando pedaços e levando para casa.Já achamos também louças portuguesas tempos atrás na localidade da Aldeia do Grajiru, que hoje também estão no museu da UFRN”, afirma.


O fotográfo que registrou as descobertas cobra mais atenção do poder público para o sítio histórico de Extremoz. (Foto: Kívia Soares/NE10 RN)

ANÁLISES TÉCNICAS - As embarcações que foram retiradas da Lagoa de Extremoz vão passar por análises técnicas no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). De acordo com o superintendente do órgão no RN, Onésimo Jerônimo Santos, uma vistoria foi realizada na última segunda-feira (15 ).

“Fomos até a Fundação onde as canoas estão guardadas e realizamos o registro fotográfico, além de coletar as dimensões para compor o laudo que foi enviado para um especialista em embarcações do Iphan de Santa Catarina”, revela.


Fundação Aldeia do Guajirú, local onde estão as peças. (Foto: Kívia Soares/NE10 RN)

Onésimo Santos conta que na primeira avaliação feita pelo Iphan-RN existe uma hipótese das canoas serem de construção mista, ou sejam indígena e portuguesa. Isso se deve ao fato de que uma delas tem uma corrente de ferro forjado, possivelmente feita por um ferreiro. “Cada um dos elos tem espessura e tamanho diferentes, o que confere a eles uma característica de terem sido feitos artesanalmente”, explica.

Ainda segundo o superintendente do Iphan-RN foi recomendado aos responsáveis pela Fundação de Cultura Aldeia do Guajiru, que não retirem as embarcações do local até que o laudo seja concluído.  “Após essa análise inicial para descobrir a origem das canoas, caso seja necessário, o especialista poderá vir in loco retirar amostras da madeira, quando será possível conhecer a idade e o tipo dos troncos utilizados na construção”, explica.


Técnicos do Iphan em vistoria inicial (Foto: Iphan-RN/Divulgação)

Ele ressalta, no entanto, a importância de não retirar elementos do sítio arqueológico da Lagoa de Extremoz sem a presença dos órgãos competentes. No local já foram achados outros vestígios como um flecha indígena. “Já que foram retiradas dessa forma, a única recomendação que demos foi deixá-las onde estão para que não haver perdas, até que nós decidamos o que será feito em definitivo para preservar esse patrimônio histórico”, disse Onésimo Santos.

As canoas aparentam ser do século 16, época em que padres jesuítas estiveram na região conhecida como Aldeia Guajiru para catequizar os índios que lá habitavam.  A previsão do Iphan-RN é de que até a próxima semana o resultado do laudo inicial seja divulgado, para então dar novos encaminhamentos ao caso.


Além das canoas, outras peças históricas encontrados em Extremoz (Fotos: Canindé Santos)

MAIS ÍNDIOS NO DO QUE MUITOS IMAGINAM - A história indígena está profundamente ligada com a própria história de Natal e do Rio Grande do Norte, tanto é que o gentílico “potiguar” é usado para denominar quem nasce no estado. O termo vem dos Potiguaras ou “comedores de camarão”, tribo que habitou parte do litoral nordestino quando os portugueses chegaram.

No entanto, dados históricos locais no século 20  apontavam para o fim do remanescente índio no RN desde 1872. Com o passar dos anos esse desaparecimento étnico vem perdendo força, o que pode ser confirmado após o último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, que revelou a existência de 2.597 indígenas no estado. Em 1991, os registros apontavam para apenas 394 índios em terras potiguares e, em 2000, esse número aumentou significativamente para 3.167.

Pesquisadores declaram a existência de seis tribos em evidência no Rio Grande do Norte, confirmadas pela sub-coordenadoria da Fundação Nacional do Índio (Funai), instalada recentemente em Natal, no ano de 2011. As comunidades de Sagi Trabanda, em Baía Formosa; Mendonças do Amarelão, na cidade de João Câmara, Eleóterios do Catú, em Goianinha e Canguaretama, Tapará em Macaíba e as comunidades Banguê e Caboclos, em Assú, não reúnem todos os índios do Estado, mas a afirmação de identidade é o começo para a defesa dos direitos indígenas.


Regiões mais escuras do mapa possuem maior concentração de indígenas segundo o IBGE (Fonte: IBGE/ Reprodução Funai-RN)

O representante da Coordenadoria Técnica Local da Funai no RN, Martinho Andrade, explica que apesar da existências dessas comunidades os dados demonstrados pelo Censo 2010 contabilizam em sua maioria os “índios urbanos”, ou seja, pessoas que se auto-declaram índias mas moram nas áreas urbanas,  com costumes totalmente urbanos e que se identificaram como indígenas pelo conhecimento próprio sobre seus descendentes.

Ainda segundo ele, apesar da historiografia local ter relutado em reconhecer o não desaparecimento da etnia, o RN tem presença indígena em dados oficiais. A maior parte dos auto-declarados ou auto-reconhecidos índios está em 20 municípios potiguares, que somam quase 70% da população dessa etnia no Estado.

Só em Natal são 866 índios auto-declarados; em Parnamirim 204; em Mossoró, 176; em Ceará-Mirim, 73; e em Extremoz, 58 índios. Já nas cidades onde há comunidade com costumes preservados, pelos dados oficiais do IBGE, o número chega a 22 em Baía Formosa; 234 em João Câmara; 60 em Goianinha; 53 em Canguaretama; 35 em Macaíba; e 48 em Assú.


Índios da comunidade Sagi Trabanda em Baía Formosa (Foto: Reprodução/Intertv Cabugi)

Entretanto, existem alguns aldeamentos que não foram vistos com um olhar diferenciado pelo Censo, como nos explica Andrade. “Provavelmente a metodologia do recenseador pelo fato da historiografia oficial trazer informações como se esses índios não existissem mais, ele notadamente não fez a pergunta sobre a questão indígena, perguntou pela cor da pele”, pontua.

E conta também um caso ocorrido com uma das comunidades potiguares. “Na comunidade dos Mendonça do Amarelão, de João Câmara, por exemplo,  isso ficou bem claro em uma assembléia feita em 2011, onde foi perguntado por que isso veio a acontecer, já que houve treinamento dos recenseadores ”, revela.

ESTEREÓTIPO - Martinho Andrade chama atenção para o estereótipo criado sobre o índio, que impede a percepção da dinâmica histórica e cultural dos indígenas cada vez mais dentro do contexto urbano e tecnológico sem que eles percam sua identidade.

“O interessante é que os índios não deixam de ser índios por estarem vivendo nas cidades. A cultura é dinâmica, eles incorporaram vários hábitos. O índio que ainda está no nosso imaginário é o da colonização portuguesa e essa história não foi atualizada”, reitera.


Cacique da tribo descendente dos Potiguaras (Foto: Reprodução/Intertv Cabugi)


“Essa dinâmica cultural não foi trazida para sala de aula, para dizer que eles continuam sendo índios e entraram na sociedade trocando valores. Nós temos muitos hábitos adquiridos deles, mas quando é o inverso apontam como se eles não fossem mais índios”, acrescenta o representante da Funai.

No entanto, Martinho reconhece que os traços da herança indígena estão por toda parte nas comunidades no Estado, como o estilo de vida, a agricultura de subsistência e a alimentação, e, principalmente, os traços físicos. Outro fator comum é que eles vivem em precariedade nas condições de educação, moradia e saúde. 

"O que está ocorrendo é um aumento no número de indígenas migrando para as cidades em busca de melhorais nas condições de vida, pois com alguns problemas que existem na zona rural fica difícil manter os costumes totalmente inalterados”, finaliza.

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