
No Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza, uma adolescente de 17 está internada após uma retroescavadeira atingir a traseira da moto, quando voltava para casa de uma festa. Ela havia bebido e seu companheiro, que estava na garupa, morreu. Ele está internado no cemitério de Milhã (301 km de Fortaleza) e ela afirma que irá visitar o túmulo do rapaz assim que tiver alta - de preferência, conduzindo uma moto, apesar de não ter carteira de habilitação.
A jovem endossa a pesquisa realizada pelo médico Lineu Jucá, cirurgião vascular do IJF. Na dissertação de mestrado de Jucá, a ser defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o médico verificou que 54,5% dos condutores atendidos pelo maior hospital de emergência do Ceará não possuem documento de habilitação. A pesquisa foi realizada entre janeiro de 2007 e fevereiro de 2008. “A maioria das causas da violência no trânsito com moto é por falta de preparo e orientação”, descreve o angiologista.
Mais de 100 pessoas aguardavam por vagas em enfermarias do IJF na semana passada. Algumas pessoas esperam em macas no corredor há meses. Vinte esperam por leitos de UTI. “O atendimento é jocoso, precário e a culpa não é dos médicos. Olhando de longe, até parece que aguardam por um batizado universal”, julgou o médico. A maior parte era de vítimas de acidentes com motos vêm de municípios do Interior (69,9%).
Os acidentes de trânsito já são um mal da saúde pública no Brasil. A moto traz 27,5% consequências mais graves para o condutor e passageiro se comparado com acidentes de veículos. “São bilhões de reais gastos com acidentes de moto que poderiam ser evitados”, reclama Lineu Jucá.
Para Rosário dos Anjos, 38, internada há 18 manhãs, o tratamento é humilhante. Ela está “fazendo cocô e xixi nessa maca. Na frente de todo mundo, minha filha, só com a cobertura de um tecido", decreveu. Ela é do sertão de Crateús (354 km de Fortaleza) e caiu da garupa da moto. “E a previsão de fazer a operação é bem dois meses”, desanima-se. Mas, logo depois, recupera o sorriso: “pelo menos a gente sabe que os médicos daqui são os melhores”.
Estatísticas - Os custos de uma internação para acidentados de moto, em Fortaleza, chegam a R$ 176 por dia, de acordo com o Instituto Dr. José Frota (IJF). Em 2010, foram 6300 casos de internamento. A pesquisa também indica que, por falta transporte público eficiente no Interior, pessoas que sofrem acidentes de moto não abandonam o veículo, exceto quando há uma consequência muito séria, como uma amputação.
Os acidentes de moto cresceram 15,7% em 2010, em relação ao ano de 2009. Neste ano, nos três primeiros meses, houve 1.601 atendimentos de acidentados, enquanto no mesmo período de 2010 foram 1.552. Entre as vítimas, 60,1% têm entre 20 e 40 anos; e 62% dos acidentes de moto acontecerem sexta, sábado ou domingo - segundo Jucá, período que coincide com maior consumo de álcool.
