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Pernambuco - 23.04.14 - Atualizado às 08h59

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Santa sensação: a pernambucana Beatriz Borba deixou a boate Kiss minutos antes de tudo acontecer

Publicado em 03.02.2013, às 08h03


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Na tragédia em Santa Maria (RS), 237 pessoas morreram. A maioria jovens
Foto: Agência Brasil

Gustavo Carratte Especial para o NE10

“Os celulares não param de tocar, e isso está doendo em nós”, disse um dos bombeiros presentes no resgaste às vítimas de Santa Maria-RS. Depois de consumada a tragédia - com a combinação explosiva entre a superlotação da boate, a quase inexistente fiscalização dos órgãos responsáveis, a leviandade do show pirotécnico em um ambiente fechado, a falha do extintor na tentativa de conter o princípio de incêndio, a falta de sinalização adequada para indicar a saída do local e a demora para que seguranças entendessem que aquela multidão não eram apenas centenas de jovens querendo sair de uma boate sem pagar a conta -, os mais variados toques ecoavam pelas dependências da Kiss e chegavam aos ouvidos dos socorristas como a mais melancólica das marchas fúnebres.

Em uma cidade de pouco mais de 260 mil pessoas, são mais de 230 que não seguirão as suas vidas. Saber que o número ainda pode crescer só aumenta a dor. E ela em nada diminui quando, se comparada à quantidade de vítimas fatais com a população de cada município, percebe-se que, no Recife, seria como se quase 1,4 mil deixassem familiares e amigos. Em São Paulo, o centro mais populoso do Brasil, seriam mais de 10 mil.

Não tão distante dali, onde sirenes tocavam com a mesma intensidade que os aparelhos telefônicos, também vibrava outro – este, já ao amanhecer. Beatriz Borba, de 18 anos, não sabia muito bem o que estava acontecendo. Natural de Olinda, atendeu à ligação com a mesma sensação de incerteza que sentira no início da madrugada daquele fatídico 27 de janeiro de 2013.

A jovem, que mora com seus pais na capital de Pernambuco, chegou à Kiss pouco antes da meia-noite. “Isso parece um labirinto”, pensou, logo na entrada, ao deparar-se com portas, escadas e rampas, percebendo que sentir-se à vontade na casa de festas em que estreava seria uma missão complicada. Com o seu namorado, Maurício Sanchotene, e mais três amigos, Bia não aguentou três horas sequer naquele ambiente. Às 2h15, foi arrebatada por algo que já desistiu de tentar decifrar. Não sabia ao certo o que sentia, mas tinha certeza de que não era ali o seu lugar.

Deveria estar saindo de um barzinho com Maurício, assistindo àquele bom filme que invariavelmente aparece em algum dos canais da TV nas noites de pouco sono, abrindo mão de algumas horas de suas férias para não perder o ritmo de estudos do curso de Sistema de Informação que faz em seu estado ou, simplesmente, dormindo. Naquele momento, qualquer programa era mais empolgante do que estar na Rua dos Andradas, 1925.

Frequentadora não tão assídua assim de baladas, Bia disse a Maurício que era hora de ir embora. A olindense não escutou a resposta que tanto queria logo de início, e então deu-se um tempo. Chegou perto do palco, dirigiu-se à Área Vip, teve um breve mal-estar e foi até o banheiro. Deixou passar alguns minutos até que o namorado, gaúcho e um ano mais velho, concordasse com a ideia de abandonar o local.

Até então, a Gurizada Fandangueira era apenas uma banda que tocava músicas, não uma produtora de espetáculos de luzes, e a tentativa de impressionar o público com um sinalizador ainda não tinha recebido a maldita colaboração da espuma de isolamento acústico para ganhar a extensão do teto; os outros amigos de Beatriz estavam bem como Anderson, o único sobrevivente entre os três que resolveram esticar a noite; e ela era apenas uma turista de 18 anos, em Santa Maria desde o último dia 20 e disposta a permanecer por lá até o final de fevereiro.

Na manhã deste domingo, acordou uma criança. Um bebê de uma semana de vida. Que pode comprar uma passagem de avião e retornar para Recife quando quiser, que aprendeu a controlar o próprio sofrimento para contar aos curiosos como foi a sua experiência em um dos episódios mais trágicos que o País já viveu e que consegue atender às ligações que recebe.

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