
Senti a voz embargada e o peito apertado quando escutei os clarins de Momo entoarem, pela centésima vez só na manhã desta Quarta-feira de Cinzas, o Hino do Elefante de Olinda:
"Olinda!
Quero cantar
A ti, esta canção
Teus coqueirais
O teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração
De amor a sonhar
Minha Olinda sem igual
Salve o teu Carnaval."
Logo eu, anti-folião confesso, que comparava o frevo pernambucano com instrumento de tortura!!! Pago com a língua e com o coração. Eu e meus primos paulistas praticamente não nos desgrudamos nas últimas horas. Emendamos a folia da terça na Cidade Alta com o Mungunzá de Zuza e Thaís e o comecinho do Bacalhau do Batata, aproveitando ao máximo qualquer bloco, troça ou bate lata que cruzasse o nosso caminho. Pois era chegada a hora da despedida. E, ao depender de nós três e da multidão que ainda lota as ladeiras de Olinda, a folia poderia se esticar por mais uma semana e ainda seria pouco. Mas os galalaus têm que ir para o aeroporto, onde minha mãe e avó já nos esperam com as bagagens e os olhos marejados.
Caminhamos pelas ruas históricas ressacadas, mais sujas e fedidas do que o habitual, em direção à Avenida Joaquim Nabuco, na esperança de encontrar algum táxi. Antes, porém, paramos por um instante para contemplar o Largo do Mosteiro de São Bento, que estava completamente vazio. Nem de longe lembrava o palco da festa vermelha e amarela de ontem, quando a forma quimérica de um dragão comandava a brincadeira fazendo movimentos coreografados, como a ondulação de um rio, ao som da orquestra de frevo. E foi dentro do fantoche gigante do Eu Acho É Pouco, feito de pano, arame, madeira e gente alegre, que o improvável aconteceu. A galegona me tascou um beijo e acho até que me suspendeu um pouco no ar. Olho para ela agora e ainda me sinto assim... flutuando! O amor é um troço piegas, eu sei...
Mas digo logo que não fui o único que se deu bem na festa. O galalau reencontrou sua fadinha e, a julgar pelo amasso que deu no travesti na porta da igreja, parece que se livrou de todo e qualquer preconceito contra os homossexuais. Carnaval tem mesmo esse poder de quebrar amarras. Quem diria que eu estaria ali, entre duas a três mil pessoas, acompanhando o bloco, que seguiu pela ladeira da Prefeitura, Rua Sigismundo Gonçalves, Praça do Carmo, Rua do Bonfim, Ladeira da Misericórdia, Largo do Amparo, Quatro Cantos, Avenida Bernardo Vieira de Melo até chegar no Mercado da Ribeira, onde aconteceu a dispersão e tiramos mais uma foto.
- Bons momentos vivemos aqui, exclamou o primo.
- Pena que está terminando, lamentou a prima.
- Mas não precisa terminar assim. Ainda dá tempo de curtir o restinho do Batata e, com sorte, podemos até ver Alceu cantando para os foliões da sacada da sua casa. E aí, vamos?
Como um trio de loucos fugidos do hospício, corremos de volta para Alto da Sé, onde alcançamos o bloco dos garçons e nos entregamos ao Carnaval. Preciso dizer que alguém vai perder o avião hoje? Olhem como estamos felizes na foto abaixo e me poupem da resposta. Deixemos as preocupações para amanhã porque hoje ainda queremos frevar!
TEXTOS ANTERIORES:
» Sexta - Iniciado, o Carnaval está
» Sábado - Vingança é um prato que se come quente... no Galo!
» Domingo - Um encontro de super foliões nerds
» Segunda - Um pouco de lirismo para recuperar as energias
» Terça - Vamos bater lata no bafo do dragão
carnanval é assim meu amigo, ainda bem que você despertou, com certeza voce irá enfrentar um 2012 muito mais feliz mais leve e solte, pois o frevo tem essa capacidade. E viva seus primos!
