
Fotos: Tiago Silva/Especial para o NE10
As mãos do garoto deslizavam pelas roupas, cabelo e corpo da boneca gigante. Quando não, estavam para trás, enquanto observava, curioso e, ao mesmo tempo, encantado, o símbolo do Carnaval olindense. Foi na concentração dos Bonecos Gigantes, na Terça-feira Gorda (21), no Largo do Guadalupe. O menino, de 5 anos, é Fofão, como se apresentou. Ele quer ser bonequeiro quando for maior.
Os olhos diziam mais que a boca. Meio tímido, custou a falar o nome verdadeiro (parecia até que não sabia) e foi baixinho, quase para dentro, que soltou "Luciano". Aparentava ser popular o garoto, correu para casa depois de gritos de "Aê Fofão, tá dando entrevista" vindos de quem passava.

ADMIRAÇÃO | Em seu sonho, Fofão perpetua uma tradição
A residência dele, um lugar simples, com cômodos insuficientes para abrigar os pais e mais três irmãos, fica em frente ao local onde os gigantes são colocados antes de desfilarem no Carnaval. Luciano nasceu e vem vivendo ali, assistindo, ao longo dos anos, aos bonecos se aprontarem para a festa. Foi na porta de casa que cresceu a paixão pela coisa toda. "Se deixar ele vai sozinho pular pelas ruas", contou a mãe, a estudante Manuela de Lima. Ela acha que é de sangue, já que ama os quatro dias de Momo tanto quanto o filho.
"Ele acordou dizendo, mais uma vez, que queria um boneco. Às vezes, diz que quer construir um, mas sempre deixa clara a vontade de ser bonequeiro". Dava para notar ao ver os risos contidos de Fofão ao mesmo tempo em que olhava os gigantes na calçada da frente.
Franzino, pela estatura deveria ser chamado de Fofinho. Força, no entanto, não é o principal para Fofão poder carregar um boneco. Seu Washington Paiva, bonequeiro há 40 anos, explicou. "É preciso habilidade e equilíbrio para fazer o gigante dançar sem cair". Hoje tem 46 anos, mais ou menos com a mesma idade de Luciano começou o ofício do coração. Para aprender é preciso costume e muito amor, ele conta.
Pois que venha o costume porque o amor parece que Fofão já tem de sobra.
O olhar crítico traz à tona histórias de anônimos tão ricas, ou até mais, quanto as contadas todos os anos nas coberturas carnavalescas...
