

A indumentária do caboclo de lança é abençoada especificamente para cada pessoa. Quem usar a roupa de outro pode sofrer punições por parte de entidades ou orixás
Foto: Carly Falcão/ JC Online
Por Carly Falcão
Do JC Online
Quem vê um maracatu rural desfilando nos Domingos de Carnaval com aquela disposição e trajes coloridos não faz ideia da concentração que envolve os integrantes do cortejo antes e durante as apresentações. Seja por conta da estreita relação com religiões afro-brasileiras ou em razão do resgate às tradições do campo, os grupos de Maracatu de Baque Solto não abrem mão de certos rituais.
Laurinete de Assis Batista, 70, é Rainha do Maracatu Cruzeiro do Forte, o maracatu rural mais antigo do Recife, fundado em 1929, no bairro do Cordeiro, Zona Oeste do Recife. A mãe de santo faz questão de 'abençoar' o local dos ensaios antes da chegada do grupo. Enquanto reza para Exú e Pomba-gira, ela despeja cachaça e cerveja, respectivamente, no chão. "Sem Exú não somos ninguém. Tudo que queremos, temos que pedir permissão a ele", explicou Dona Laurinete. Veja no vídeo abaixo mais detalhes sobre os rituais feitos antes dos dias de folia.
Os membros do maracatu têm extremo cuidado com as indumentárias, não somente para evitar danos materiais, mas para que elas fiquem imunes às más vibrações. As bonecas (calungas) trazidas pelas damas-do-passo não podem ser carregadas por qualquer pessoa. "Eu só entregava para quem eu via que merecia, normalmente era uma jovenzinha", revelou Célia do Nascimento, 74, que foi dama de passo por 59 anos.
Da mesma forma que essas mulheres, os caboclos de lança são proibidos de emprestar seus trajes de festa. "Já ouvi casos de pessoas que foram castigadas pelas entidades, de gente que caiu feio para trás na hora do desfile", lembrou o caboclo de lança Eraquitã Santana, 44. Outra curiosidade envolvendo estes dois personagens é que muitos evitam ter relação sexual nos três dias de momo.
BANHO DE LIMPEZA - Em uma bacia com água, se misturam ervas como arruda, manjericão e macaçá. Depois de esfregar as plantas na água e juntar a mistura a um perfume com essência de alfazema, toma-se um banho de cabeça com a poção. O rito de lavagem do corpo acontece no Sábado de Zé Pereira. A limpeza seria para evitar problemas na hora da folia, como brigas entre os membros do grupo.
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